Bryce: Desenredando as narrativas do poder

Comentar a obra de Fernando Bryce passa necessariamente por pensar uma relação entre a dupla história-arquivo.

Alexia Tala

N° Edição: 43

Publicado em: 12/08/2019

Categoria: A Revista, Colunas Móveis, Destaque

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Imagem da série Atlas Perú (2000-2001), de Fernando Bryce, feitas com referência a jornais e revistas que contam a história do século 20 no Peru

Comentar a obra de Fernando Bryce, desde a minha perspectiva, passa necessariamente por pensar um tema relevante tanto dentro como fora do campo da disciplina histórica, uma relação entre a dupla história-arquivo. Ao desconfiar da grande história que aprendemos na escola, e que tão habilmente ajuda a construir e a manter por séculos a hegemonia dos vencedores desde a sua modernidade, a arte contemporânea tem demonstrado uma abundante e profunda reflexão sobre o assunto. De acordo com vários pensadores, a crise da ciência histórica é um problema arrastado, até se transformar em sentido comum. A definição e os usos do arquivo – e suas transformações na atualidade – respondem a vários processos, cujos efeitos na construção histórica modificaram a maneira com que nos relacionamos com o passado.

Imagens da série Américas (2005), em que Fernando Bryce revisita as primeiras edições da publicação oficial da Organização dos Estados Americanos

Esse fenômeno, desde a perspectiva do arquivo, foi vigorosamente estudado por autores como Hal Foster ou Ana Maria Guasch. Um importante paradoxo decorre a esse respeito: a crise como abertura, a desautorização das narrativas históricas hegemônicas, dando lugar às narrativas alternativas e aos usos alternativos do arquivo.

Imagens da série Américas (2005), em que Fernando Bryce revisita as primeiras edições da publicação oficial da Organização dos Estados Americanos

A obra de Fernando Bryce dialoga com esse paradigma, ao mesmo tempo que explora as possibilidades do arquivo a partir de uma mesma operação. Seu trabalho consiste na reprodução manual de documentos e imagens históricas, extraídos de meios de comunicação de massa como jornais e revistas, por meio do desenho em tinta nanquim sobre papel. Nessas cópias, caracterizadas por seu rigor e fidelidade visual, o artista desenvolve o que chama de “análise mimética”.

Imagens da série Américas (2005), em que Fernando Bryce revisita as primeiras edições da publicação oficial da Organização dos Estados Americanos

Os resultados são grandes constelações de desenhos que passam a ideia de uma história disseminada, que em seus contrapontos se opõe à oficialidade transmitida originalmente, em uma apropriação visual sempre carregada de ironia. Nessa história de fragmentos visuais, cada peça corresponde a uma engrenagem que se potencializa em suas inter-relações. Em sua totalidade, nos é transmitida a mencionada realidade do arquivo, um conceito desintegrado do arquivo.

Imagens da série Américas (2005), em que Fernando Bryce revisita as primeiras edições da publicação oficial da Organização dos Estados Americanos

Nessa operação, a obra de Bryce caminha concomitantemente para uma sentença que hoje contextualiza nossa sensibilidade em relação à história: a perda de um sentido único e a proliferação de “outras” memórias. Estas, influenciadas pelas catástrofes do século 20 ocorridas na América Latina, das quais Bryce se aproxima com sua obra. É o caso da série Américas (2005), em que o artista revisita a primeira década de edições da publicação oficial da Organização dos Estados Americanos (OEA), reproduzindo com nanquim algumas das páginas que exibem o olhar norte-americano sobre o Pós-Guerra. Ali, utopia, progresso e subdesenvolvimento se colidem entre as interpretações do continente. O trabalho abarca questões recorrentes no corpo de sua obra, como o pensamento revolucionário e a identidade latino-americana.

Imagens da série Atlas Perú (2000-2001), de Fernando Bryce, feitas com referência a jornais e revistas que contam a história do século 20 no Peru

Envolvidos sempre em amplas investigações e pesquisas de documentos, os conjuntos construídos pelo artista – que seguem um padrão de quadros simples, alinhados simetricamente – procuram fazer uma reconstituição alternativa do passado, por exemplo, a partir dos problemas vividos pelos países latino-americanos, recipientes das mais cruéis crises induzidas. Na obra, destaca-se a sua preocupação em enfocar a história peruana. É o caso de Atlas Perú (2000-2001), série composta de mais de 500 desenhos, em que imagens de jornais e revistas contam a história do século 20 no Peru por meio da visualidade.

Imagens da série Atlas Perú (2000-2001), de Fernando Bryce, feitas com referência a jornais e revistas que contam a história do século 20 no Peru

Através da operação da cópia, sua obra favorece a criação de um novo arquivo e, com isso, a construção de uma nova história visual. Ao extrair as imagens de seu contexto de circulação de massa, ao removê-las de seu passado, desnaturalizá-las e dar-lhes um novo sentido crítico, a história enfrenta seus autores.

Imagens da série Atlas Perú (2000-2001), de Fernando Bryce, feitas com referência a jornais e revistas que contam a história do século 20 no Peru

Assim, a obra de Bryce é uma entrada para se pensar as transformações das noções de história e de arquivo. Se antes podíamos delimitar claramente o arquivo, hoje nos perguntamos se existe algo que não possa chegar a se converter em arquivo. A arte que trabalha com a história – e, particularmente, obras como as de Fernando Bryce refletem esta questão – mostra que os materiais históricos são fundamentais para continuar desenredando as narrativas do poder, a fim de questionar seu discurso hegemônico.

Imagens da série Atlas Perú (2000-2001), de Fernando Bryce, feitas com referência a jornais e revistas que contam a história do século 20 no Peru

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