Brasildependência

Jorge Caldeira

Publicado em: 31/10/2011

Categoria: Colunas Móveis, Reportagem

O desenho do conjunto é claro: o Brasil está ficando no centro de um mundo em portunhol

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Feira do Canindé, em São Paulo. Foto: Adriano Vanni

A espécie de portunhol que já está construída na América do Sul me espanta por um motivo: tem muito pouco a ver com as imagens da cultura. Neste caso, a integração material foi imensa nos últimos 20 anos, enquanto as ideias brasileiras sobre o assunto continuam nos anos 60. Por aqui ainda tem muita gente pensando nos termos de Veias Abertas na América Latina, do uruguaio Eduardo Galeano, como se a região tivesse povos comuns, mas dispersos e divididos pela exploração imperialista.

Acontece que a realidade criada no continente é aquela das estradas abertas na América Latina, pelas quais corre um novo portunhol de capitais e pessoas. Os capitais fluem principalmente do Brasil. As empresas brasileiras são as maiores investidoras na Argentina, Uruguai, Bolívia, Paraguai, Venezuela – e têm participação forte no Peru, Equador e nas antigas Guianas, além de interesses crescentes na Colômbia. Claro, o contrário existe: capitais chilenos dominam a aviação brasileira e os mexicanos têm fatia relevante da telefonia.

Já as pessoas fluem na direção inversa. Todo domingo, no Canindé, em São Paulo, dezenas de milhares de bolivianos fazem a festa da colônia. Argentinos e uruguaios vindos nos tempos das ditaduras ainda estão por aqui. Uma empresa de ônibus peruana acaba de inaugurar uma linha São Paulo-Lima, atendendo a um novo polo de imigração.

O desenho do conjunto é claro: o Brasil está ficando no centro de um mundo em portunhol – que pode incluir a Espanha, caso a crise ali continue do modo como está. E, se for assim, isso vai acontecer depois que o universo da língua portuguesa (além do torrão europeu, partes da África e Ásia incluídas) começou a gravitar em torno de uma ortografia unificada que tem muito mais de brasileira do que da original da terrinha.

As pessoas das elites de todos os países ao redor com as quais tive oportunidade de conversar gostam dessa unificação – mas se preocupam com aquilo que chamam de “Brasildependência”. E se preocupam especialmente porque é como se o Brasil ignorasse o poder que exerce e as modificações que impõe com a integração. Tocam num ponto cego de nossa cultura. A produção brasileira é muito forte para integrar novidades de fora e fraca para se perceber como fabricante de novidades para fora.

Já estamos esbarrando com força em nossos vizinhos. Para muitos deles, somos um modelo de sucesso – por causa de democracia e capacidade empresarial, não de música nem de cinema. Precisamos colocar na cultura essa nova espécie de portunhol, o lado da globalização onde o Brasil avança na realidade, mas patina na imaginação.

Jorge Caldera é escritor e editor, autor de História do Brasil com Empreendedores (2009), e Mauá, Empresário do Império (Cia. das Letras, 1995).

Publicado originalmente na edição impressa, SeLecT#2.

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