Bia Lessa pensa o país a partir do Largo do Paissandú

Desejos de mudança e superação dos males da civilização movem projeto coletivo orquestrado no Sesc pela diretora e curadora

Paula Alzugaray

Publicado em: 01/04/2022

Categoria: Crítica, Da Hora, Destaque

Detalhe de Asfixia, primeiro capítulo da instalação-manifesto Cartas ao Mundo

“Por que eu tenho que ter uma batedeira se eu bato um bolo uma vez por mês? Por que a batedeira não pode ter um uso coletivo? Quem inventou que eu, você e o vizinho têm que ter uma batedeira?”, indaga Bia Lessa a seLecT. “Antes da segunda guerra, as pessoas tinham 180 objetos em casa. Hoje a gente tem 10 mil. A gente deixou de ser cidadão pra ser consumidor”, diz a diretora na abertura de Cartas ao Mundo, no Sesc Avenida Paulista.

Cartas ao Mundo é o título de um livro organizado por Ivana Bentes, em 1997, que reúne mais de uma centena de cartas trocadas entre o cineasta Glauber Rocha e seus pares. Cartas ao Mundo é também um convite da curadora e diretora Bia Lessa “a reler Glauber sob a perspectiva de hoje”, encarando de frente a perda da dimensão coletiva e pública da vida nas cidades brasileiras.

Esse convite assume a forma híbrida e mutante de uma exposição-instalação, um manifesto, um tríptico fílmico, uma instalação virtual em cinemas abandonados, uma proposta de ocupação do Largo do Paissandú, cortejos na avenida Paulista, em uma remontagem constante de todos os elementos que constituem a obra-manifesto. Cartas ao Mundo é tudo isso e mais uma equipe de trabalho formada para pensar soluções para os problemas que asfixiam a vida contemporânea.

Três capítulos se alternam ao longo dos dias da semana na grande Praça do térreo do Sesc Avenida Paulista, rente à calçada, como um anti-espelho da vida real que passa lá fora. Com filmes, performances ao vivo, projeções de imagens de obras de 80 artistas internacionais, citações de Marx, Davi Kopenawa, Milton Santos, Viveiros de Castro, Rolnik, Ailton Krenak, Flora Süssekind, entre dezenas de autores, a expografia se transforma de hora em hora para representar ciclos de doença e cura.

Fotos (esta e as próximas): Detalhes de Asfixia, primeiro capítulo da instalação-manifesto Cartas ao Mundo

Capítulo 1: Asfixia

“Eu quero matar o mundo.” A frase, gritada de dentro do filme Câncer (Glauber Rocha, 1972) ganha a tela, a Praça e os cartazes-colagens produzidos por Arnaldo Antunes. O primeiro capítulo da opera rizomática de Bia Lessa é um espelho ampliado da explosão de lixo, carros, poluição, violência, desigualdade. Móveis hospitalares e 300 sacos de lixo compõem a expografia acerca da realidade distópica contemporânea. O Cachorro Sarnento – Retrato do Brasil (1984), fotografia de Miguel Rio Branco feita em Salvador, é o instantâneo do Brasil hoje.

Capítulo 2: Mercadoria

“A propriedade privada nos fez tão estúpidos que um objeto só é nosso se o tivermos.” A frase pinçada de Karl Marx dá o tom do segundo módulo da exposição-manifesto, que questiona a transformação de cidadãos em consumidores numa escalada vertiginosa, da revolução industrial ao momento em que as obras de arte se converteram em mercadorias. Na expografia, móveis hospitalares ocupam o espaço aéreo; no filme, as pessoas jogam tudo de que não precisam pelas janelas.

Capítulo 3: O Comum

Uso coletivo, árvores frutíferas, pontes de fauna, moradia nômade, praça-floresta… estas são algumas das proposições a que chega quem conseguir atravessar todo o “mal da civilização” processado nos dois primeiros capítulos da série (aludindo aqui a Freud, que não necessariamente está entre a miríade de citações da mostra, mas que emerge como referência possível, entre as muitas outras que possam brotar no imaginário das pessoas que visitarem os espaços físicos e virtuais da mostra).

“Existe um mundo oficial e um não-oficial. O oficial já não serve: educação não educa, a lei não é justa, a medicina não nos cura. Vamos mudar esse negócio”, continua Bia Lessa em conversa com a seLecT. O terceiro capítulo está calcado no resgate do conceito de “comum”, de Antonio Negri e Michael Hardt. O comum como uma alternativa real em que “todas as pessoas são iguais; adquiriram por meio da luta política certos direitos inalienáveis; e entre esses direitos incluem-se a vida, a liberdade, a busca da felicidade, e também o acesso livre ao comum, à igualdade na distribuição da riqueza e à sustentabilidade do comum” (trecho de Declaração: Isto não É um Manifesto”, n-1 Edições).

“Obviamente não será um mundo ideal, porque o homem tem complexidades e os problemas sempre virão. Mas como lidar com os problemas que virão sempre? O Paulo Mendes [da Rocha] falava: a gente não sabe muito bem o que fazer, mas a gente sabe bem o que não fazer”, reflete.

O grupo de trabalho montado por Lessa elegeu o Largo do Paissandú como laboratório de invenção de um mundo comum. “A gente foi construindo ali. Transformando. A gente descobriu que tinha um rio embaixo, então o rio aparece, a gente deixou uma floresta crescer… Transformamos o Cine Paissandú numa imensa biblioteca, não só de livros, mas também de ferramentas e tecnologias, como quem diz: o pensamento tem que estar junto da ação. Eu tenho o livro, mas eu tenho a enxada”.

O lixo, que protagoniza o capítulo da asfixia, foi transformado. “Pegamos as estruturas dos outdoors que não se usam mais e estão nos ferros velhos e usamos aquilo pra fazer hortas urbanas aéreas em todos os espaços vazios”, diz Lessa.

Diante de um projeto tão coletivo, inventivo e propositivo, seLecT perguntou a Bia Lessa como ele poderia ultrapassar a esfera da cultura e do espetáculo e chegar a influenciar as politicas públicas. Por que não transformá-lo num dossiê a ser entregue aos agentes públicos? “É verdade, é uma boa ideia. Eu chamei de exposição-manifesto, mas deve-se criar uma exposição-documento”, responde a diretora.

Cartas ao Mundo, de 2/4 a 29/5, Sesc Avenida Paulista

 

 

 

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