Brennand: O futuro tem um coração antigo

Nova gestão do Instituto Brennand tem tarefas tão grandes como ambições como recuperação de mural histórico e nova obra de Ernesto Neto

Bruno Albertim

Publicado em: 14/05/2021

Categoria: Da Hora, Destaque, Reportagem

Oficina (Foto: Edouard Fraipont)

Organizadora dos quatro volumes que compõem Diário de Francisco Brennand (Cepe, 2016), compilação de memórias e do caudaloso pensamento artístico do artista pernambucano, Mariana Brennand foi sua interlocutora frequente. Até a morte de Brennand, em dezembro de 2019, aos 92 anos, a sobrinha-neta ouvia a frase, vez por outra repetida pelo artista, lúcido e inquieto, sentado no escritório-ateliê de sua oficina, com a bengala amparando mais o pensamento que o braço: “Tenho a consciência, e já repeti isso várias vezes, se alguma coisa deve perdurar é A Batalha de Guararapes, que eu gostaria que fosse conservada”.

Brennand (Foto: Jorge Bispo)

Também diretora de um premiado documentário sobre o tio-avô, Mariana está à frente da instituição cultural em que foi convertida a antiga oficina-museu onde Francisco de Paula Almeida Brennand (1927-2019) criou e viveu. Atendendo ao desejo do artista, o Instituto Brennand é agora uma instituição privada de fins públicos. Não pode ser vendido ou ter a finalidade alterada pela família. Depois de 50 anos dedicados exclusivamente à obra de seu criador, a propriedade se abre a outros artistas, inserindo Brennand numa nova cartografia da arte contemporânea – não apenas regional, ou brasileira, mas internacional.

O objetivo é também preservar a obra reunida do artista – uma profusão rizomática de mais de três mil telas e esculturas em mais de 15 mil m² de área construída em meio à Mata Atlântica do bairro recifense da Várzea. As tarefas ali são tão grandes como as ambições. Uma das mais imediatas consiste no esforço de trazer para o acervo de Brennand o mural histórico A Batalha de Guararapes. “Ele chegou a escrever uma carta registrando o desejo”, diz a sobrinha.

Vista aérea da oficina (Foto: Guilherme Licurgo)

Uma serpente eliminada da paisagem
Artista de dimensões totêmicas, Francisco Brennand tem em sua obra parte do corpo urbano do Recife. Na cidade, são trinta esculturas ou painéis cerâmicos distribuídos em vias públicas da cidade de onde o artista jamais quis sair e onde construiu uma obra densamente regional e universal.

Um esforço do Instituto é ver reconstruídas as cerca de 78 obras roubadas de um total de 90, doadas por Francisco Brennand para o Parque de Esculturas no molhe de Arrecifes do Porto do Recife, como marco da chegada do ano 2000. Instaladas diante do Marco Zero da cidade, as obras foram suprimidas continuadamente, ano a ano, sem que ninguém da Prefeitura do Recife, instalada a poucos passos dali, pudesse perceber.

No final de 2020, uma serpente de nada discretos vinte metros, seria eliminada da paisagem. No parque, praticamente sobrou apenas a Torre de Cristal, escultura fálica de 32 metros de altura, espécie de prolongamento daqueles arrecifes primordiais em direção ao céu. A obra rasga o horizonte onde, dizia Brennand, parafraseando o amigo Cícero Dias, “o Recife tem a mais bela luz do mundo, uma luz diamantina sem nenhuma turvação, no limite do perfeito”.

Ao final do inquérito policial, concluído em março de 2021, dez pessoas foram indiciadas, entre vândalos e receptadores. Descobriu-se que as esculturas foram derretidas, para a venda de seu bronze como sucata. “Não podemos nem classificar como crime do mercado clandestino de arte, foi praticamente um furto famélico”, avalia Lucas Pessoa, ex-diretor do Masp. Ao conhecê-lo como professor de um MBA de gestão de museus, no Rio de Janeiro, Mariana Brennand convidou o filho de pernambucanos que vivera parte da infância no Recife para ocupar a cadeira. Pessoa é hoje o diretor geral do Instituto Brennand.

Parque de Esculturas no molhe de Recife (Foto: Divulgação)

Reconstrução
Ao final do ano passado, ainda deputado e recém-eleito como o prefeito mais jovem do País pelo Recife, João Campos articulou R$ 2 milhões em emendas parlamentares ao tomar conhecimento dos roubos. Outros R$ 3 milhões foram assegurados pelo deputado Tadeu Alencar, antigo correligionário de Eduardo Campos, morto num acidente aéreo em 2014, de quem o filho João herdou prestígio e capital político. “Vamos poder fazer um plano não apenas de restauração, mas de ocupação, de ativação cultural e de vigilância permanente”, disse à época o gestor, em coletiva à imprensa local.

Em nota enviada à reportagem de seLecT, a Prefeitura do Recife informa que “encomendou um projeto de recuperação de todas as obras ao artista plástico Jobson Figueiredo, também idealizador do Parque” e que “o projeto está pronto aguardando validação do Instituto Francisco Brennand para ser iniciado (…). Após iniciada a execução do projeto, a manutenção e substituição das obras levarão em média dez meses”.
Antigo parceiro de Brennand, o veterano Figueiredo será responsável pela reimpressão no bronze das 78 peças. Mariana afasta quaisquer discussões sobre a originalidade das peças. “Elas haviam sido fundidas por Jobson a partir da concepção, dos desenhos de Brennand. Nesse contexto, serão peças tão autênticas quanto as primeiras”, diz ela. Recebido na primeira semana de maio, o projeto de reexecução segue em análise pela equipe do Instituto Brennnand, sem data definida para conclusão.

Pintura histórica em cerâmica
A Batalha dos Guararapes padece hoje no flanco de uma antiga agência bancária no bairro de Santo Antônio. Coberto por tapumes, o mural é suporte de pichações e usado como mictório a céu aberto numa ruela semiabandonada do centro da cidade, ironicamente, conhecida como Rua das Flores.

Era o ano de 1961 quando Francisco Brennand recebeu a encomenda dos proprietários do Banco Lavoura de Minas Gerais. A demanda: produzir um painel de cerca de 33 x 1,5 metro para a parede lateral da agencia que abririam no centro do Recife. O tema: “Eles exigiam que fosse a Batalha dos Guararapes e me deram as dimensões. Essas dimensões eram para mim absolutamente novas, porque correspondiam a um friso diferente dos tamanhos com os quais eu trabalhava, quer com pintura à óleo ou pintura manual, feita com cerâmica”, comentou Brennand, numa entrevista em 2005.

Não seria a primeira vez do artista a abordar as guerras de expulsão dos holandeses em Pernambuco. Após alguma reflexão, ele concordaria em tratar do tema eleito pela historiografia oficial como definidor da integridade brasileira ainda colonial naquele que seria, então, seu maior trabalho em cerâmica. Dois eventos biográficos determinaram a decisão. Em 1954, um ano depois de voltar de sua temporada de estudos da arte na Europa, ele se deparara com as comemorações entusiasmadas do tricentenário da chamada Restauração Pernambucana. A partir do estudo de retábulos de igrejas barrocas do Recife e de objetos do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco, aceitara a encomenda do Museu do Estado para produzir uma série de pratos, placas e desenhos cerâmicos alusivos às batalhas da “restauração”.

Mural Batalha de Guararapes (Foto: Fred Jordão)

O outro catalizador foi o fato de ter conhecido, durante o período europeu, a Tapeçaria de Bayeux. O tapete-painel narra, em 70m x por 0.15m, os fatos que antecedem e consumam a conquista da Inglaterra pelo duque Guilherme da Normandia, em 1066. “Essa tapeçaria de Bayeux foi para mim uma orientação definitiva de como deveria tratar toda a composição”, informou Brennand. “Em cerâmica, com grande diversidade de desenhos, simplificação de planos, não poderia ser de forma alguma uma narrativa com fundo naturalista ou realista, à maneira, vamos dizer, da Batalha dos Guararapes de Victor Meirelles…”. Ele ainda não intuía, mas a encomenda se tornaria, em sua opinião, sua obra maior.

A antiga agência bancária da Rua da Flores pertence hoje ao banco Santander, que em 2014 encerrou seu instituto cultural no Recife, depois de ter sido referência para a arte contemporânea e exposições de cunho historiográfico na capital pernambucana, ao longo de 20 anos. A instituição praticamente zerou sua atuação nas políticas de incentivo às artes na cidade.

A obra, consequentemente, compõe o grande patrimônio no Brasil da multinacional de origem espanhola. “A carta de Brennand foi enviada ao Santander”, comenta Mariana. Mas o banco é lacônico sobre a análise do pedido do Instituto Brennand para a reintegração da obra. Em nota divulgada pela assessoria de comunicação, “o Santander informa que o painel A Batalha dos Guararapes encontra-se atualmente protegido por tapumes para garantir a sua conservação”. E adianta que o painel deve ser removido, restaurado, mas não tem destino certo.

Se atendida, a presença de A Batalha dos Guararapes no acervo do Instituto Brennand deve provocar diálogos com outras obras de relevância no eixo temático de batalhas definidoras de uma brasilidade. Uma das ideias, adiantam os diretores, é tentar levar para uma exposição o painel Mulheres de Tejucupapo, pintado por Tereza Costa Rêgo, antiga colega de turma do jovem Brennand na Escola de Belas Artes do Recife. Esforço não apenas pictórico, mas físico, o painel de impressionantes 8m x 2m foi pintado por Costa Rêgo, aos 86 anos, seis antes de sua morte, ainda lúcida e produtiva, em decorrência de um derrame, em julho do ano passado.

Nesse sentido, o projeto do instituto abordaria uma pesquisa curatorial sobre imagens de luta feminina, com abordagens históricas a partir de enfoques trazidos pela produção contemporânea, interseccionando questões de gênero, origem, raça e território.

Lucas Pessoa e Mariana Brennand na oficina Brennand (Foto: Reprodução)

Cerâmica como revelação
Francisco Brennand aprendeu a modelar a argila com o artista Abelardo da Hora que se tornaria seu grande amigo, então funcionário da fábrica de cerâmica de seu pai, Ricardo Monteiro Brennand. Em 1949, incentivado por Cícero Dias a viajar para a Europa para estudar com André Lhote e Fernand Léger, Brennand conhece as obras de Miró e Picasso. Teve, então, o susto-revelação: o pintor da Guernica era também ceramista. “Ali, vi que a cerâmica poderia ter a mesma grandeza da pintura a óleo, meu interesse até então. Ou até mais”, contou, ao autor desta reportagem, dois anos antes de morrer.

Em 1971, decidido a ter o Recife como porto criativo, Brennand abre mão da participação nas empresas da família para transformar a antiga olaria num misto de ateliê e museu a céu aberto. Criou ali sua cidadela. Sem abandonar o quintal, entrou em profundo diálogo com o mundo. Dono do prêmio Gabriela Mistral concedido pela Organização dos Estados Americanos, teve o gozo da celebração de sua obra em vida. Retrospectivas de Brennand ocuparam endereços prestigiosos como a Staatliche Kunsthalle, em Berlim, ou a Pinacoteca do Estado de São Paulo. Isso sem ele nunca ter saído do bairro da Várzea: “Esse lugar foi erigido não só por mim, mas por alguns familiares que, tanto quanto eu, o elegeram como centro do mundo. O centro do mundo é o centro do nosso espírito. Este solo é sagrado”.

Oficina (Foto: Edouard Fraipont)

Nova gestão celebra cinquentenário
Para a sua reinserção no mapa das artes no País, o Instituto Francisco Brennand conta com um grupo de conselheiros de atuação nacional. Entre eles, a antropóloga Lilia Schwarcz; a mecenas Frances Reynolds, do Instituto Inclusartiz; Keyna Eleison, diretora artística do MAM-RJ e Tiago Pessoa, do grupo Morgan Stanley. Com orçamento anual em cerca de R$ 10 milhões, tem o apoio operacional de empresas nacionais como Bradesco, Vale e Itaú; além de regionais, a exemplo da Copergás e da rede de varejo Ferreira Costa. Os recursos essenciais de manutenção da estrutura e da equipe total de 45 pessoas, cerca de 40% da receita, são do Grupo Cornélio Brennand, criado pelo avô de Mariana.

Os novos gestores trabalham para a ampliação da receita. “O Nordeste tem quase 30% da população e recebe menos de 3% da Lei Rouanet”, diz Lucas Pessoa, enfatizando: “Nossa linha de atuação não deve reproduzir mecanismos de colonialismo interno”. A nova direção artística está a cargo de Júlia Rebouças, curadora com passagem por Inhotim e pela Bienal de São Paulo. “Ao longo de 2020, analisamos a produção de Brennand para estabelecer os três conceitos amplos que devem nortear nossa atuação curatorial a partir das questões concernentes à obra de Francisco: natureza, território e cosmologia”, diz Rebouças.

Além de seminários e ações formativas, o instituto planeja formalizar uma cadeira de extensão para estudantes de artes visuais da Universidade Federal de Pernambuco localizada a poucos quilômetros dali. Até junho, estão abertos dois editais. Um de convocação para profissionais interessados em desenvolver processos de educação educativa com ponto de partida na Oficina Brennand. Outro, de residência cultural para até seis ceramistas.

Para programação comemorativa de meio século da oficina, três exposições estão programadas. O artista carioca Ernesto Neto trabalha no projeto de uma grande instalação interativa. Batizada de Maracanarvera, uma obra fincada em aspectos da cosmogonia indígena para reforçar, dentre outros aspectos, a inserção da oficina em área de proteção ambiental.

Outra exposição do cinquentenário será montada a partir de uma leitura inédita das mais de três mil peças do acervo. “Para nós, como gesto curatorial, é muito desafiador propor uma nova forma de mostrar aquelas obras da oficina, ela própria entendida como parte de um grande projeto artístico em permanente expansão”, diz Júlia. Se a pandemia permitir o fluxo de visitantes, a ideia é abrir a exposição em 11 de novembro, exatos 50 anos depois de Brennand ter instalado sua oficina-museu.

A escultura Spider, de Louise Bourgeois (1911-2010), deve ser exposta nos jardins de Brennand, em acordo de empréstimo com o Itaú Cultural de São Paulo, dono de uma das seis versões da obra. Com questões subjacentes ao feminino como sexo, traumas e memória, a obra tangencia arquétipos em grandes dimensões e levanta-se do chão por três metros acima dos espectadores.

Quando já reconhecia a fragilidade da idade avançada (e dela, tirou partido: “Minha felicidade é que estou cada vez pior”, dizia), Brennand sugeriu ao Instituto abrir sua obra ao diálogo com o contemporâneo, embora, sobriamente, tenha sempre tido a consciência de si como um artista moderno. “Minha arte é moderna. Moderníssima, no sentido de que ela contraria todos os cânones da arte contemporânea. E ela se refere sempre a uma ancestralidade, a uns arcaísmos e, sobretudo, a arquétipos. Então, neste momento, eu permaneço moderno e propositadamente antigo. Sobretudo quando trabalho com cerâmica, muito mais do que quando eu pinto”, disse ele 2017. “O futuro”, dizia Brennand, “tem um coração antigo”.

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