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Leia a carta das curadoras Sandra Benites e Clarissa Diniz comunicando seu desligamento do projeto Histórias Brasileiras e detalhando a violência institucional do museu

Da Redação

Publicado em: 12/05/2022

Categoria: Da Hora, Destaque, Notícias Quentes

Arte Nina Lins, a partir do material gráfico produzido pelo DTP [@decolonizethisplace] para o movimento Strike MoMA (2021)

“A todas as pessoas convocadas a integrar o projeto do núcleo Retomadas da exposição Histórias Brasileiras, a ser realizada no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, MASP, a partir de julho de 2022 – artistas, ativistas, cineastas, fotógrafos, movimentos sociais, carnavalescos, escritores, atrizes, linguistas, colecionadores, instituições, universidades, presentes em corpo ou em memória:

Agrippina R. Manhattan, Alberto de Noronha Torrezão (Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro), Allan Weber, André Vargas, André Vilaron, Arissana Pataxó, Bezerra da Cruz (Museu Internacional de Arte Naif do Brasil), Carmelita Lopes dos Santos – Náma Telikóng Pury, Clóvis Irigaray (Universidade Federal do Mato Grosso), Cristal, Curt Nimuendajú (Instituto do Patrimônio Artístico e Histórico Nacional), Denilson Baniwa, Diambe da Silva, Edgar Kanaykõ Xakriabá, Eduardo Navarro, Estação Primeira de Mangueira, Fefa Lins, Felismar Manuel Nhamanrurí Schuteh Pury, João Zinclar, José Mariano da Conceição Velloso (Biblioteca da Universidade Federal da Bahia), Jota, Jovanna Cardoso (ASTRAL – Associação de Travestis e Liberados), Lampião da Esquina (Acervo Bajubá), Lourival Cuquinha, Lucílio de Albuquerque, Marçal de Souza Tupã-i Guarani (MAPA Filmes e Armazém Memória), Marcelino Freire, Marcelo Sant’Anna Lemos, Mário Juruna (Rodrigo Arajeju, 7G Documenta e Machado Filmes), Movimento de Ressurgência Puri, Movimento Sem Terra, Naruna Costa, Nídia Aranha, Osvaldo Carvalho, Oswald de Andrade, Paulo Jares, Paulo Nazareth, Pisco del Gaiso, Podeserdesligado, Randolpho Lamonier, Rosana Paulino, Sallisa Rosa, Sebastião Salgado, Sidney Amaral, Tuíra Kayapó, Ventura Profana, Xadalu Tupã Jekupé e Yhuri Cruz.

É com muito pesar e, ao mesmo tempo, indignação, que nós, Sandra Benites e Clarissa Diniz – respectivamente, curadoras adjunta e convidada do MASP –, cocuradoras da mostra Histórias Brasileiras e proponentes de um de seus núcleos, o Retomadas, escrevemos esta mensagem para contextualizar o cancelamento do referido recorte curatorial e, portanto, de nossa participação em Histórias Brasileiras.

A dolorosa decisão, tomada pouco mais de 60 dias antes da inauguração da exposição, vem pela impossibilidade de incluir, no Retomadas, a completa representação das retomadas que o intitulam, a saber: o conjunto de cartazes/documentos do Movimento Sem Terra e as fotografias de João Zinclar, André Vilaron e Edgar Kanaykõ.

Além de suas obras documentarem a luta pela reforma agrária e pela demarcação dos territórios indígenas, o MST e os mencionados fotógrafos são pessoas com as quais temos dialogado ao longo dos últimos meses, abrindo arquivos, gavetas, HDs, escolhendo imagens, elaborando uma forma de representação coletiva por entre reuniões, conversas, e-mails.

Nos meses em que estivemos trabalhando na instituição, atuamos proativa e dedicadamente, atendendo todas demandas que nos foram informadas, a despeito da inexistência de um cronograma indicado para guiar nossas atividades curatoriais. Apesar do cuidadoso trabalho realizado, para a nossa surpresa, o MASP não concordou com a integral inclusão da representação das retomadas pelo suposto descumprimento de um prazo que não nos foi informado pela produção ou pela curadoria do Museu.

Impedidas de levar adiante nosso acordo com o Movimento Sem Terra, seus fotógrafos e Edgar Kanaykõ como sanção a um erro que sabemos não ter cometido, sentimo-nos desrespeitadas, injustiçadas e instadas, em consequência de tal decisão, a trair a confiança deste que não é só o maior movimento social do Brasil, como também é a coluna vertebral do Retomadas.

Aceitar a exclusão das imagens das retomadas em nome da permanência do núcleo nos levaria a ser desleais com os sujeitos e movimentos envolvidos na nossa curadoria – contradição que não estamos dispostas a negociar por não concordar com tamanha irresponsabilidade.

O Retomadas é sobre a urgência de revermos as éticas e políticas coloniais de nossos territórios, línguas, corpos, representações e museus. Do nosso ponto de vista, mantê-lo à revelia da representação das próprias retomadas que lhe dão título, argumento e sentido social nos levaria a ser anti-éticas em nome da ética, excludentes em nome da inclusão, não-representativas em nome da representatividade, expropriadoras em nome da não-apropriação, silenciadoras em nome da voz.

Nos levaria, por fim, a praticar a colonialidade contra a qual o núcleo se insurge.

É por entendermos que curadorias e instituições devem ser responsáveis, cuidadosas e comprometidas, por acreditarmos profundamente na posição política evocada pelo Retomadas e por nos identificarmos integralmente com os pressupostos éticos que o sustentam, que não podemos naturalizar essa contradição ou considerá-la uma questão técnica. Desconsiderar a seriedade política dessa situação é, aos nossos olhos, uma posição política.

Lamentamos imensamente que tenhamos chegado a esta situação que decerto prejudica e desrespeita o trabalho de nossos colaboradores até aqui, pelo que pedimos nossas mais sinceras desculpas.

Acreditamos, contudo, que seguir sem a integral representação das retomadas seria um insulto à própria história política das lutas pela reforma agrária e pela demarcação dos territórios indígenas no Brasil. Seria uma afronta incontornável e cínica e, por isso, enfatizando nossas desculpas, pedimos também a compreensão de todes diante do dilema no qual fomos impiedosamente lançadas.

É por respeitarmos profundamente o gesto da retomada que não vamos legitimar o seu esvaziamento institucional. À revelia de nosso desejo, nos sentimos impelidas a cancelar o Retomadas pela impossibilidade de ele vir a representar respeitosa e responsavelmente os processos políticos que justificam sua proposição e existência. Às vezes, curadoria também é recuar.

Acreditamos que em algum momento precisamos tentar interromper esses ciclos de eterna reprodução da expropriação, do apagamento e da exclusão. Mesmo que, como neste caso, isso prejudique nossa relação com a instituição, frustre a todos os envolvidos – curadoria, museu, equipe, artistas, MST, emprestadores, etc –, nos deixe muitíssimo tristes, decepcionadas e desgastadas.

Gostaríamos de agradecer imensamente a todes que confiaram em nós e que trabalharam para que pudéssemos chegar até aqui. Entendemos que, apesar da dissolução do núcleo, o trabalho não foi em vão: ele continua na medida em que se faz como uma posição ética e política, e não como um tema ou um levantamento iconográfico numa exposição.

Um cancelamento ou uma recusa também podem, apesar de toda a dor envolvida, ser sementes para outras formas de se fazer relações institucionais e curatoriais e, por isso, levaremos esta esperança conosco.

Nos próximos dias, acompanhando os comunicados do MASP, entraremos pessoalmente em contato com todas as pessoas que nos acompanharam até aqui para enfatizar nossos agradecimentos e desculpas. Ficamos também à disposição de todes.

Com carinho, gratidão e esperança,
Sandra Benites e Clarissa Diniz”.

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