Caminhar bem, caminhar junto

No ar, a edição #52 da seLecT, a quarta dedicada à floresta, que coloca os ecofeminismos em debate

Paula Alzugaray

Publicado em: Vol. 10, N 52 Outubro/ Novembro/ Dezembro 2021

Categoria: A Revista, Destaque, Editorial

Capa seLecT #52

Dja Guata Porã. Tomamos emprestada a livre tradução do título em guarani da exposição que o Museu de Arte do Rio realizou sobre o Rio de Janeiro indígena, em 2017 – caminhar junto, caminhar bem – para nomear o editorial da #52 e demarcar a consagração de dois processos: a série de quatro edições da revista dedicadas às Florestas, em 2021, e uma década de vida da seLecT. O tempo é o grande regente da caminhada e “caminhar junto” é a condição necessária de nossos processos, dada a capacidade da revista como lugar de fazer coletivo e de entendimento da arte, da crítica de arte e da produção de conhecimento como campos de permeabilidade entre mundos, visões de mundos, epistemologias. As sementes plantadas e os frutos colhidos nessas trilhas nos trazem, então, a uma revista que coloca em interlocução as lutas feministas aos ativismos sociais e pelo meio ambiente. Ecofeminismos em debate.

Importante pontuar de entrada que, como destaca Nina Gazire, repórter especial da #52, em glossário do Mundo Codificado, não existe um ecofeminismo monolítico. Os termos essenciais dessas teorias indicam que suas reivindicações – entre elas, a dissolução da ideologia do dualismo, usada para justificar a opressão da mulher e a destruição da natureza – são solidárias a muitas outras lutas. Por isso, ecofeminismos no plural, em embates a outras terminologias, como Plantationscene, a era geológica proposta pela bióloga Donna Haraway em questionamento frontal ao etnocêntrico, cristão, heteronormativo, dualista, cisgênero, branco e machista Antropoceno. Nas vozes de muitxs que fazem e participam desta edição, entre elas a rapper Brisa FLow e a artista Maria Thereza Alves, elabora-se a crítica ao feminismo, como movimento que não representa a mulher indígena, afro-ameríndia ou latino-americana.

Um flagrante resultado do caminhar junto chama-se Amazônia: Uma Residência Editorial, realizado em parceria com a Pro Helvetia – Fundação Suíça para a Cultura, em que os processos da Redação da revista abriram-se à participação de Denilson Baniwa, artista e comunicador natural do Rio Negro, Amazonas, Vanessa Lorenzo, artista basco-suíça e biohacker, e Guerreiro do Divino Amor, que no escopo do projeto Superficções iniciou pesquisa sobre as camadas superficcionais amazônicas para uma saga sobre a guerra civilizacional entre Helvetia e Amazônia. Eles participam da edição, site e redes da seLecT com textos, infográficos, podcast e videoentrevistas com as militantes de movimentos indígenas Renata Tupinambá, Eliane Potiguara e Maial Paiakan.

Em coluna móvel sobre um ecofeminismo queer e decolonial, a escritora Daniela Rosendo diz que os ecofeminismos são um conjunto de teorias que articulam questões de gênero e ambientais, às vezes incluindo animalismos e discussões interespécies, e que, fundamentalmente, se referem a práticas contra todas as formas de opressão, conectadas pela lógica da dominação. Até um “astrofeminismo” pôde ser inventado nas pesquisas desta edição, do qual a primeira expoente seria a escritora Thea von Harbou (1888-1954), a verdadeira autora de Metropolis e Mulher na Lua, obras literárias que lançaram o marido e cineasta Fritz Lang às estrelas.

Das revisões de teorias e histórias da biologia, geologia e arqueologia nas páginas da #52, cabe ressaltar a indagação da artista Anita Ekman, embasada em estudo arqueológico que atesta que 73% das mãos impressas em cavernas paleolíticas na Europa eram de mulheres: “Teriam sido as mulheres as primeiras artistas?”, lança.

Nas quatro edições florestais, tocamos o tempo dos mitos, roçamos o tempo antes do tempo, o tempo em que o céu ainda estava muito perto da terra. Mas agora vivemos o tempo da catástrofe e do cataclismo, já anunciados por artistas, cientistas e indígenas como Davi Kopenawa no fundamental A Queda do Céu (2015). Tempo de uma pandemia que joga o planeta em crise sistêmica, com ampliação de desigualdades, deixando a população mundial na mais crítica situação de vulnerabilidade da história, segundo relatório publicado pela Organização das Nações Unidas (ONU) no último dia de fechamento da edição. A retrospectiva que a redatora-chefe Juliana Monachesi faz do primeiro e do segundo ano da pandemia da Covid-19 no cenário cultural e nos trabalhos de uma dezena de artistas contemporâneos produz um retrato contundente do mundo de hoje.

Fruto e agente das discussões implícitas e necessárias ao seu tempo, seLecT vê-se espelhada na arte indígena contemporânea – abordada em textos críticos sobre a 34a Bienal de São Paulo –, em suas sobreposições de tempos e mundos. Por isso elegemos como imagem de capa a obra Kahtiri Eõrõ – Espelho da Vida (2020), de Daiara Tukano, que incorpora um símbolo das expropriações do passado e do presente, o manto Tupinambá, para projetar-se em futuros.

Agradecemos a todos que caminharam bem e caminham junto no ciclo que se consolida aqui.

Capa seLecT #52

Tags: , , ,

Nota de esclarecimento A Três Comércio de Publicações Ltda. (EDITORA TRÊS) vem informar aos seus consumidores que não realiza cobranças por telefone e que também não oferece cancelamento do contrato de assinatura de revistas mediante o pagamento de qualquer valor. Tampouco autoriza terceiros a fazê-lo. A Editora Três é vítima e não se responsabiliza por tais mensagens e cobranças, informando aos seus clientes que todas as medidas cabíveis foram tomadas, inclusive criminais, para apuração das responsabilidades.