Caricatura do real

Cristina Padiglioni

Publicado em: 13/12/2012

Categoria: Colunas Móveis, Reportagem

A televisão que se alimenta do mundo- cão, em preto e branco ou HD, na poltrona de casa ou na mobilidade do smartphone

Policia

Legenda: Polícia 24 horas, na Band: canais buscam ibope com a fórmula do reality-show policial. (Foto: divulgação/Band)

A considerar a premissa de que a televisão é essa janela para o mundo, como se diz, não causa espanto a morbidez que motiva uma audiência inconfessa a alimentar a indústria do audiovisual pela fabricação do mundo-cão. O horror que a plateia expressa pela narrativa de um José Luiz Datena ou de um Ratinho e a repulsa aos pormenores de um Roberto Cabrini ou de um Marcelo Rezende, sem falar na falsa indigestão
aos envernizados documentários que brincam de CSI na tevê paga, não valem o zapping do controle remoto.

Ao telespectador não basta recusar o cardápio, é preciso prová-lo até o fim, e assim é desde que os gladiadores dominavam o set, séculos antes de inventarem que estávamos sendo filmados. A isso equivale o protesto silencioso travado entre auditório e espetáculo. Como diz Nelson Piquet, ninguém vai ao autódromo para ver de perto o vencedor, e sim para testemunhar ao vivo o iminente acidente a 300 quilômetros por hora. Está na natureza humana, o.k., mas sempre haverá quem se aproveite de tal apetite. Faminta de verba publicitária, pois, a tevê bebe na fonte e serve ao circo o pão desejado – ainda que este seja um desejo pelo prazer de esbofetear.

É bem verdade que a fome dentro desse segmento já foi maior. Houve um tempo em que o DNA ditado pelo Aqui Agora, do SBT, fazia de 15% a 20% de audiência na Grande São Paulo. Hoje, 20 anos depois e com um punhado de militâncias de toda espécie a coibir a repercussão em torno do dito sensacionalismo, há só um Datena fazendo 6% de bilheteria e outros canais investindo na busca de ibope pela fórmula, sem, contudo, dispor de porta-voz tão eficiente para seduzir a massa.

O Judas a quem temos o prazer de malhar agora está estampado em outras máscaras, incluindo aí o humorista que tropeça numa piada mal digerida pela Caricatura do real Cristina Padiglione colunas móveis / televisão torcida instalada no sofá. O sujeito então passa a ser apedrejado de um dia para o outro, em praça pública, mais ou menos como aquele prisioneiro que no filme A Vida de Brian, obra-prima do Monty Python, é alvejado por mulheres travestidas de homens só por ter pronunciado o nome “Jeová”.

Não muito longe dali, em cenário vizinho e às vezes até convergente, a tevê paga dá algum polimento à receita policialesca e a serve em forma de documentário. É série para crimes passionais (do goleiro Bruno a Pimenta Neves), para tragédias familiares (vide Isabella Nardoni) e para o caos social, (do maníaco do parque ao toque de recolher do PCC). Responsável por avalizar verba pública para coproduções nacionais com canais pagos, a Ancine quase sempre abençoa tais conteúdos.

Afinal, não nos esquivemos da parte que nos cabe nesse enredo: trata-se de um acervo dramático que bem faz parte da nossa história. O caso é que apenas jogar lente de aumento sobre a realidade não necessariamente credencia um conteúdo disposto a fazer o espectador se trancafiar em casa e fugir desse mundo repleto de violência que a televisão exibe em alta definição. Os mestres de cerimônia do show, gente que apresenta e produz a televisão do medo, argumentam que apenas desfilam na tela o que acontece na vida real.

Verdade. Nada ali é ficcional, mas a edição se encarrega de operar a distorção. Quem vê tantas mazelas em espaço tão curto? Quem, senão a própria polícia, testemunha tanta desgraça por segundo, e ali, com direito a trilha sonora compatível? Enquanto imitamos a indústria do cinema americano, que se escandaliza com cenas de sexo, item que presumivelmente todo ser animal há de conhecer e praticar em sua existência, tiroteios e sangue escorrem à vontade pela tela, por meio de ações que dificilmente você viverá ou verá de perto no decorrer da vida.

Há, nos telejornais recheados por ocorrências policiais, uma concentração de homicídios, acidentes e descasos que da vida real só carregam a caricatura.

*Publicado originalmente na edição impressa #08, outubro de 2012.

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