Brutalidade e erotismo

Em esculturas e instalações, Ivens Machado, Marcelo Cidade e Rodrigo Sassi desenvolvem relações autocríticas com o concreto

Leandro Muniz

N° Edição: 47

Publicado em: ANO 09, Nº 47, Jun/Jul/Ago 2020

Categoria: A Revista, Curadoria, Destaque

A Câmera Se Desloca Procurando Acompanhar uma Segunda Intenção (2013), de Rodrigo Sassi (Foto: Cortesia do artista)

Os usos do concreto na história da arte brasileira mudaram de estatuto desde os anos 1970: de material carregado de historicidade – tanto por sua presença marcante na arquitetura moderna quanto pelos usos populares do material – passou a ser manipulado por sua versatilidade e potencial plástico. Nas obras de Ivens Machado, Marcelo Cidade e Rodrigo Sassi, é possível analisar essas mudanças e como suas produções, cada uma a seu modo, internalizam e tornam mais complexas as relações do material no contexto da arte contemporânea. 

O Consolador (1979), de Ivens Machado (Foto: Divulgação)

Ivens Machado (Florianópolis, 1945 – Rio de Janeiro, 2015) trabalhou com concreto na produção de formas orgânicas. Suas esculturas injetam corporeidade em materiais comuns ao brutalismo arquitetônico (vidro, ferro e concreto), apontando para as relações entre violência e prazer nas experiências eróticas, conforme destacou o crítico Paulo Sérgio Duarte. Para o crítico, as esculturas de Ivens expõem “tensões sociais em simbiose com tensões sexuais”, pelo desrecalque e pela dessublimação. O Consolador (1979) é uma grande forma fálica cravejada de caquinhos de vidro, apresentada na parede ou suspensa no espaço. 

O concreto cravejado de cacos de vidro é um recurso recorrente nas construções populares, nos muros das casas, como estratégia de proteção contra invasões. Utilizando essa mesma linguagem, o artista produziu Mapa Mudo (1979), uma representação do território brasileiro, encravada com cacos de vidro verde, que também alude às florestas do País. Grande demais para se colocar como um objeto, mas pequeno demais para se impor no espaço (140 x 133 x 8 cm) como escultura ou instalação, o trabalho reforça o desconforto com as representações do Brasil – um problema ainda pulsante hoje. 

Mapa Mudo (1979), de Ivens Machado (Foto: Cortesia Galeria Fortes D’Aloia e Gabriel)

As obras de Ivens Machado oscilam entre a crítica social e a experiência tátil, fenomenológica, da matéria, numa dialética radical: reintroduzem o erotismo nos materiais de construção da cidade, ao mesmo tempo que nos lembram de sua história e usos sociais.

Sem Título (2002) é uma obra pública permanente instalada no Largo da Carioca, no Rio de Janeiro. A peça não celebra nada, diferentemente da tradição do monumento que, implicitamente, o trabalho critica. Também não opera como adorno da cidade, função comum às obras de jardins de esculturas. O trabalho replica o movimento de deslocamento dos passantes e elementos da arquitetura, como pontes e arcos, novamente associando o corpo e o estado bruto dos materiais de construção. 

Sem título 1997), de Ivens Machado (Foto: Cortesia Galeria Fortes D’Aloia e Gabriel)

Crítica e codificação
Na obra de Marcelo Cidade (São Paulo, 1979), o cimento e o concreto aparecem como signos do urbano. Desde o começo dos anos 2000, durante sua formação, o artista usa esses materiais na fundição de capachos domésticos ou ainda em pó, na criação de rastros de performances em espaços institucionais. Suas esculturas e ações questionam as dinâmicas do espaço público e das relações de poder na cidade. 

Recentemente, o concreto e o cimento também têm aparecido em sua obra como referências aos termos “construtivo” e “concreto” na história da arte brasileira e internacional. Na série Noia (2014 – em processo), sketchbooks, bolas ou blocos de papel e placas de papelão são cobertos com cimento, em ironia direta ao vocabulário de obras minimalistas e concretas. A linguagem geométrica desses movimentos e sua economia formal são confrontadas com a precariedade e aspereza do concreto. Os blocos de papel, submersos no material, também fazem pensar nos contrastes entre fragilidade e resistência, em tensão nas esculturas. 

Pessoal e Intransferível – Carteira de Trabalho (2017), de Marcelo Cidade (Foto: Edouard Fraipont)

O concreto  é um elemento definidor da arquitetura brutalista. De baixo custo, seu uso intensifica-se no processo de reconstrução das cidades europeias do pós-Guerra. O termo é derivado de “béton brut” (concreto bruto, em francês) e indica a relevância desse material para um modelo construtivo baseado em módulos funcionais e que se contrapunha à ornamentação construtiva de antes da Guerra. Influente na arquitetura brasileira, a tendência brutalista remonta aos anos 1950, mas ganha expressão nacional com a construção de Brasília nos anos 1960 e é profundamente ligada à Escola Paulista, marcando a obra de arquitetos como Vilanova Artigas, Fabio Penteado e Paulo Mendes da Rocha. Não menos importante é a sua influência na obra de  Lina Bo Bardi, no uso anônimo do concreto nas casas dos mais pobres do País e na construção civil, em geral, de edifícios, pontes e rodovias.

Arqueologia e design
O imaginário otimista do vocabulário arquitetônico de Oscar Niemeyer – as curvas velozes do Pavilhão da Bienal, por exemplo – é reiterado e desconstruído nas esculturas de Rodrigo Sassi (São Paulo, 1981). O artista parte das madeiras já usadas na construção de concreto armado para produzir formas sinuosas, especificamente pensadas para os espaços onde são apresentadas. A memória do material pode ser percebida pelas marcas dos usos e imperfeições das superfícies, contrastando com o rigor quase tecnicista com que Sassi corta linhas retas e curvas, aplaina o concreto nas estruturas de madeira e adapta as esculturas no espaço expositivo, dinamizando ou reiterando elementos da própria arquitetura. 

Corpo Acomodado (2018), de Rodrigo Sassi (Foto: Daniela Ometto)

Na produção de concreto armado, utiliza moldes que são descartados após o endurecimento do material. Sassi mantém essas formas e seus tensionadores nas esculturas finais, utilizando, inclusive, a relação entre a madeira e o concreto como um dos elementos de seu vocabulário formal.  

A fotogenia e a leveza de suas esculturas fazem pensar no quanto a presença física do objeto está em tensão com sua dimensão imagética. Ao mesmo tempo que modificam o deslocamento do corpo e a ortogonalidade da arquitetura, sempre há um ângulo privilegiado de contemplação e boa parte dessas obras apoia-se no plano da parede, levando a uma percepção gráfica da obra. A passagem entre a experiência corporal e o dado imagético da obra de Sassi é reiterada por títulos como Títulos Como Ponto Para Fuga (2012) ou A Câmera Se Desloca Procurando Acompanhar Uma Segunda Intenção (2013).

Entre o Céu e a Terra, Bolhas! (2013), de Rodrigo Sassi (Foto: Cortesia do artista)

Para o curador Ricardo Resende, o desenho dessas esculturas é o mesmo do grafismo emaranhado visto nas pichações dos muros das paredes nas cidades. Sassi embaralha esses códigos – arquitetura moderna, escultura, grafite –, produzindo uma obra que é rigorosamente convulsa. Essas formas parecem fundir os resíduos de um campo arqueológico e a imaterialidade dos vetores de uma peça de design gráfico.

Da historicidade ao signo de arte
Há uma série de outros procedimentos e operações com o concreto na produção contemporânea. Como, por exemplo, utilizar placas de concreto como suporte para pinturas a óleo, no preenchimento de materiais frágeis ou na fundição de esculturas que muitas vezes não levam em conta o peso social que o objeto carrega, levando em conta apenas suas texturas, a plasticidade ou o baixo custo. Podemos pensar se o uso puramente plástico e fenomenológico de um material com tanta história não é uma forma de fetichização. Ivens Machado, Marcelo Cidade e Rodrigo Sassi, incorporam esses problemas e apontam para relações críticas com esse material, sua presença social na cidade e suas possibilidades formais. 

 

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