Canto coletivo

Bienal reúne artistas em um canto contracolonial que dá voz aos que a modernidade calou, fez gritar de dor ou classificou como ruído subalterno

Paula Braga

Publicado em: Vol. 10, N 52 Outubro/ Novembro/ Dezembro 2021

Categoria: A Revista, Crítica, Destaque

Presunto e A Carga (1968), ambas de Carmela Gross (Foto: Cortesia Bienal)

A 34a Bienal de São Paulo faz jus à polissemia do verbo curar. Para quem vive desde 2016 com a dor do golpe e ainda luta diariamente contra as investidas do bacilo fascista, a curadoria desta edição funciona como uma poção revigorante da força de vida. Em um país corrompido pela pequenez, a bienal traz Marielle gigante e inesquecível, em obra de Paulo Nazareth. Do fogo que consumiu o Museu Nacional sai ileso o meteorito Santa Luzia, imperturbável em seus milhões de anos de idade. Materializações da grandeza e da perenidade, essas duas escolhas da curadoria dão a receita do restabelecimento: implantar integridade na medula deste país.

Os 14 enunciados que organizam a mostra puxam o canto que une obras, escritos e conceitos de mais de cem artistas, em um coro contracolonial que consegue a comunhão de várias pautas em torno do combate fundamental: dar voz aos que a modernidade calou, fez gritar de dor ou classificou como ruído subalterno. Como em todo coro, os enunciados disparam a mágica estética da construção de uma coletividade. A caminhada pelos três andares da exposição principal da Bienal consegue estabelecer um entusiasmo que remete a uma expressão usada por Hélio Oiticica (1937-1980), artista que dá nome a um dos enunciados: sente-se “pisando a terra novamente”, ou seja, vinculado à alegria de pertencer a um todo que dança e canta para se fortalecer e combater aquilo que Oiticica constatou em 1978: há um programa de genocídio em andamento.

Tantas Vezes Apümngeiñ (1991) de Sebastián Calfuqueo (Foto: Cortesia Bienal)

Depois de promulgado o AI-5, Hélio Oiticica decidiu viver em Londres e em Nova York. Ao retornar ao Brasil, em 1978, percebeu o dano que a ditadura militar causou à vida nacional, em muitos aspectos. Seus amigos da Mangueira haviam sido presos ou assassinados, o que o levou à constatação de genocídio que, lida hoje, embaralha presente e passado, e levou-o a conceber a obra A Ronda da Morte, deixada pelo artista em forma de projeto. Ainda que as regras de distanciamento social, devido à pandemia de Covid-19, inviabilizassem a montagem póstuma, a obra comparece duplamente na exposição. Na aparição em papel, é um fac-símile do projeto original, que descreve uma tenda escura e fechada, dentro da qual luzes estroboscópicas giram e pessoas dançam música de discoteca, enquanto do lado de fora homens a cavalo rondam a festa. Considerando que a bienal foi aberta ao público no dia 7 de setembro de 2021, com o país sob ameaça de mais um golpe de Estado, o pavilhão pôde ser entendido como a tenda da festa. Houve dança e canto naquela abertura, apesar dos cavaleiros da morte.

Próxima à descrição da obra de Oiticica, a impactante escultura de Sebastián Calfuqueo (Santiago, 1991) representa um torso segurando – ou transpassado por? – uma enxada. O rastro desse lavrador são as palavras “Tantas veces apümngeiñ”, ou heo em referência ao assassinato de membros da nação Mapuche durante a ditadura militar no Chile. As palavras parecem escorrer da figura que, feita de barro, tem um brilho vítreo. Em um monitor próximo à escultura, um vídeo mostra o artista cavando a terra, enquanto pronuncia nomes das famílias Mapuche cujos parentes desapareceram.

Boca do Inferno (2021), de Carmela Gross (Foto: Cortesia Bienal)

Lembrar para que não se repita? Só não se repetirá se formos capazes de elaborar as lembranças. Nas obras A Carga (1968) e Presunto (1968), de Carmela Gross, lonas de caminhão aparecem envelhecidas quando comparadas às fotografias das mesmas obras expostas na 10a Bienal de São Paulo, a Bienal do Boicote, de 1969. Não se sabe o que há por baixo das lonas, mas o barril que completa o trio de obras invoca o pesadelo dos afogamentos nos porões da ditadura. O retorno do mesmo é aterrorizador. Carmela Gross, então, repete a revolta, gravando centenas de vezes, dia após dia, borrões cujas formas se originaram em imagens de vulcões, que a artista altera, transporta para outros suportes, elabora em desenho. Algo espreita para entrar em erupção. E quando explodir, vai escorrer em canto de alívio, em comunhão com a terra e com os povos que vêm segurando o céu, suas estrelas e meteoritos, com espíritos gigantes da resistência.

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