Belkis Ayón: o eterno retorno de Sikán

Ao se aproximar do universo mítico e misógino da Sociedade Secreta Abakuá, e representá-lo em sua obra, a artista Belkis Ayón afirmou seu compromisso com a reivindicação da mulher dentro da sociedade cubana

Orlando Hernández
A Ceia (1991) não teria por que estar inspirada na famosa cena bíblica, mas seria originada em qualquer reunião ou refeição caseira (Foto: Michel Pou/ Cortesia Estate Belkis Ayón)

Talvez Belkis Ayón estivesse nos falando o tempo todo da morte, do sacrifício, da traição, da culpa, do castigo, meditando sobre as noções aparentemente gerais, abstratas, mas que se encontram fortemente ligadas à existência humana, ao drama individual humano, e não simplesmente narrando e descrevendo com curiosidade etnográfica (e, naturalmente, com intenção estética) as histórias sagradas, os episódios rituais e os personagens míticos da Sociedade Secreta Abakuá. No entanto, o mais provável é que estivesse fazendo as duas coisas, quer dizer, recriando o mistério e a beleza dessa comunidade fraterno-religiosa afro-cubana para compreender melhor a natureza intrínseca desses conceitos gerais e, assim, poder criar seu próprio mistério, ou seja, expressar em suas obras – ou ocultar por trás delas – seus medos, sua incerteza, sua inquietação. Agora sabemos que Belkis foi deixando cair migalhas ao longo de sua curta carreira, caso quiséssemos seguir o rastro de seus sonhos, seus desejos e, também, de seus pesadelos, de suas impaciências, de sua desesperança. Entretanto, devemos reconhecer com dor que não encontramos (ou não encontramos a tempo) todas as migalhas. Pelo menos, não aquelas que pudessem ter evitado ou retardado que chegasse tão abruptamente ao fim do caminho.

A própria Belkis Ayón está representada em Sikán (1991), mito original da Sociedade Abakuá, aqui sentada majestosamente em seu trono, sustentando nas mãos o grande Segredo (Foto: José A. Figueroa/ Cortesia Estate Belkis Ayón)

A própria Belkis Ayón está representada em Sikán (1991), mito original da Sociedade Abakuá, aqui sentada majestosamente em seu trono, sustentando nas mãos o grande Segredo (Foto: José A. Figueroa/ Cortesia Estate Belkis Ayón)

A impressionante beleza que Belkis conseguiu em suas obras atraiu toda a nossa atenção e, talvez por isso, ninguém tentou descobrir mais detidamente os possíveis indícios ocultos dessa crise espiritual, anímica, psicológica, que, muito cedo – na precocidade dos 32 anos – a levaram ao suicídio. Seu caráter sociável, amoroso, e seu sorriso quase permanente também serviram como uma máscara, como um escudo contra qualquer possível suspeita.

Antes de continuar, talvez valha a pena explicar de que se trata a Sociedade Secreta Abakuá e, em especial, em que consiste o mito de Sikán, que lhe dá fundamento, e que inspirou as criações artísticas de Belkis Ayón. A Sociedade Secreta Abakuá (Ecorie Enyene Abakuá) é uma comunidade fraterno-religiosa “de ajuda mútua e socorro”, fundada em Cuba, no povoado de Regla, em 1836, e se origina das antigas “sociedades do leopardo” Ngbé e Ekpé, introduzidas em nosso país durante o tráfico de escravos por homens das etnias Efik, Efor, Oru e Ekoi, entre outras, procedentes da zona de Viejo Calabar, no sudeste da Nigéria e Camarões. Como na África, é uma comunidade estritamente masculina, onde não se permite a entrada ou a participação de nenhuma mulher. Abakuá funciona até hoje e possui milhares de membros em Havana, Matanzas e Cárdenas, e em nenhum outro lugar fora de Cuba.

Uma das versões do “mito da origem” de Abakuá refere-se a uma princesa chamada Sikán, pertencente à nação Efor, que uma manhã foi ao Rio Oddán para pegar água em uma vasilha e apanhou inadvertidamente um peixe misterioso, que, segundo a tradição, traria paz e prosperidade a quem o tivesse e que produzia um estranho som que representava a voz de um ancestral divinizado, o rei Obón Tanse, que era uma manifestação de Abasí, o Deus Todo-Poderoso. Quando colocou a vasilha com o peixe em sua cabeça, Sikán percebeu o som, a voz sobrenatural (úyo) e, dessa forma, foi a primeira a conhecer o grande segredo, sendo automaticamente consagrada. Com a autorização de Iyamba – o pai de Sikán –, esta é confinada por Nasakó, o bruxo do grupo, em um lugar oculto no bosque, para evitar que divulgasse o segredo entre as nações vizinhas, também interessadas em se apropriar do mesmo. Mas Sikán comentou o segredo com seu amante, o príncipe guerreiro Mokongo, pertencente à tribo vizinha dos Efik, que, então, se apresentou diante dos Efor para reclamar seu direito de compartilhar tal segredo. Sikán foi condenada à morte por traição ao grupo, ao revelar o segredo. Com a pele de Sikán, Nasakó construiu um tambor para tentar reproduzir o som de Tanse, mas isso não aconteceu. Tampouco seu sangue serviu para ativar magicamente o tambor, chamado Ekwe, de maneira que foi usado sangue de um bode (Mbori) e, assim, conseguiu-se finalmente a transmissão do som sagrado.

Todas essas aventuras foram imaginadas, reformuladas por Belkis, que, de maneira inesperada, passou a fazer parte desse elenco mítico ao reproduzir em suas obras sua própria imagem. Aqueles que a conheceram, ou quem ao menos viu seu retrato, reconhecem de imediato seu rosto, a forma de seus olhos e a intensidade de seu olhar na figura de Sikán e de outros personagens femininos de sua obra. Artisticamente, Belkis transformou-se em Sikán. Compartilhou com ela seu achado milagroso, a privação de seu poder e sofreu com ela seu papel de vítima, mas tentou, com sua obra, comentar, contestar e modificar seu trágico destino. Seu autossacrifício, em 11 de setembro de 1999, pode ser visto como um episódio imprevisto do antigo mito.

Diferentes leituras poderiam ser feitas dessas manobras expressivas e comunicativas, mas, de uma forma geral, todas demonstram sua profunda identificação com a tradição sociocultural e religiosa afro-cubana e seu compromisso com a reivindicação da mulher dentro da sociedade, como os dois temas ou a palavra de ordem (leitmotiv) mais claramente sugerida ou insinuada ao longo de toda a sua obra. Ainda que restassem muitos outros, talvez inexplorados. Curiosamente, o mundo fechado, esotérico e, evidentemente, misógino da Sociedade Abakuá terminou recebendo-a, agradecendo-lhe por sua obra e transformando-a na melhor mensageira ou embaixadora da beleza mítica e simbólica dessa comunidade, dentro da arte cubana e universal. Mas, com muito respeito às questões negativas de Abakuá, Belkis pode ser considerada também uma figura antagônica, devido às suas mensagens sutilmente contestadoras e reivindicadoras, com relação à mulher.

Mokongo (1991) constitui a imagem ao mesmo tempo venerável e detestável do autoritarismo paterno ou da sociedade patriarcal (Foto: José A. Figueroa/ Cortesia Estate Belkis Ayón)

Mokongo (1991) constitui a imagem ao mesmo tempo venerável e detestável do autoritarismo paterno ou da sociedade patriarcal (Foto: José A. Figueroa/ Cortesia Estate Belkis Ayón)

Olhando agora algumas das belas gravuras de Belkis, presentes na coleção Daros Latinoamerica, saltam-me à vista pelo menos duas características de sua obra, que se apresentam aqui com maior ênfase. Refiro-me, em primeiro lugar, à elegância, ao refinamento e ao caráter sossegado, clássico (ou classicista) de suas imagens, que parecem fazer referência não aos modelos da última vanguarda, como se poderia esperar de uma artista muito jovem, mas a obras renascentistas, neoclássicas, ou provenientes da história do retrato pictórico e fotográfico, que se regem pela convenção da “pose”. Esse tom sereno, pacífico, às vezes lânguido, provoca um interessante efeito de contraste, talvez de incongruência, com o mundo ativo, enérgico, muito frequentemente conflitivo, da Sociedade Abakuá. Servirá sua obra para “refrescar”, a partir da arte, a violência de muitos de seus ambientes? Outro aspecto que chamou minha atenção é o interesse de Belkis por aproximar-se do universo mítico e simbólico de Abakuá, sem perder de vista o cenário familiar, cotidiano, do qual o mito constitui um reflexo, uma extensão (e não o contrário).

A Ceia não teria por que estar inspirada na famosa cena bíblica popularizada pela pintura de Leonardo da Vinci, mas seria, isto sim, originada em qualquer reunião ou refeição caseira, onde igualmente ocorrem discussões, mal-entendidos, situações tensas, complexas. A obra Mokongo poderia constituir uma imagem ao mesmo tempo venerável e detestável do autoritarismo paterno ou, quem sabe, simplesmente da sociedade patriarcal, como um todo, em que Belkis viveu, ao passo que Sikán encarna a própria Belkis, que, sentada “majestosamente” em seu trono, sustenta nas mãos, quase com negligência, o grande Segredo; um segredo que, como demonstra sua expressão, entre assombrada e entristecida, constitui, antes, um motivo de decepção, de contrariedade e não de alegria. Por acaso, não foi precisamente a posse do segredo que ocasionou a morte de Sikán?

Apesar da aparência contida, relativamente serena, delicada, que toda sua obra possui, e da personalidade amável, afetuosa, da artista, Belkis Ayón foi uma criadora decisiva, instigadora, provocante, capaz de opor-se radicalmente aos convencionalismos e de enfrentar valentemente qualquer desafio. Apropriou-se de um tema difícil, talvez inquietante, que havia sido muito pouco tocado dentro da arte cubana, quase sempre de maneira superficial, decorativa, e por artistas exclusivamente homens, que não aprofundaram nem problematizaram seus conteúdos. Por outro lado, e um pouco por trás da história colorista, pitoresca, da arte cubana, Belkis decidiu, quase desde o início, utilizar somente o branco dos papéis e os tons escuros e cinza da tinta preta, com uma ou outra incursão pelo ocre e o amarelo. Olhando ainda mais longe, decidiu empregar uma das técnicas menos prestigiadas dentro da gravura: a colografia, que conseguiu levar ao seu auge, dedicando somente breves abordagens às técnicas da litografia, do linóleo ou da calcografia (talho doce), que já contavam com uma ampla e prestigiada tradição dentro das artes visuais cubanas. Foram, indiscutivelmente, ações e decisões fortes, ousadas, que demonstram a coragem, a audácia e o atrevimento de seu caráter. Gostaríamos de pensar que compreendemos as obras de Belkis, mesmo que estejamos talvez muito longe de conseguir. Creio que quaisquer que tenham sido suas motivações (estéticas, etnográficas, religiosas, feministas, de cunho filosófico ou existencial), Belkis Ayón realizou a única coisa verdadeiramente importante que pode fazer um grande criador, para provar sua condição de artista: criar obras de arte. E o fez de maneira incessante, com absoluta entrega, com veneração, com modéstia, até que conseguiu alcançar resultados de altíssima qualidade. De forma que seu legado tem garantido sua permanência e seu eterno regresso na memória artística de Cuba e do mundo. Para alguns, alcançar essa meta parece ser mais do que suficiente. Mesmo que nos doa que tenha escolhido um caminho tão vertiginoso para a imortalidade.

Texto originalmente produzido para o catálogo da exposição Cuba Ficción y Fantasia, na Casa Daros, RJ

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