Brics: o Golem do capitalismo em crise

BRICS x Chíndia é o que mais importa na futurologia do mundo dos negócios

Gilson Schwartz

Publicado em: 23/09/2011

Categoria: Da Hora, Reportagem

Interferência gráfIca do estúdio seLecT sobre estudo de personagem do projeto do game Clay Golem de cory Ryan Sponseller

Do caos fez-se a luz e do pó, Adão, obra maior e final do criador. o resto é história feita de repetidas tentativas de criar inteligência a partir do caos, inteligência a partir da matéria, um ser feito de barro capaz de incorporar o espírito do criador (com c minúsculo).

Na mitologia das criaturas bíblicas, destaca-se o Golem, uma espécie de Frankenstein da mística judaica. No capitalismo em crise, os BRIcs são o Golem de uma ordem global que se aproxima (novamente) do caos da desintegração financeira.

Já se gastaram rios de tinta e papel em provas e contraprovas da existência ou resistência da ideia de BRIcs – Brasil, Rússia, Índia, china e África do sul – como próximos gigantes no desenvolvimento econômico do mundo.

O ícone assume a forma de uma sigla que aparentemente facilita o planejamento e a tomada de decisões em um complexo contexto de incertezas conectadas por redes digitais que tiram sentido à própria noção de espaço.

Enquanto os mercados ficam desnorteados, a fuga é fingir que as fronteiras sumiram, o espaço derreteu e as nações se reinventam pela força ou pelo delírio. assim surgiu também a ilusão de um descolamento (decoupling), que seria a fé nos países periféricos e mais populosos como âncora na resistência à crise global.

“Monstros” como China ou Brasil assumiriam a liderança de uma recuperação que a cada rodada na espiral do desgoverno revela-se como especulação precoce.

Nesse contexto de mistificação, um exercício saudável é olhar o lado B dos BRIcs. Uma das mais notáveis diferenças entre Brasil e os estados-Nação ligados à Ásia resulta da relação totalmente diferente com temas tabus como direitos de exclusividade territoriais, sobre recursos naturais e o protagonismo de prioridades militares na história das agendas públicas entre a família latina.

(Muito embora não possamos ignorar dramáticas guerras regionais, incursões revolucionárias e contrarrevolucionárias, ambições nucleares e espaciais, sobre o controle da água e do petróleo, e nacionalismos que prevaleceram muitas vezes em conluio com ambições de natureza militar).

Exceto para o imaginário conflito bolivariano-chavista, não há nada remotamente comparável nas agendas da América Latina e do Brasil à geopolítica dos gasodutos entre a união europeia e a Rússia, ao peso da dívida pública norte-americana no Tesouro chinês e às incertezas étnicas, religiosas e fundamentalistas nas áreas instáveis das fronteiras da Índia.

Há tragédia social na história latino-americana e brasileira, heterogeneidade estrutural e desigualdades atrozes na distribuição de renda. Nada no Brasil, porém, se compara à escala, extensão e intensidade da opressão social que afeta a mão de obra chinesa e a indiana.

Isso, de fato, constitui uma insustentável força competitiva apenas parcialmente correspondida por esforços ocidentais em radicalizar a desregulamentação e liberalização do mercado de trabalho, liberar com mais rapidez as certidões ambientais ou criar facilidades no campo fiscal e financeiro para salvaguardar a competitividade das empresas locais.

Os modelos sociopolíticos e institucionais, assim como a situação étnica na Índia, são bem diferentes dos que prevalecem na China e compará-los em uma mesma escala (o caso de BRICS) também não é correto. A opressão social na Índia vem de um sistema de castas piramidal, em vez de um modelo burocrático e military de segregação social e controle étnico como na China.

Comparado com o perfil latino, mais especificamente com a mistura brasileira, torna-se claro que nossas violências (sociais e institucionais) são muito mais simpáticas à evolução de mediações criativas entre etnias, localidades e confissões religiosas.

Filósofos sociais e artistas como Gilberto Freyre, Mário de Andrade e Sérgio Buarque de Holanda já analisaram e documentaram amplamente a variedade de apropriações disciplinares (e muitas vezes anárquicas ou tropicalistas) da ordem e do progresso na história brasileira.

Talvez nesta matriz humana aberta, diversa e interativa resida a própria fundação para a impressionante expansão e apropriação da internet, do celular e da televisão no Brasil, assim formando uma super-e-strutura ou iconomia cultural associada a flexibilidade, criatividade e com (paixão) no Brasil e na América Latina.  Como dizia Sérgio Buarque de Holanda, a mistura brasileira está na raiz de uma humanidade do gênero “cordial”.

Rússia, China e Índia são economias continentais, assim como o Brasil. Mas basta ser grande e populoso? Como arquetípicos Estados-Nação, essas sociedades experimentaram em algum ponto de sua história uma vocação por projetos imperialistas, em que andam em par a violência social e a institucional (para possuir domínio global, você tem de possuir domínio absolute interno, pensam os ditadores).

No entanto, o contexto estratégico, econômico e regulatório no Brasil (e em grande parte da América Latina) é, principalmente, resultado de rebentos da inteligência cívica e de comunidades científicas livres, em vez do legado de agendas militares e nacionalistas utópicas de longo prazo que submetem as inteligências individuais. Apesar de tudo, somos mais democráticos.

O Golem das finanças ganhou popularidade em 2003, quando o banco americano de investimentos Goldman Sachs, que enxerga nesses países o pelotão de frente dos emergentes, projetou um desempenho espetacular do grupo até 2050. A sigla é um jogo de palavras – brick, em inglês, é tijolo. Investir nos BRICS seria participar da grande e sólida fronteira de expansão da economia global.

Recentemente, surgiu outra sigla que ameaça o brilho dos BRICS. É Chíndia, marca de um fundo gerenciado pela consultoria de investimentos Ashburton. Como sugere o rótulo, o futuro está reservado para a China e a Índia. Brasil e Rússia seriam coadjuvantes, meros fornecedores de commodities. Pesa na opção pelos asiáticos o tamanho do mercado consumidor, fator decisivo para o retorno dos investimentos nesse fundo.

Nos próximos 15 anos, os dois países chegariam à condição de segunda força econômica mundial, com PIB de US$ 16 trilhões e consumo de 25% da energia do planeta. BRICS x Chíndia é, atualmente, o jogo que mais chama a atenção quando o mundo dos negócios exercita a futurologia da competição global.

Entre os apostadores no vigor dessas criaturas feitas de ideologia e manipulações estatísticas, ganha pontos a região que tiver vocação para operar como plataformas comerciais e infraestruturas estratégicas para os mercados de consumo globais, tanto para atender às empresas globalizadas, cujas matrizes estão nos Estados Unidos, Europa e Japão, quanto para apoiar as multinacionais locais na conquista de mercados externos.

Na emergente era das democráticas diversificação e e-infraestruturas de rede, a variedade tropical de desenvolvimento humano orientado pelo empreendedorismo científico, tecnológico e cultural no Brasil e na América Latina mostra-se mais afim ao desafio histórico que agora enfrentamos com ansiedade – promover um processo evolutivo global em que padrões de organização, comunicação e sentido se tornem mais criativos, inovadores, dinâmicos e democráticos.

Este é o espírito da Sociedade do Conhecimento, esta é a cidadania baseada no conhecimento que aproxima os ideais emancipatórios compartilhados por europeus e latino-americanos, seja entre a elite rica, seja na base da pirâmide econômica.

Grandes territórios e alta densidade demográfica são, certamente, a fundação para mercados vigorosos e investimentos de larga escala, mas isso é relevante para a dimensão tangível do desenvolvimento sustentável.

Os ativos intangíveis que agora nos desafiamos a identificar, mapear e processar utilizando a e-infraestrutura para ciência, saúde, educação, lazer e meio ambiente não devem ser simplificados ou diminuídos por meio de uma sigla vazia, um Golem da territorialidade.

Na mitologia judaica, a grande característica que afinal desmascara um Golem como mera ilusão humana de criar inteligência a partir da matéria é sua incapacidade de falar. Como um fantoche, um Golem parece gente, mas não articula um discurso.

Quem olhar para as várias reuniões de cúpula promovidas por governos dos BRICS nos últimos anos rapidamente perceberá que eles podem ter muitos aspectos econômicos que induzem à crença no seu potencial econômico, mas não têm um discurso comum. Não votam juntos na ONU, nem no FMI. Não compartilham projetos políticos, sociais ou culturais. São apenas um monstro sem voz, um Golem a serviço da especulação que a cada rodada da crise se agarra a um ícone para evitar o pior.

Gilson Schwartz é economista, sociólogo e jornalista, professor no Departamento de Cinema, Rádio e TV da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.

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