Caderno de notas: Guilherme Peters

Artista escreve sobre pensamentos estruturais da obra Escola sem Partido (2018)

Guilherme Peters

Publicado em: 31/05/2018

Categoria: Caderno de Notas Instituto, Projetos especiais

Escola sem Partido, instalação de Guilherme Peters no Arte Atual Festival, Instituto Tomie Ohtake

Na madrugada do dia 31 de março de 1964, um golpe militar foi deflagrado contra o governo brasileiro, o que culminou em uma ditadura militar que se estendeu durante 21 anos. Nesse regime, pessoas foram mortas e torturadas e qualquer participação democrática foi abolida. Nenhuma narrativa foi devidamente elaborada sobre esse período sombrio da história do país.

Em 2016, um outro golpe foi dado, dessa vez por parlamentares conservadores e religiosos que adotaram medidas e criaram projetos de leis que ameaçam os direitos humanos e o estado democrático – um deles, intitulado Escola Sem Partido, visa censurar a discussão política e sobre gênero em sala de aula a fim de impedir uma suposta ‘doutrina ideológica’ de grupos de esquerda e grupos LGBT. A performance será dividida em três partes: na primeira, o artista tenta lecionar sobre o golpe militar de 1964; na segunda, sobre os anos que o país passou sob regime militar até sua extinção; na terceira, sobre o golpe parlamentar de 2016. Em todas as aulas o artista está atado a um símbolo fascista que cria uma resistência ao seu acesso à lousa, ao mesmo tempo que usa uma máscara de gás que o sufoca e distorce sua voz, tornando sua fala incompreensível.

Qual a sua formação e por onde tem se direcionado o seu trabalho?
Eu me formei em Bacharel em Artes Plásticas pela FAAP em 2010, e meus trabalhos transitam entre o vídeo, performance, instalação e recentemente cinema. 

Conte-nos um pouco sobre a elaboração e montagem do seu projeto para o Festival Arte Atual. Pensando no tema da exposição, incluindo as noções de absurdo, acúmulo e serialidade, como você vê essa discussão refletida no seu trabalho?
Não vejo outro modo de conseguir refletir e entender, os acontecimentos dos últimos dez anos, se não for através de uma certa “lógica do absurdo”, aceitando a dicotomia que esse termo carrega, já que uma das definições de absurdo é “aquilo que viola as leis da lógica por ser totalmente contraditório, é distinto do falso, que pode não ser contraditório”. Quando me deparo com grupos pedindo a volta da ditadura militar, procuro entender essa anomalia histórica nos mesmos termos em que ela acontece, tentando decifrar e revelar uma suposta linguagem secreta por trás desta e outras anomalias que considero semelhantes. Alguns de meus trabalhos são resultados dessa busca.

Esse trabalho que apresento no “Festival Arte Atual” tem muitos porquês sobre os quais eu poderia falar, mas em tempos sombrios como os nossos a eu acho que faz mais sentido ressaltar só dois aspectos que carregam maior complexidade e são de alguma forma antagônicos e complementares.

O primeiro aspecto é “a morte do zumbi”. Por mais de três séculos acreditamos que o futuro seria o lócus da felicidade. Esse otimismo caracterizava a filosofia das luzes, que buscava atingir o desenvolvimento através da racionalidade das conquistas da ciência. O presente era visto como algo a ser superado. No entanto, as catástrofes presenciadas pela primeira metade do século XX, e a irresponsabilidade teórica da economia a partir do início da década de 70, com a criação dos derivativos financeiros, desencadearam um futuro incerto. Toda a fé na razão, no progresso e no contínuo histórico desmoronou. Apesar disso não fomos capazes de inventar outra forma de organização social, continuamos se baseando nos mesmos modelos que foram esboçados a partir do século XVIII na Europa, por falta de criatividade acabamos por manter vivo algo que já estava morto, tal como um zumbi. Talvez seja esse o motivo pelo qual uma nova catástrofe se anuncia semelhante as que ocorreram no século XX, talvez a história se repita como absurdo e não (apenas) como farsa e ficção.

Se antes a ideia de progresso construía através da racionalidade, e dava um sentido de continuidade histórica, hoje é o capital que assume essa função, controlando o tempo através do seu fluxo irracional, imprevisível e contraditório. Tempo se tornou um bem corporativo, pertence ao mercado econômico. O capital perdeu a sua qualidade narrativa, tal como aconteceu com a pintura antes. O dinheiro tornou-se um valor em si mesmo, faz parte de um sistema autônomo. Não vivemos no fim de todas as utopias, como alguns gostam de dizer, as utopias não estão mais agregadas com as grandes narrativas históricas, agora são parte fundamental do sistema econômico, assim como o tempo, se transformaram em bens corporativos.

O segundo aspecto é “a maquina de produzir reflexos”. Acredito que a internet reconfigura, todo nosso sistema de representação, e isso parece estar passando desapercebido. Tenho a impressão que essa reconfiguração tem se passado em uma dinâmica tão próxima das pessoas, e tão colada nos acontecimentos, que ela está sendo a primeira a se perder soterrada nos feeds, likes e logs. Quase como numa casa de espelhos, onde os espelhos em si desaparecem. O último grau de um exercício narcísico da construção de uma auto-imagem que, afinal, parece servir mais do que qualquer coisa para instaurar uma situação ou um estado de vigilância constante. Existe uma linguagem on-line que cria uma espécie de inconsistência e achatamento das idéias ou meme-ificação da imaginação; o que é dizer que ontem um grito como “vem pra rua!” significava uma coisa e hoje certamente já significa outra. Não é à toa que essa linguagem aparece logo depois da internet passar por um processo intenso de privatização, e monopolização de empresas como Google, facebook.

Para finalizar, gostaria de colocar aqui um texto do Felipe Salem:

“Olha só que bosta que vai ficar a sua vida quando todas as possibilidades de sanidade mental se extinguirem e aí vamos todos ter que abandonar os nossos hábitos de higiene e viver na rua violentando as pessoas para que elas finalmente possam entender a amplitude dos problemas e como as relações humanas são vazias e arbitrárias. Depois disso alguém vem do nada e diz que o que você considera real é na verdade representação e que estamos todos cobertos por germes.

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