Bienal em HD

9ª Bienal de Berlim reúne artistas da onda pós-internet, mas faz uma abordagem limitada dos problemas da Europa atual

Tobi Maier
Performance de Ei Arakawa na Bienal de Berlim (Foto: Cortesia do artista)

Vinte anos depois da primeira Bienal de Berlim (e da invenção do celular para o mercado das massas), a 9a Bienal de Berlim, com curadoria do coletivo nova-iorquino DIS, formado por Lauren Boyle, Solomon Chase, Marco Roso e David Toro, abriu no início de junho. Havia bastante especulação e polêmica sobre os conceitos e as estéticas que seriam promovidos pelos curadores, pois o DIS é mais conhecido por seu trabalho como estilistas e editores da revista DIS online do que por curadorias de exposições de arte. Possível então pensar que o grupo organizaria a sua bienal como evento online ou em lugares não convencionalmente usados para exposições de arte – como galerias comerciais ou butiques de moda. Porém, para a exibição dos artistas selecionados, muitos deles atribuídos à onda da arte pós-internet, os curadores escolheram cinco lugares emblemáticos de Berlim.

A promoção do trabalho de coletivo como se fosse corporativo resultou em uma mostra com limitada abordagem dos problemas da Europa atual – ao contrário, favorecendo os vencedores da globalização – e com pouca reflexão crítica da cultura pop e das estéticas do Silicon Valley.

Minha visita começa na European School of Management and Technology (ESMT), uma escola privada de negócios, localizada no prédio antigo do Conselho de Estado da GDR. O passado socialista do edifício é sobreposto pelo código atual da economia global; de forma que a estética socialista vigia silenciosamente as transmissões ao vivo dos índices alemães de ações. Simon Denny apresenta Blockchain Visionairies (2016), que, com três estandes de feira, debate como as nações e as corporações interagem na era da desregulamentação. As empresas Ethereum, 21 inc. e Digital Asset Holdings apresentam-se como plataformas monetárias descentralizadas, cujas visões e modelos de negócio dependem da blockchain, a tecnologia de bancos de dados que é a espinha do Bitcoin.

A Pariser Platz, anfitriã do Brandenburger Tor, da Embaixada dos Estados Unidos e do Hotel Adlon (na varanda do qual Michael Jackson balançou o seu bebê em novembro de 2002), é um lugar altamente turístico de Berlim. A praça foi escolhida pelo DIS como lugar central para a mostra da Akademie der Kuenste. Ei Arakawa,  em colaboração com Dan Poston e música de Stefan Tcherepnin, participa com a performance How to DISappear in America: The Musical, apropriando o livro homônimo do artista Seth Price com conselhos de como desaparecer sem deixar traços – nem sequer digitais. Na Coleção Feuerle, instalada num antigo bunker de telecomunicações dos Nazis, Josephine Pryde, nomeada pelo prêmio Turner este ano, apresenta Hands (2014-2016), uma série de fotografias que mostram as mãos de vários amigos e artistas coladas no celular.

What the Heart Wants, de Cécile B. Evans (Foto: Timo Kohler/ Cécile B. Evans)

What the Heart Wants, de Cécile B. Evans (Foto: Timo Kohler/ Cécile B. Evans)

 

No coração do KW Kunstwerke, a instalação What the Heart Wants (2016), de Cecil B. Evans, é uma animação em vídeo num ambiente de água que faz lembrar as visões diatópicas inerentes na Modernidade Líquida de Zygmunt Bauman. No seu trabalho, Evans reflete sobre as possibilidades da personalidade individual diante das startups, dos políticos e das grandes empresas na era digital. Chegando no topo do KW, Camille Henrot apresenta uma serie de trabalhos novos sob o título Office of Unreplied Emails (2016), impressões de textos poéticos respondendo e-mails não solicitados, como publicidade ou ofertas de negócios. Ainda no térreo do KW, o grupo CUSS, da África do Sul, em colaboração com ANGEL-HO, FAKA, Megan Mace e NTU, instalou o Tr1omf Factory Shop com seus próprios produtos (perfume, revista, tevês de plasma etc.), que se assemelha a um “café internet” com funções diversas, como o envio de dinheiro.

Paralela à 9a Bienal de Berlim, a mostra World on Wire na coleção Julia Stoschek, cujo título é emprestado do filme homônimo de ficção científica do diretor alemão Rainer Werner Fassbinder. Enquanto o filme original de 1973 foi gravado em 16 mm, a exposição é altamente HD – quase uma continuação da 9a Bienal, com obras semelhantes e muitos artistas também presentes nela. Se a 9a Bienal articula as complexidades entre o público e o privado, na paralela essa mescla de interesses se cristaliza imediatamente na esfera entre a produção e o mercado de arte contemporânea.

Instalação 11 Animals that Mate for Life, de Camille Henrot (Foto: Timo Ohler/ Koenig Galerie)

Instalação 11 Animals that Mate for Life, de Camille Henrot (Foto: Timo Ohler/ Koenig Galerie)

 

Serviço
The Present in Drag – 9a Bienal de Berlim,
Até 18/9
http://bb9.berlinbiennale.de/

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