Carolina Caycedo: por uma memória ambiental

Artista abre espaços para a discussão e a educação da população sobre as consequências socioambientais dos modelos energéticos extrativistas

Paula Alzugaray

N° Edição: 42

Publicado em: 15/04/2019

Categoria: Sem categoria

My Female Lineage of Environmental Struggle/ Mi Linaje Femenino de la Resistencia Ambiental (2018), desenho da série Genealogy of Struggle, de Carolina Caycedo, composto de 100 retratos de ambientalistas mulheres (Fotos: Cortesia da artista)

“Lira Itabirana”, poema de Carlos Drummond de Andrade, de 1984, que critica a Vale, empresa responsável pelos dois maiores crimes ambientais do País, ecoa hoje em sites, blogs, redes e rodas de conversa mundo afora. Carolina Caycedo, artista nascida em Londres de família colombiana e residente em Los Angeles, realizou no Brasil um trabalho em torno do rompimento da barragem da Samarco, em Mariana (MG), em novembro de 2015. Ela também recorre ao poema para mandar uma mensagem de solidariedade às comunidades afetadas pelo desabamento da barragem de rejeitos da mina Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), em 25 de janeiro último.

“A área mineira de Minas Gerais é o que chamamos de Zona de Sacrifício, uma região geográfica permanentemente sujeita a danos ambientais, onde se concentram indústrias extrativistas e onde vivem comunidades de baixa renda que suportam mais do que seu quinhão de danos ambientais relacionados à poluição, resíduos tóxicos e indústria pesada”, diz Caycedo à seLecT. Com o projeto Be Dammed (2013-2018) ela aproxima-se do poeta no empenho de evidenciar e criticar a violência ambiental.

O título da série faz um trocadilho entre a palavra damm (represa, em inglês) e a expressão damned (maldito). Be Dammed investiga os efeitos das barragens de mineração, das usinas hidrelétricas e de grandes obras de contenção de água sobre a paisagem natural e a paisagem social de toda a América Latina. As mais de 250 represas hidrelétricas da região estão no raio de investigação artística e de ativismo de Carolina Caycedo.

Na fase brasileira da pesquisa, levada a cabo durante residência para a 32ª Bienal de São Paulo (confira o vídeo em bit.ly/carolina-caycedo), Caycedo percorreu quatro “zonas de sacrifício”: Itaipu, cujo processo de expropriação de terras foi catalizador do nascimento do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MTST); Belo Monte, no Rio Xingu, cujo processo de licenciamento ambiental foi marcado por irregularidades e forte resistência indígena; Usina de Fundão, em Mariana, que rompida em 15 de novembro de 2015 varreu do mapa a cidade de Bento Rodrigues e tirou a vida do Rio Doce; e Vale do Ribeira, onde comunidades caiçara e quilombola resistem à construção de represas. A viagem rendeu um vídeo – A Gente Rio (2016) –, uma instalação e uma ação coletiva no Parque do Ibirapuera, em São Paulo – Águas para a Vida (2016) –, em que um grupo de pessoas escreve com seus corpos um apelo por justiça às comunidades arrasadas pelo crime da Samarco, empresa que pertence à Vale e à anglo-australiana BHP Billiton.

A Gente Xingu, A Gente Doce, A Gente Paraná (2016), mural em grande escala que relaciona imagens de satelite de duas hidrelétricas e uma represa de dejetos de mineração, no Brasil

 

Não existe mais vida no rio
Dados preliminares obtidos por meio de imagens de satélite e publicados pelo Ibama em 30/1/19 indicavam que o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho havia destruído 269,84 hectares de vegetação nativa ao longo de cursos d’água. Nos mesmos quatro primeiros dias pós-desastre, uma expedição técnica da ONG SOS Mata Atlântica concluiu que o Rio Paraopeba estava morto ao longo de 40 quilômetros de extensão, e que sua água continuava a avançar com a densidade de um tijolo líquido.

O corpo d’água foi o primeiro a sentir os impactos do desastre. A asfixia pelos rejeitos de minério com grande concentração

de lama, ferro e metais pesados matou de imediato peixes, anfíbios, insetos e microrganismos responsáveis pela saúde da vida na água. Mas, se estudos sobre os efeitos da lama na saúde humana ainda são inconclusivos, a vida e a morte dos rios têm impacto direto e inquestionável sobre a vida humana. E é justamente sobre as águas e as vidas moldadas por elas que Carolina Caycedo se debruça.

“Apoio incondicionalmente as comunidades afetadas por barragens e outros projetos extrativistas. Se as pessoas afetadas estão na linha de frente, colocando seus corpos para proteger a vida dos ecossistemas, estou imediatamente atrás, colocando minhas mãos em suas costas, ajudando a sustentar essa linha, dando força para essa resistência, através de imagens, símbolos, rituais e levantando as histórias dessas pessoas”, diz a artista.

Registro em vídeo da performance Beyond Control/ Mas Allá Del Control (2013)

 

O rio ainda pode viver
Caycedo sustenta que a morte dos rios e dos peixes corresponde à morte das pessoas e das ideias. “Uma represa corta o fluxo e a vida de um rio, bem como uma mentalidade militar corta qualquer oposição ou movimento social que busque a dignidade de nossas vidas. Visual e estruturalmente funcionam de maneira semelhante, como uma grande parede bloqueando um fluxo”, diz.

Beyond Control/ Mas Allá del Control (2013), performance coletiva realizada no Instituto de Visión, em Bogotá, em 2016, responde a essa ideia. Os movimentos da ação exploram “coreografias do poder” praticadas pela polícia ou por forças militares para conter as massas e manipular indivíduos em espaços públicos. Tal qual a contenção das represas.

A vida dos rios, entrelaçada ao universo cultural e simbólico dos povos ameríndios, é também o eixo de trabalhos como One Body of Water (2015), que relaciona histórias de três rios da Colômbia, do México e dos EUA; e de Watu (2016), livro que tem o leito do Rio Doce como elemento central da narrativa escrita e visual e conta a história do assassinato do rio pelo minério de ferro da Usina do Fundão, pela perspectiva do povo Krenak. Watu (avô, em borun) é como os Krenak chamam o Rio Doce.

A luta pela sobrevivência dos rios e da saúde das populações ribeirinhas e originárias das florestas completa-se no mais recente trabalho da série From the Genealogy of Struggle (Da Genealogia da Luta), o desenho sobre papel My Femaile Lineage of Environmental Struggle / Mi Linaje Femenino de la Resistencia Ambiental (2018). A obra é composta de 100 retratos de mulheres ambientalistas de todo o planeta. “Entendo que somos parte de uma grande genealogia que inclui ecofeminismo, ecologias políticas feministas e mulheres que trabalham em organizações sociais de base”, diz Caycedo. A obra dá continuidade a I and I Shall Not Remove/ No Nos Vamos a Dejar (2017), desenho de quatro mulheres defensoras dos rios nas Américas: Berta Cáceres (Honduras) e Nice Souza (Brasil), assassinadas por seu ativismo, e Zoila Ninco (Colômbia) e Raymunda (Brasil), ainda lutando por seus direitos.

Nem todas elas, assim como nem todos os rios, estão mortas. Vivem para relatar a violência e para construir uma Memória Ambiental. “Como vítima, a natureza deve ser reparada como parte da implementação dos acordos de paz. Essa reparação inclui o reconhecimento dos perpetradores de tal violência contra a natureza e as relações entre conflito armado e injustiça ambiental. Isso é o que chamamos de memória histórica ambiental, e sua reconstrução funciona como garantia de não repetição”, diz Caycedo.

I and I Shall Not Remove/ No Nos Vamos a Dejar (2017), desenho que representa quatro ambientalistas mulheres envolvidas em causas de defesa de rios. Ambos de Carolina Caycedo

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