Carlito na floresta

Brevíssima retrospectiva em homenagem ao fundamental Carlito Carvalhosa, falecido ontem, aos 59 anos

Juliana Monachesi, Nina Gazire, Paula Alzugaray

Publicado em: 14/05/2021

Categoria: Da Hora, Destaque

A Soma dos Dias (2011), no MoMA (Foto: Divulgação)

Carlito Carvalhosa é um artista assombrosamente sensível, que cuidou de guardar partícula por partícula de poeira para construir uma imensa catedral no espaço central do MoMA (o grande templo da arte moderna, que ele invadiu disruptivamente em 2011 e impregnou de camadas de repertório que o incauto crítico de arte do NYT que escreveu o review não conseguiu nem começar a entender), feita de diáfanos tecidos e música, impalpável e, ao mesmo tempo, presença material avassaladora, de fazer o coração parar: A Soma dos Dias, o nome da obra.

Partícula por partícula de gesso em pó, ele erigiu monumentos temporários ao grande abismo da arte, da experiência inabarcável de ser invadido pela arte, tomado de assalto, colocando tudo em suspensão. É essa a experiência da vida, afinal. Que tristeza amargar a soma dos dias sem mais um dos nossos heróis, modelo de gente que é boa de graça. Obrigada, querido, pelo presente dos lindos corpos flutuantes de gesso, pelos bailes de tecidos brancos, pelas festas de luzes frias, pelas florestas de madeira abandonada (ruína da civilização), por plasmar as coisas da vida numa obra tão singular e inigualável.

Nos trechos a seguir, retirados de textos da equipe editorial da seLecT, produzidos ao longo das décadas – desde que, jovens repórteres em veículos que antecedem nossa revista (IstoÉ, Canal Contemporâneo), já acompanhávamos a aventura diáfana das volutas alvas e dos postes de eucalipto monumentalizados (provisoriamente) em floresta urbana -, nossa homenagem a esse artista incomensurável, que nos deixou ontem, aos 59 anos, após uma batalha de 8 anos contra um câncer.

Favor Não Tocar (2005) provocou experiência disruptiva do espaço badaladíssimo do Centro Maria Antonia na era Lorenzo Mammí. Que visão a da sala principal vazia em noite de abertura: o público todo contido pela pequena grade branca alinhada às duas primeiras colunas do espaço. Algo como aquelas peças do Serra que vão espremendo as pessoas mais e mais. Só que, aqui, o muro era invisível, tênue. Da parte da sala a que as pessoas tinham acesso, via-se uma peça de gesso travada no vazio.

A Soma dos Dias (2011), no MoMA (Foto: Divulgação)

“Não tem aquela coisa de chegar perto, encostar, colocar a lata de cerveja em cima e chamar de meu chapa!”, explicou o artista.

O título deste trabalho de Carlito Carvalhosa seria, originalmente, Perna de Três, mas acabou ganhando o nome Favor Não Tocar durante a construção da obra, depois que o artista decidiu que haveria uma barreira impedindo a circulação. “Perna de três” designa um elemento de construção civil. Já “duas águas”, que deu título à sua exposição no MuBe em 1999, é o nome que se dá ao telhado que possui caimento de dois lados para a água, construído na forma de um “V” invertido. As duas facetas do telhado inspiraram João Cabral de Melo Neto a designar com este nome a divisão de sua obra, em título de livro de 1956: uma faceta mais hermética e outra, mais popular, poemas para ler e outros para recitar.

Para além de uma possível relação entre os nomes das obras, Duas Águas e a peça do Ceuma têm em comum o material, a cor, a densidade travestida de leveza. Este grupo de obras teria menor parentesco, por exemplo, com as esculturas em gesso perfurado mostradas na exposição de 2003 na galeria Raquel Arnaud, que estabelecem maior diálogo com a série de porcelana esmaltada de 1996/7, não tanto pela questão das perfurações, mas por uma espécie de acabamento “seco”, oposto ao acabamento “úmido” de Duas Águas e de Favor Não Tocar.

“A peça na Raquel tinha várias naturezas, uma parte furada, outra muito fina, era uma peça mais híbrida, na linha das peças em porcelana. Uma peça que você pode dar a volta nela e sempre vai surgir algo que não se apresentava antes. Desta vez, pensei que era possível ver a peça com mais intensidade se eu mantivesse a distância dela. Para fazer o espaço em torno, parte da peça”, disse o artista.

No início de agosto de 2011, o pianista norte-americano Philip Glass, conhecido por composições contemporâneas de estruturas bachianas, se apresentou juntamente com a Escola de Música de São Paulo – Tom Jobim, em um recital de piano um tanto diferente daqueles executados em salas de concerto. Glass tocou no centro de uma espiral de tecidos que conforma a instalação A Soma dos Dias, obra de Carlito Carvalhosa desenvolvido para o Projeto Octógono Arte Contemporânea da Pinacoteca de São Paulo. Separado do público por planos translúcidos, o músico apresentou uma seleção de suas peças musicais. A ideia surgiu de uma parceria entre os dois artistas em que música e espaço se integram em um espetáculo sensorial.

“A motivação artística do músico e do artista visual vem do mesmo lugar. Ambos esperam alguma participação do espectador. Aqui, a música é integrada ao espaço que Carlito desenvolveu e que não transmite significados prontos. O que vale é a experiência individual que cada um vai ter ao apreender o espaço. A instalação é um catalisador para que as pessoas tenham uma experiência ampliada pelo lugar físico. A música tem o mesmo papel. Ela só é completa quando alguém a escuta. A obra que fiz com o Richard Serra era uma escultura estática. Nessa obra de Carlito existe o movimento e o translúcido dos panos que me possibilitam ver o movimento das pessoas e suas reações. Há uma interação mais dinâmica”, disse Philip Glass sobre A Soma dos Dias.

Com Sala de Espera (2013), Carlito Cavalhosa evocou com potência a história do lugar e da nossa “cultura de transmissão”, refletindo sobre “como as coisas se transformam quando damos um nome a elas”. Dentro desse raciocínio, vislumbramos a história desses objetos que ocupam – em equilíbrio tênue – o anexo do novo edifício do Museu de Arte Contemporânea de São Paulo (MAC-USP). Ao atravessá-lo, descobrimos sinais da vida efêmera das florestas de eucaliptos e testemunhamos os vestígios de sua conversão em cultura. Mas, e agora, quando essa matéria já não é árvore nem poste?

“A arte é um lugar onde os objetos perdem sua utilidade, portanto é um não lugar. Pensei em enfrentar este lugar trazendo aqui para dentro uma outra natureza. Gosto de utilizar materiais que são comuns, que nos acompanham no nosso dia a dia”, disse.

Além da memória dos postes e das árvores, Carvalhosa nos apresenta a familiaridade dramática das paisagens urbanas castigadas pelas chuvas de verão.

No projeto Cartas ao Prefeito: São Paulo, iniciativa do Storefront for Art and Architecture, que convida artistas e arquitetos a escreverem cartas posteriormente encaminhadas ao gabinete do prefeito, Carlito Carvalhosa fez uma carta-desenho, em que o texto sobre a memória de uma cidade que não existe é obstruído por faixas pretas.

“Escolhi o preto pois os blocos negros quebram o discurso como os prédios em São Paulo quebram o lugar (só se vê a cidade pelas frestas). Temos que lembrar o que não vemos/lemos. Não se vê a cidade de uma vez só”, disse o artista.

Daqui, das florestas de madeira abandonada e das cidades que não existem, seguimos em interação dinâmica com a aventura diáfana que Carlito nos propôs. Vendo, pelas frestas, as coisas se transformarem quando damos um nome a elas.

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