Cartografias de matriz afro

Ícaro Lira, Moisés Patrício, Daniel Lima e Jaime Lauriano reivindicam a revisão da história hegemônica e se envolvem em processos de mediação com imigrantes e refugiados

Daniela Bousso

N° Edição: 31

Publicado em: 24/08/2016

Categoria: A Revista, Curadoria, Destaque

Terra Brasilis: Invasão, Etnocídio e Procriação Cultural (2015), de Jaime Lauriano, é desenho feito com giz utilizado em rituais de Umbanda (Foto: Filipe Berndt)

A revisão da história hegemônica do Brasil adquire densidade reflexiva na arte contemporânea e ilumina as obras de matriz afrodescendente que abordam conceitualmente as novas diásporas do século 21. Ícaro Lira, Moisés Patrício, Daniel Lima e Jaime Lauriano são apenas quatro desses artistas que têm como locus de ação a hipercomplexidade urbana. O resgate da memória cultural, a recuperação das nossas raízes afro e a denúncia da escravidão no Brasil são agora abordados de forma direta, colocando o dedo nas feridas de nosso passado e presente.

Ponto de chegada de crescentes fluxos migratórios, a metrópole paulistana anuncia um novo processo de mediações. A presença de imigrantes africanos, coreanos, bolivianos, paraguaios e sírio-libaneses no Brasil – particularmente em São Paulo – aporta entrelaçamentos culturais com a criação de locais de encontro dessas comunidades, como bares, restaurantes e salões de dança, que promovem manifestações artísticas, musicais e gastronômicas.

Soldados da Borracha (2015) é uma obra integrante da instalação Campo Geral, de Ícaro Lima, que trata da imigração forçada de cearenses para o trabalho na indústria do látex na Amazônia, no século 19 (Foto: Isadora Brant)

Soldados da Borracha (2015) é uma obra integrante da instalação Campo Geral, de Ícaro Lira, que trata da imigração forçada de cearenses para o trabalho na indústria do látex na Amazônia, no século 19 (Foto: Isadora Brant)

O brasileiro Ícaro Lira reside no Bom Retiro, em São Paulo, para conviver com imigrantes coreanos, bolivianos e judeus lá instalados. Artista e pesquisador, ele vem do cinema e da literatura. Montagem e narrativa caracterizam a sua obra, na qual revela processos de branqueamento de imigrantes e de racismo, a partir da coleta de objetos, depoimentos, vídeos, fotos e recortes de jornal.

Ao construir uma arqueologia de dispositivos de memória, Lira resgata a história oficial soterrada pelo Estado brasileiro. Em 2015, exibiu a instalação Campo Geral (2012-2015), cartografia que trata das migrações forçadas de nordestinos para a Amazônia e para Fortaleza, no início do século 19, composta de dois eixos. O primeiro eixo, Soldados da Borracha, foca na imigração de cearenses que trabalhavam na indústria do látex. Na modernização da Região Norte, feita com o capital da borracha, o governo incentivou migrações e colonizou a Amazônia com uma mão de obra farta e barata. O segundo, Campos de Concentração, mostra acampamentos montados pelo governo, entre 1915 e 1932, que consistiam em verdadeiros “currais” de confinamento de 100 mil sertanejos, mestiços e pobres. A ideia era manter essa população afastada de Fortaleza e longe do olhar, como forma de “higienizar” a metrópole a ser modernizada.

“Foi assim com as remoções para a Copa do Mundo de 2014. Como na favela do Pirambu, em Fortaleza, que as autoridades tentaram transformar em lugar turístico, sem sucesso, porque a comunidade lá é organizada. Esses processos violentos se repetem até hoje”, diz Ícaro Lira à seLecT.

Lira acaba de integrar a Residência Artística Cambridge dentro da Ocupação Hotel Cambridge, onde realizou um censo e ações como oficinas, palestras e cineclube. O artista conviveu com africanos, árabes e haitianos músicos, artistas visuais e atores no Grupo de Refugiados e Imigrantes Sem Teto (Grist), que atuam dentro da ocupação para reivindicar melhores condições de moradia em São Paulo. “O trabalho do artista imigrante é precário e restrito. Quando é convidado, é na condição de imigrante-refugiado, sem lugar institucional. Ele trabalha na construção civil ou como ambulante e chegou ao Brasil muitas vezes a partir da migração forçada. O trabalho de arte fica inviabilizado”, diz.

Desterro (2012-2016) é uma obra integrante da instalação Campo Geral, de Ícaro Lima, que trata da imigração forçada de cearenses para o trabalho na indústria do látex na Amazônia, no século 19 (Foto: Isadora Brant)

Desterro (2012-2016) é uma obra integrante da instalação Campo Geral, de Ícaro Lira, que trata da imigração forçada de cearenses para o trabalho na indústria do látex na Amazônia, no século 19 (Foto: Isadora Brant)

 

Oferenda poética e política
Moisés Patrício residiu na favela do Jardim Edite, na Avenida Eng. Luís Carlos Berrini, e passou por uma remoção para a Vila Industrial, situada entre São Paulo e Santo André. Ao migrar, o artista descobriu uma série de galpões abandonados, antigas fábricas falidas de cal, tijolos, cerâmica, cimento, adubos e fertilizantes. Lá trabalhou sozinho e, posteriormente, convocou artistas e coletivos para 12 ocupações e ações entre 2010 e 2013, que resultaram em três vídeos da série Movimento Artístico de Ocupação Urbana (M.A.O.U).

Registro de debate após a exibição do longo-metragem Invasor, de Beto Brant, em cineclube promovido por Ícaro Lira durante residência artística dentro da Ocupação Hotel Cambridge, em São Paulo, em 2016 (Foto: Isadora Brant)

Registro de debate após a exibição do longo-metragem Invasor, de Beto Brant, em cineclube promovido por Ícaro Lira durante residência artística dentro da Ocupação Hotel Cambridge, em São Paulo, em 2016 (Foto: Isadora Brant)

A última ocupação artística reuniu 400 participantes, em um parque abandonado das Indústrias Matarazzo: havia caminhões, ambulâncias, farmácias e documentos. Lá, a polícia treinava paintball. A fábrica foi ocupada às 8 horas da manhã por artistas grafiteiros e negros, vindos da periferia e do interior de São Paulo. Quando a polícia chegou, seus materiais foram confiscados e a ocupação foi dissipada.

Patrício convidou esses mesmos artistas a frequentar vernissages em galerias de arte paulistas, em 2014. Em sua listagem elencou as galerias de maior potência econômica com a intenção de dar àqueles artistas acesso ao sistema da arte – o que gerou consciência sobre as suas ausências nesses lugares. Em continuidade, o grupo tem se encontrado em estúdios de artistas e em espaços públicos, como o Museu Afro, além de manter comunicação pela internet.

  • Fotos da série Aceita? (2016), de Moisés Patricio (Fotos: Cortesia do artista)

Em maio, Moisés Patrício participou da Bienal de Dacar, no Senegal, a convite do Vídeobrasil com Aceita? (2013), série fotográfica em progresso. Mãos abertas são fotografadas por celular para a emissão de mensagens no Facebook e no Instagram; a obra articula relações de trabalho, escravidão, política e magia, como reação a um sistema social que limita o trabalho dos negros a afazeres braçais. “Na minha profissão, ser negro está no meu gesto, no meu código, no meu corpo, na forma como eu me projeto e oferto a minha arte”, diz Moisés Patrício à seLecT.

Obra da série Nou Pap Obeyi (Não Vamos Obedecer) (2016), de Daniel Lima e Felipe Teixeira, realizada em Porto Príncipe (Haiti) (Foto: Daniel Lima)

Obra da série Nou Pap Obeyi (Não Vamos Obedecer) (2016), de Daniel Lima e Felipe Teixeira, realizada em Porto Príncipe (Haiti) (Foto: Daniel Lima)

Daniel Lima produziu inúmeros trabalhos coletivos. Ele assume o gesto poético e político diante da arte afrodiaspórica há mais de uma década. Artista, editor, cineasta e curador, realiza intervenções midiáticas que incidem sobre o tecido urbano ao mesclar tecnologia e informação. Em 2003, realizou a intervenção Sem Saída, na Bienal de Havana. A ação consistiu em trancar policiais com cadeados em uma praça guardada por eles, denunciando truculência e controle das autoridades por meio de vídeo.

Imagens de intervenções do coletivo Frente 3 de Fevereiro em estádios de futebol, em 2005: Brasil Negro Salve, na final da Libertadores da América; Onde Estão os Negros, em jogo do Corinthians x Ponte Preta do Campeonato Brasileiro; e Zumbi Somos Nós, em jogo no Estádio do Pacaembu (Foto: Frente 3 de fevereiro)

Imagens de intervenções do coletivo Frente 3 de Fevereiro em estádios de futebol, em 2005: Brasil Negro Salve, na final da Libertadores da América; Onde Estão os Negros, em jogo do Corinthians x Ponte Preta do Campeonato Brasileiro; e Zumbi Somos Nós, em jogo no Estádio do Pacaembu (Foto: Frente 3 de fevereiro)

Em 2005, com o coletivo Frente 3 de Fevereiro, coordenou a ação artística do espetáculo multimídia Futebol, registrando em vídeo performances de bandeiras erguidas em estádios lotados, na hora do gol, com dizeres em escala monumental: “Onde estão os negros?” A realização da performance em Berlim conferiu reverberações internacionais ao projeto.

“’Democracia racial’ é um mito a ser desconstruído no Brasil, onde existe um ideal de democracia racial. Ao mesmo tempo que existe o ideal de harmonizar – durante o carnaval e o futebol, onde todos se abraçam na hora do gol, por tempo determinado – coloca-se cada um em seu lugar, pois essa democracia não é praticada no dia a dia. A pergunta é: onde estão os negros, que lugar eles ocupam na arte contemporânea?”, questiona.

Daniel Lima e Tulio Tavares organizaram a exposição Zona de Poesia Árida, no Museu de Arte do Rio (MAR), em 2015, com o projeto de formar uma coleção de obras de coletivos. “Formou-se uma coleção sobre coletivos de São Paulo única no mundo, cujo maior valor está no seu poder de gerar sentido. Colocamos a coleção inteira, com mais de 50 obras, em um museu sem intermediação de galerias”, conta o artista, que atualmente trabalha com imigrantes haitianos em ações subsidiadas pelo Instituto Goethe.

Um dos artistas mais conhecidos da afrodiáspora é Jaime Lauriano. Com a aquisição da obra Nesta Terra Em Se Plantando Tudo Dá (2015), pela Pinacoteca do Estado, ele ingressa na história da arte oficial e espera que sua obra esteja necessariamente alocada em espaços de domínio público.

Lauriano trabalha com desenhos, objetos, vídeos e é curador. Representa os primeiros mapas do Brasil – o primeiro da série é Terra Brasilis (2015) – com pemba branca, giz utilizado na Umbanda. Atua no campo da educação, pensando a história do Brasil por meio do confronto de narrativas, em espaços culturais e escolas da periferia. Processos de gentrificação, etnocídio, democracia racial e história não oficial estão em seu repertório.

Nesta Terra, Em Se Plantando, Tudo Dá (2015), obra de de Jaime Lauriano assimilada pela coleção da Pinacoteca do Estado de São Paulo (Foto: Mario Grisolli)

Nesta Terra, Em Se Plantando, Tudo Dá (2015), obra de de Jaime Lauriano assimilada pela coleção da Pinacoteca do Estado de São Paulo (Foto: Mario Grisolli)

Em 2015, participa da Bienal de Bamako, no Mali, e, incomodado com o fluxo reparatório intenso da agenda do continente europeu que promove o turismo cultural para o continente africano, denuncia as novas formas de escravidão do movimento diaspórico.

“As migrações atuais são novamente originárias de atos forçados – não o sequestro, mas a fuga –, em consequência da exploração europeia. Como evitar a repetição de procedimentos de séculos atrás, que promovem a manutenção de um ultracapitalismo?”, questiona. Além do vídeo Genocídio 3 (2015), apresentado em Bamako, o artista criou uma performance de rua, assinalando seu percurso entre a Bienal e um bar da cidade. “Busquei a ligação museu-espaço público. Durante quatro dias, eu fazia e repetia um desenho com cal e um espanador improvisado que virou pincel, refazendo a rota”, conta.

Lauriano integra a Residência Artística Cambridge dentro da Ocupação Cambridge, neste segundo semestre, e lá tomará contato com a produção de artistas. Aposta na troca potente entre visões diferentes e convergentes, o que lhe permitirá pensar melhor a sua própria obra e indaga: “Como lidaremos com a nova diáspora que acontece aqui?”

A visão estética eurocêntrica começa a dar sinais de hibridização entre nós e a pertinência dessas questões ecoa em obras de muitos outros artistas e curadores. Em tempo, essas pesquisas, os trabalhos artísticos e a dedicação dos que  se têm debruçado sobre a revisão histórica contribuem para a gradativa inserção dos trabalhos de matriz afro no sistema das artes.

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