A chave do Carnaval

Baile do Sarongue abre temporada carioca, com instalações e cenário feito com uma tonelada de poda de árvores doada pela Comlurb

Paula Alzugaray
Chave do Baile do Sarongue (Foto: Paula Alzugaray)

Baile do Sarongue abriu os trabalhos do Carnaval 2018 na Cidade Maravilhosa com uma mensagem ecológica para os cerca de 2500 foliões que lotaram o tradicional Clube Monte Líbano na quinta-feira 8/2. O cheiro de vegetação fresca chamava a atenção para as paredes do salão de baile, cobertas por podas de árvores realizadas nos últimos dias pela Prefeitura do Rio. Com a reciclagem de uma tonelada de poda doada pela Comlurb (Companhia Municipal de Limoeza Urbana) o baile passou o recado do tema do ano: “Xamã”.

“É o momento de ligar o espírito à natureza”, diz Marcus Wagner, o fundador do Baile do Sarongue, festa itinerante que acontece toda quinta-feira pré-carnaval, desde 2008. Segundo ele, os temas dos últimos três anos refletiram o momento do País. “O carnaval revela e potencializa essa experiência, sublima as tensões cotidianas em sonhos e fantasias”, diz ele à seLecT. “Abissal” foi o tema de 2016, ano do impeachment; depois veio o “Turbilhão”, e toda a convulsão social. 2018 é o ano do Xamã. Cinco artistas foram convidados a criar as alegorias xamânicas desse momento de virada: Janaina Tschäpe, Maria Nepomuceno, Siri, João Modé e Márcio Arqueiro.

Índio Quer Apito, de Lula Buarque de Holanda

Na entrada, o videoartista e cineasta Lula Buarque de Hollanda montou um estúdio de retratos em movimento dos foliões. Na varanda do salão, Janaina Tschäpe realizou uma intervenção da série Melatropicos, uma imensa tripa vermelha, deitável e vestível, que naturalmente se transformou em lounge performático. Siri reproduziu a caverna-ninho-de-passarinho, feita de galhos trançados, que havia realizado no Centro Hélio Oiticica em 2017. Um convite às conversas mais íntimas. Em forma de vulcão luminoso, a instalação de Maria Nepomuceno ocupou o centro do salão, servindo de plataforma de decolagem do ritual de canto de Valeria Lima, a Rainha Momo do vento. Detalhe importante: com sua Rainha Momo, o Sarongue é um território de respeitável matriarcado.

  • Salão e instalação de Maria Nepomuceno
  • Registro do Baile do Sarongue
  • Registro do Baile do Sarongue (Fotos: Márion Strecker)
  • Salão e instalação de Márcio Arqueiro

O som do décimo aniversário ficou a cargo da banda do Cordão da Bola Preta, um dos blocos mais tradicionais da cidade que saiu este sábado, 10/2, às 7 da manhã no centro. Mais que um baile, o Sarongue é um grande happening coletivo, que tem início um mês antes da data oficial do Carnaval. É um jogo, que coloca o folião na condição de Rei Momo, pois seu acesso à festa é uma chave, obtida após verdadeira caça ao tesouro. A venda ocorre em locais inesperados, promovendo pontos de encontro, que já funcionam como esquenta.

O intuito de Marcus Wagner com tudo isso é religar a tradição do baile carnavalesco de salão com a experimentação artística contemporânea. Ao modo de eventos históricos como o baile que Lasar Segall promoveu em 1924, em São Paulo, ou os bailes do Theatro Municipal do Rio, explorados em um livro que o autor de Rio Cultura da Noite (Casa da Palavra, 2014) está escrevendo. “O baile é a realização total da arte”, anuncia.

  • Marcus Wagner, diretor do Sarongue
  • Rainha Momo
  • Elsa Ravazzolo e Marcio Botner

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