Cartografia Poética

Seis dos mais interessantes artistas do cenário nacional integram o 34º Panorama da Arte Brasileira, mas o que fica é a ousadia da dupla de curadores

Mario Gioia
Imagem do cume do Pico da Neblina integra a instalação Mutações Geográficas: Fronteira Vertical ( 1969-2015), de Cildo Meireles (Foto: Edouard Fraipont)

Da Pedra, Da Terra, Daqui, título da edição 2015 do tradicional Panorama da Arte Brasileira, organizado pelo MAM-SP, tem no caráter territorial um dado central de sua concepção. Existe o território geográfico do Sudeste e do Sul brasileiro (e que se estende até o Uruguai), por conta das dezenas de peças, em especial os surpreendentes zoólitos, esculturas de pedra feitas entre 4000 e 1000 a.C. A ancestralidade vem em prol de uma cartografia poética.

E há o território como campo de produções visuais nas mais diversas linguagens, a cabo de seis artistas dos mais interessantes no cenário nacional: Berna Reale, Cao Guimarães, Cildo Meireles, Erika Verzutti, Miguel Rio Branco e Pitágoras. Os curadores Aracy Amaral e Paulo Miyada não se esquivaram do risco e propuseram aos artistas obras especialmente feitas para a mostra. Um âmbito territorial para contemplar embates poético-visuais de variadas gradações.

No desafio proposto, alguns nomes criam trabalhos mais pungentes. Contudo, o que permanece é a ousadia da dupla curatorial em dar liberdade e fomentar projetos intrigantes para os artistas; a tentativa de evitar o literal nas relações entre as obras do hoje e as peças do outrora; e o escapar de uma “museificação” que poderia estancar as leituras sobre os dois blocos – nesse ponto, a expografia de Álvaro Razuk funciona de maneira exemplar para a passagem suave entre mundos tão diferentes.

Cildo Meireles, o mais consagrado artista do recorte, finaliza um projeto comovente, Mutações Geográficas: Fronteira Vertical, iniciado em 1969. Fotografia, maquete e vídeo se coadunam na troca, física, entre uma porção do cume do Pico da Neblina (AM) por outro pedaço mínimo de minério extraído das lavras profundas da mineração nacional (hoje tão em evidência, por meio da tragédia ambiental de Mariana). Mas isso não encerra a excepcional participação do carioca. Arte Física: Clareira (Caixas de Brasília), de 1969, é dos momentos mais inspirados da nossa arte, em sintonia com o grande legado que a internacional land art deixou para a contemporaneidade. Arte Física: Cordas: As Nascentes do Arco-íris revela-se paradigmática na vertente conceitual de arte brasileira.

Cao Guimarães cria em Filme em Anexo um registro sensível sobre o que não se apreende. “Filmador-viajante”, o mineiro desencava lascas de narrativa e, pela habilidade entre o epistolar e o imagético, cria um audiovisual memorável. Rima com o silêncio dos sedimentos em sambaqui. O ruído das formas estranhas de Verzutti, dos sons das instalações de Berna e de Rio Branco e das garatujas pictóricas de Pitágoras acaba por dar uma instabilidade sadia ao corpo da exposição. Harmonias forçadas não dão realidade ao contemporâneo.

34º Panorama da Arte Brasileira – Da Pedra, Da Terra, Daqui até 10/2, MAM-SP, Parque do Ibirapuera, Portão 3, SP, www.mam.org.br

*Publicado originalmente na #select27

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