Brennand: mitologia no sul

Mestre da cerâmica, artista octogenário ganha curadoria de Emanoel Araújo no Santander Cultural Porto Alegre

Luciana Pareja Norbiato
Detalhe de mural de Brennand (foto: Fred Jordão)

O semideus que roubou do Olimpo o fogo para dá-lo aos homens continua ativo como nunca. Que o diga Francisco Brennand, o ceramista e pintor pernambucano que, na antiga fábrica desativada de sua família, montou em 1971 sua oficina, onde são criadas as esculturas que povoam o entorno do que se tornou o museu que leva seu sobrenome. Seu principal forno, que chega a mais de 1200 graus celsius, tem o nome Prometeu sobre a porta, da qual brotam os abutres típicos, bustos e murais de contornos sintéticos e coloração vitrificada, adquirida graças à alta temperatura.

Vista da exposição no Santander Cultural Porto Alegre (foto: Fernando Gomes)

Vista da exposição no Santander Cultural Porto Alegre (foto: Fernando Gomes)

Agora, prestes a completar 89 anos, o artista ganha exposição no Santander Cultural Porto Alegre, pelo recorte de quem conhece bem sua obra: Emanoel Araújo. O curador e diretor do Museu Afro Brasil foi responsável por várias exposições de Brennand em instituições como a Pinacoteca de São Paulo, o próprio Afro Brasil e Museu Oscar Niemeyer.

Eva_©Fred Jordao

Eva, 2015 (foto: Fred Jordão)

“Brennand tem essa característica de evocar a mitologia em seus trabalhos, além de aspectos telúricos e eróticos. Optei por fazer uma curadoria que explicita o universo do artista, em vez de fazer uma cronologia”, explica o curador. São alguns eixos na obra do ceramista que norteiam as escolhas de Araújo: o teatro das representações mitológicas, o corpo em transmutação interior, os frutos da terra e as vítimas históricas.

Adão, 2015 (foto: Fred Jordão)

Adão, 2015 (foto: Fred Jordão)

A seleção de 84 obras de dimensões variadas (mas todas de tamanho considerável), entre esculturas e pinturas, traz joias como os recentes Adão e Eva, uma grande Serpente que parece sair do chão, as fênix e seus ovos e os painéis de azulejos que ladeiam os muros do jardim da Oficina Brennand. “Tentamos trazer um pouco do ambiente impressionante do artista, mesmo com a presença marcante do prédio do Santander Cultural”, diz o curador.

Francisco Brennand (foto: Helder Ferrer)

Francisco Brennand (foto: Helder Ferrer)

A interferência oferecida pela suntuosidade do edifício, projetado em 1932 numa mistura de neoclássico e art nouveau, faz um interessante contraponto às obras de formas limpas e sintéticas do escultor. Elas bebem na fonte da arte nativa e do sincretismo mitológico que, influenciados por linhas modernistas e pela monumentalidade, remetem tanto às dinastias faraônicas do Egito quanto à arte greco-romana, asteca e aos zoólitos da pré-História brasileira. Ao receber o conjunto expressivo de obras de Brennand, a arquitetura eurorreferente do Santander Cultural Porto Alegre gesta o retorno às raízes anímicas do homem, que forja no barro cozido pelo fogo roubado aos deuses o elogio à potência da natureza.

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