Cicatriz aberta

A série Transamazônica: Uma Estrada para o Passado atravessa a história da BR-230 e investiga seu rastro de devastação da floresta

Leandro Muniz

Publicado em: 18/05/2021

Categoria: A Revista, Crítica, Destaque

Still da série Transamazônica: Uma estrada para o futuro (Foto: Cortesia HBO)

Margeada por casas de interior, plantações de cana-de-açúcar, cacau e eucalipto, pela Caatinga ou pela Floresta Amazônica, a estrada é a personagem principal da nova série dos diretores Jorge Bodanzky e Fabiano Maciel. Começando na cidade de Cabedelo, na Paraíba, os episódios atravessam as motivações e os impactos socioambientais da construção da BR-230 até chegar em Lábrea, no coração do Amazonas.

A operação central de composição da série é a contraposição entre imagens produzidas desde a estruturação da estrada, em 1969, durante a ditadura militar no Brasil, e outras recentes, mostrando reincidências e agravamentos de problemas ao longo do tempo.

Na base da construção da Transamazônica estão os ideais de progresso e integração territorial, fazendo da estrada um marco do projeto nacional-desenvolvimentista. Sua implantação, no entanto, gerou uma série de violências pela terra, desastres ambientais, massacres de populações indígenas − cerca de 8 mil indígenas foram assassinados durante a construção − e um modelo econômico falho.

O extrativismo permite altos ganhos a curto prazo, mas o solo pobre da Amazônia em pouco tempo se esgota, gerando apenas devastação: a madeireira é substituída pela pecuária, depois pela monocultura, tornando o solo infértil. Apenas recentemente tem se pensado em práticas de economia não predatória na região, mas a tônica ainda é seguir desmatando, em um modelo que arrasa os recursos, gerando bolsões de pobreza.

Still da série Transamazônica: Uma estrada para o futuro (Foto: Cortesia HBO)

A questão do trabalho, inclusive, é um dos grandes assuntos da série. Movimentando massas de trabalhadores do Nordeste e do Sul do país no início da construção da estrada, o governo incentivava o “projeto de colonização”, com concessões de terras. Logo após a ditadura militar, no entanto, esses pequenos agricultores ficaram à míngua. Outro problema que persiste é a condição de trabalho semiescravo a que muitos são submetidos.

Os discursos da imprensa da época reforçam positivamente as ideias de colonização, de conquista do território e de extração incentivadas pelo governo. Consequentemente, essas opiniões acabavam enraizadas no imaginário da população e na manipulação da opinião pública. A disseminação de slogans como “Integrar para não entregar!”, de imagens exacerbadas de nacionalismo e as promessas de um futuro promissor eram atrativos para os trabalhadores que então se deslocavam para a construção da estrada e ocupação da floresta.

Em Transamazônica: Uma Estrada para o Passado, os diretores também recorrem a trechos do filme Iracema: Uma Transa Amazônica, que Bodanzky filmou nos anos 1970. Além de propor uma autorreflexão sobre a produção do próprio cineasta, percebemos as continuidades e mudanças entre o passado e o presente, como a presença crescente das monoculturas ou as sínteses culturais que surgiram nas cidades às margens da estrada. Ao usarem imagens reiteradas ao longo da história, contrapondo-as com o presente, os diretores criam contrastes entre os discursos audiovisuais oficiais e aqueles que podem produzir contranarrativas. As repetidas imagens de bandeiras, coreografias e gestos simbólicos de um nacionalismo tacanho mostram que a ideologia do novo, do extrativismo e do progresso começam, antes de tudo, por um certo imaginário.

Serviço

Série
Canal a cabo
Transamazônica: Uma Estrada para o Passado
2021
hbogo.com.br

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