Casa aberta ao diálogo

Angélica de Moraes

Publicado em: 22/03/2013

Categoria: Reportagem, visuais

Interior do prédio que abriga Casa Daros; construção tem 11 mil metros quadrados (Foto: Jaqueline Felix)

A coleção suíça Daros Latinamerica inaugura sede no Rio de Janeiro neste sábado (23) com coletiva de artistas colombianos

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Legenda: A coleção suíça Daros Latinamerica inaugura sede no Rio de Janeiro com coletiva que assinala o início de um intercâmbio cultural focado na voz do artista e na educação cidadã do público (Foto: Jaqueline Felix)

Lembra da última tentativa de uma grande instituição internacional de arte contemporânea fincar raízes no Brasil? Lembra da polêmica sobre a sede brasileira do Museu Guggenheim? Pois esqueça. O modelo argentário de franquia de marca e aluguel de peças blockbusters de acervo é fantasma do passado. Começa a funcionar no Brasil algo que é seu absoluto oposto e que estabelece um novo patamar de critérios para a área. Entra em cena um projeto de intercâmbio cultural baseado no diálogo com os artistas e na educação do público para o entendimento e fruição da arte latino-americana. A Casa Daros abre suas portas em março, no Rio de Janeiro, em prédio centenário tombado pelo patrimônio histórico e cuidadosamente restaurado durante sete anos.

“Trata-se de um projeto privado que se realiza na dimensão pública”, frisa a diretora da instituição, Isabella Rosado Nunes, em entrevista a seLecT. A Coleção Daros Latinamerica, localizada em Zurique (Suíça), é uma das mais extensas e importantes coleções de arte contemporânea da América Latina, em constante crescimento e circulação, seja em mostras específicas, seja para empréstimo de peças para outras instituições. Reúne mais de 1.100 obras de 116 artistas, produzidas em vários meios e técnicas, da década de 1960 até a atualidade, e onde não faltam exemplares significativos da arte do Brasil. “Essa coleção já nasceu para ser mostrada fora da Suíça, é um acervo que funciona para divulgar a arte latino-americana e também como ferramenta de educação e cidadania”, diz Isabella Rosado. Ela destaca que “o princípio conceitual da Casa Daros não é quantitativo nem visa lucro. Nosso foco não é o público consumidor. Nosso objetivo é a responsabilidade social e a formação de massa crítica. Não nos passa pela cabeça bater recordes de visitação, e sim estabelecer um diálogo o mais afinado possível com todos os públicos, em especial com a comunidade artística e com as escolas e instituições culturais da cidade do Rio de Janeiro e seu entorno básico, mas também articulando intercâmbio cultural entre o Brasil e os demais países do continente e do mundo”.

Onze salas de exposição

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Legenda: O alemão Hans-Michael Herzog é diretor-artístico e curador-geral da Coleção Daros Latinamerica. 

O alemão Hans-Michael Herzog, diretor-artístico e curador-geral da Coleção Daros Latinamerica, organizou a coletiva inaugural da instituição suíça no Rio. A mostra, denominada Cantos Cuentos Colombianos, é uma panorâmica da vertente mais vigorosa da arte contemporânea da Colômbia. Um conjunto de 11 amplas salas de exposição da Casa Daros reúne trabalhos de forte conotação política dos artistas Doris Salcedo, Fernando Arias, José Alejandro Restrepo, Juan Manuel Echavarría, Maria Fernanda Cardoso, Miguel Ángel Rojas, Nadín Ospina, Oscar Muñoz, Oswaldo Macià e Rosemberg Sandov.

É uma coletiva que no seu subtexto trata dos pontos de contato entre a realidade social da Colômbia e do Brasil. Em entrevista por telefone a seLecT, de Zurique, Herzog admite que pensou nas similaridades socioculturais entre os dois países ao escolher a mostra para a inauguração. “Certamente, não há no Brasil a violenta guerra civil promovida na Colômbia pelo narcotráfico, mas também há muita violência, há graves problemas de desigualdade social. Mesmo assim, os artistas conseguem produzir trabalhos de primeira qualidade. As artes colombiana e brasileira têm um frescor e uma virulência que têm a ver com a situação social e política onde são feitas.”

Responsável pela conceituação das características formadoras da coleção e da escolha das peças que a constituem – um processo iniciado em 2000 que envolveu muitas viagens à América Latina e o contato direto com cada um dos artistas da coleção –, Herzog destaca que “a Casa Daros será o primeiro centro latino-americano para os latino-americanos e para o resto do mundo, uma plataforma de intercâmbio e serviços para colocar as pessoas em contato, para os artistas encontrarem seus colegas e o público encontrar os artistas”. Herzog admite que sua ambição é “colocar a arte latino-americana no mapa”. Sim, ele já visitou várias edições da Bienal do Mercosul e da Bienal de São Paulo. Visita com regularidade todas as grandes mostras internacionais. Continua, porém, achando que falta colocar a arte latino-americana no mapa. “Ela ainda não está lá”, frisa. Pelo menos com o protagonismo que esse obstinado alemão deseja. “Na Europa, ninguém realmente conhece muito sobre a produção artística contemporânea da América Latina. Da Colômbia, por exemplo, quando sabem alguma coisa, são os clichês de sempre: Fernando Botero, a cantora Shakira ou o piloto de corridas de Fórmula 1 Juan Pablo Montoya.”

Foi para começar a ampliar o repertório do público europeu que Herzog organizou a exposição Cantos Cuentos Colombianos, em duas mostras sucessivas, exibidas em Zurique, de outubro de 2004 a janeiro de 2005 e de janeiro a abril de 2005. “Foi a maior mostra de arte colombiana contemporânea realizada na Europa”, sustenta Herzog. É o mesmo recorte de obras, com montagem diversa, que agora chega ao Rio de Janeiro. “Ela continua atualíssima”, diz o curador.

Força simbólica

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Legenda: A videoinstalação Musa Paradisíaca (1996), de José Alejandro Restrepo, é parte da exposição Cantos Cuentos Colombianos

“Mesmo na Colômbia esses excelentes artistas eram pouco conhecidos”, afirma Herzog. Ele observa que suas escolhas foram premonitórias de uma percepção mais nítida dessa produção. “Depois das exposições na Suíça, o público colombiano parece ter finalmente descoberto sua arte.”Livros recentes trataram de incorporá-los à história e ao circuito principal de mostras internacionais. O catálogo-livro da mostra, com 410 páginas e longas entrevistas com os artistas no formato pergunta e resposta, significou outra eficaz divulgação e contextualização.

A coletiva Cantos Cuentos Colombianos traz um conjunto equilibrado de peças de grande força simbólica. Juan Manuel Echavarría comparece com trabalhos importantes de sua trajetória, inclusive a que lhe garantiu visibilidade internacional a partir da Bienal de Veneza de 2005, Bocas de Ceniza (Bocas de Cinza). A impactante videoprojeção registra em close a fisionomia de vários sobreviventes de um massacre que aconteceu no estuário (a boca) do Rio Magdalena. Eles cantam para contar a tragédia, dando pungentes graças a Deus por terem escapado. “Com uma dignidade humana muito além do ódio e do olho por olho”, observa Echavarría em depoimento para o catálogo. “A violência desumaniza o ser humano. Faço do respeito pelo outro a parte essencial da minha obra”, frisa.

Doris Salcedo é outro destaque inevitável. Algumas das peças exibidas, especialmente as emblemáticas cadeiras e armários sepultados em blocos de concreto, integram a série apresentada ao público brasileiro pelo galerista Marcantonio Vilaça em 1996, na primeira mostra individual da artista no País. Salcedo tem sua poética identificada com a violência, os desaparecidos políticos e as vítimas de tortura e agressões dos regimes totalitários. Esteve até 3 de fevereiro com uma instalação em cartaz na Pinacoteca do Estado de São Paulo (leia Sob o Peso do Inerte).

Uma casa para todos

O humor corrosivo de Nadín Ospina traz uma mudança de registro bem-vindo ao conjunto. Seus trabalhos são simulacros de peças arqueológicas em que a cultura pré-colombiana se mistura a personagens da cultura pop, como Bart Simpson e Mickey Mouse, em mordazes comentários ao colonialismo cultural irradiado pelo império norte-americano. Também acionando o humor, mas em diapasão soturno, Fernando Arias apresenta, entre outras peças, Ataúd de Lego (Caixão de Lego), homenagem às crianças vitimadas pela violência do narcotráfico e seu combate.

A programação inaugural inclui uma mostra paralela, de foco educativo, com curadoria de Eugenio Valdés Figueroa, diretor de arte e educação da Casa Daros. Com o título Para Saber Escutar, ocupa cinco salas situadas no início do percurso expositivo e está focada nos ensinamentos do pedagogo brasileiro Paulo Freire. Completa o conjunto um auditório para cem pessoas, um restaurante, uma cafeteria e uma biblioteca especializada em livros e revistas de arte latino-americana.

Espetáculo à parte, o restauro completo da fachada e de dois terços da extensa propriedade, que tem mais de 11 mil metros quadrados de área construída, datada de 1866, dá testemunho dos planos de longo alcance da instituição, que, aliás, como assinala Hans-Michael Herzog, evitou as denominações convencionais como museu ou instituto cultural. “Nós, deliberadamente, escolhemos Casa, para deixar claro que é um lugar para todos.”

Saiba mais:

Cantos Cuentos Colombianos

De 23 de março a 27 de agosto

Casa Daros, Rio de Janeiro

*Angélica de Moraes é crítica de arte, jornalista e curadora. Foi editora de artes visuais da seLecT e repórter do Estadão. Escreveu livros sobre Marcantonio Vilaça e Alex Flemming, publicados pela editora Cosac & Naif.

*Publicado originalmente na edição impressa #10.

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