Choque térmico

Impulsionado pela SP-Arte, lento reaquecimento do mercado contrasta com temperatura de reações ao contingenciamento na Cultura

Leandro Muniz

Publicado em: 10/04/2019

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Os resultados da 15a SP-Arte podem apontar para um reaquecimento do mercado de arte. Para Fernanda Feitosa, diretora do evento, “o público foi maior que o do ano passado e as vendas, a princípio, superaram as expectativas de várias galerias. Ainda estamos fazendo uma apuração dos dados finais, mas algumas venderam tudo. Esse ano, o número de doações para museus, como o MASP, a Pinacoteca ou o MAM, dobrou, o que nos deixa supercontentes”. A feira apresentou novos nomes de diversas regiões do país, etnias e gerações como Santídio Pereira, Josafá Neves, No Martins, Ana Júlia Vilela, Paul Setúbal, entre outros. Obras de artistas jovens foram doadas para a coleção do Museu de Arte do Rio, a partir da indicação do crítico e curador Paulo Herkenhoff, que apontou as obras de Élle de Bernardini, Bruno Novaes, Guilherme Callegari, Francisco Hurtz, Alice Lara, entre outras, para integrar o acervo da instituição.

O governador de São Paulo, João Doria, que postou selfies com Feitosa e a esposa Bia Doria nos corredores da SP-Arte, destacou que o evento “representa a força de São Paulo na economia criativa e contribui para a geração de empregos, riqueza e valorização cultural”. Mas na contramão de todo esse entusiasmo, a classe cultural reagia ao recente anuncio contingenciamento de cerca de 23% do orçamento estadual para a Cultura.

Foto publicada no instagram de João Dória, em que o governador de São Paulo tira selfie com sua esposa Bia Dória e Fernanda Feitosa, diretora da SP-Arte (Foto: Reprodução)

 

Entre os riscos de um congelamento orçamentário estariam a redução nos horários de funcionamento, a demissão de funcionários, o cancelamento de exposições e a diminuição no número de escolas atendidas em instituições como a Pinacoteca do Estado de São Paulo, o Memorial da Resistência, a Casa das Rosas, o Museu Catavento, entre outras. O Museu Afro-Brasil se manifestou em nota pública sobre os riscos em sua programação. Para diversas Fábricas de Cultura, Oficinas Culturais e o Theatro São Pedro, há o risco de fechamento. Já a reinauguração do Museu da Língua Portuguesa – incendiado em 2015 – correria o risco de não acontecer no prazo previsto, em dezembro de 2019.

Enquanto isso, na feira, os ânimos reagiam às más notícias. “Não foi um ano excepcional, mas dadas as circunstâncias do país, foi bom”, diz à seLecT a galerista Jaqueline Martins, de São Paulo. Ela conta que houve uma venda institucional das obras de Letícia Parente e Regina Vater através de uma doação privada para o MAM São Paulo, pelo programa de aquisição de fundos. A galeria também apresentou uma performance de Maria Noujaim no setor com curadoria de Marcos Gallon. “O trabalho foi tratado de modo bem cuidadoso e instigante. As pessoas ficaram interessadas em como adquirir performances. Na galeria buscamos desenvolver o colecionismo de obras até pouco tempo consideradas difíceis, como o vídeo. O incentivo a se colecionar performance é o próximo passo do amadurecimento do colecionismo no país. Nesse sentido, o setor de performance dentro da feira promove uma educação do mercado”, diz Martins.

O vídeo Eu Armário De Mim (1975), de Letícia Parente, foi doado ao MAM SP durante a SP-Arte 2019 (Foto: Cortesia Galeria Jaqueline Martins)

 

Segundo a galerista Luciana Caravello, do Rio, “o resultado foi bom, mas a feira foi mais lenta. As pessoas negociavam muito, por mais tempo e uma agenda de obras mais barata. O mercado está precisando se renovar, em especial pessoas que estão começando a comprar agora”.

Embora a feira seja central para o funcionamento do mercado de arte brasileiro e suas conexões internacionais, trata-se de um evento pontual, que movimenta os diversos agentes do meio cultural e produz uma série de empregos temporários. Por outro lado, as organizações e instituições que estão sendo desestabilizadas por cortes ou contingenciamentos determinados pelo Governo do Estado, criam empregos e programas de formação a longo prazo, promovendo relações enraizadas em seus contextos.

Após a polêmica em torno das medidas de contenção orçamentária, ontem (8/4) o governador João Doria declarou nas redes sociais que não irá realizar nenhum corte na área da Cultura e que nenhuma programação será cancelada. Mas irá remanejar o orçamento para adequá-lo aos fundos do governo, discutindo com as entidades culturais quais serão as estratégias de menor impacto. O governador ainda não anunciou quais programas serão afetados ou quais serão os resultados dessas medidas. No entanto, algo fica claro: a Cultura não é uma prioridade de seu governo. Para completar o quadro, a acréscimo do termo “economia criativa” no nome da Secretaria da Cultura vem atestar uma redução da função da cultura ao seu aspecto econômico.

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