Cidadã do mundo

Pioneira de projetos de arte como prática social, Tania Bruguera lançou, em 2011, o Immigrant Movement International, que busca o reconhecimento de imigrantes como cidadãos globais

Paula Alzugaray

N° Edição: 31

Publicado em: 26/08/2016

Categoria: A Revista, Destaque, Perfil

Tania Bruguera em performance, durante ato do Immigrant Movement International, em 2011, em Nova York (Foto: Sam Horne/Cortesia Creative Time)

O pesquisador de arte, mídia e política Miguel Chaia localiza na contracultura, nos movimentos sociais dos anos 1960 e nas comunicações entre massas propiciadas pelas novas tecnologias as origens da prática do Artivismo – “atividades artísticas que se querem políticas ou práticas políticas que procuram suporte na estética”. Próprio de um tempo artístico que se define por métodos processuais e colaborativos, o artivismo extravasa prerrogativas individuais e se pauta pela coletividade. Artivismo não tem autoria – é precisamente a sua negação – nem tem limites definidos. Uma breve pesquisa sobre o conceito lhe confere tamanha amplitude – tanto à sua origem quanto às aplicações – que fica claro que se trata de uma criação geracional.

Não é totalmente arbitrário, no entanto, que a revista Art in America de setembro de 2015 tenha atribuído a alcunha desse neologismo a Tania Bruguera – ainda que o faça de forma imprecisa. Bruguera, que começa sua atuação artística em Havana, nos anos 1980, realizando apresentações em espaços públicos abandonados, entendeu cedo que a arte da performance começava pelas implicações políticas e sociais de seu trabalho. Assim, ela não criou o artivismo, mas a arte de conducta.

“Arte de conducta tem suas raízes na arte conceitual e na performance, mas, em vez de se concentrar sobre os limites da linguagem e do corpo físico, ela trabalha com as reações geradas naqueles que testemunham a obra, dando origem a um processo onde a audiência se transforma em cidadania”, define a artista. A arte de conducta, assim como a sua mais recente arte útil (que visa “imaginar, criar, desenvolver e implementar uma prática artística que oferece às pessoas resultados claramente benéficos”), é um método de trabalho. Por meio dele, Bruguera instaura projetos de longo prazo que não se destinam às instituições de arte e suas audiências. Nem por isso Tania Bruguera renuncia à arte. Ao contrário, quando instaura um método pedagógico (Cátedra Arte de Conducta, 2002-2009) ou um partido político (Partido del Pueblo Migrante, 2006-2015), ela o faz com consciência do poder transformador da arte e a crença em sua capacidade de oferecer soluções para problemas sociopolíticos.

 

O headquarter do Immigrant Movement International, em Corona, Queens, NY (Foto: Cortesia Queens Museum)

O headquarter do Immigrant Movement International, em Corona, Queens, NY (Foto: Cortesia Queens Museum)

 

Immigrant Movement International (IMI) (2010, em processo hoje) é uma aplicação direta desses métodos. É um movimento sociopolítico e é um trabalho de arte. Só que, em vez de ser feito com óleo, acrílica, arame ou técnica mista, sua ficha técnica discerne como matéria de trabalho: leis e políticas de imigração, população imigrante, políticos, organizações comunitárias, pressão pública e mídia.

O modo de trabalho também é uma reinvenção. “Esse tipo de projeto de longo prazo tem suas próprias exigências internas para que mantenha um equilíbrio orgânico. Uma coisa evidente é que tenho de me impor certas regras, certas restrições, porque um ano parece muito tempo para uma residência, mas não é tempo suficiente para fazer um projeto social e político; e tenho de diminuir essa disparidade a partir da maneira que estruturo a obra”, escreveu a artista em seu blog, em 2011, antes do início do projeto.

Identidade migrante
O projeto foi lançado com uma mobilização que envolveu 200 artistas de todo o mundo e com a escritura de um Manifesto Migrante. Promoveu ações como To the Unknown Migrant (2012), que convidou migrantes, artistas, acadêmicos e ativistas a desenvolver monumentos efêmeros em locais onde o papel dos migrantes na história e na sociedade foi ignorado, apagado, distorcido, agredido ou esquecido.

Desenvolvido em parceria com o Queens Museum of Art e o Creative Time, o IMI parte do pressuposto de que a identidade daqueles que vivem longe de seu lugar de origem é definida não pelo compartilhamento de língua, classe, cultura ou raça, mas, inversamente, pela própria condição de imigrante. Ao engajar comunidades locais em workshops públicos, eventos e ações no headquarter do movimento – uma pequena casa no bairro de Corona, em Queens, NY –, o IMI explora os valores compartilhados por aqueles que são definidos como imigrantes.

Residentes de Queens participam do workshop We Bike NYC Mujeres en Movimiento (Foto: Cortesia Queens Museum)

Residentes de Queens participam do workshop We Bike NYC Mujeres en Movimiento (Foto: Cortesia Queens Museum)

 

A questão de fundo aqui – o que significa ser um cidadão do mundo – é relativa ao mundo contemporâneo, mas sempre foi central e pessoal para Tania Bruguera. “Minha mãe sempre disse que a casa, para mim, era como um hotel.” Afora o fato de ter crescido em trânsito entre embaixadas cubanas na França, no Líbano e no Panamá (seu pai era diplomata), hoje Bruguera vive permanentemente em trânsito, muitas vezes em residências artísticas. Sempre criou em seu trabalho pontes entre Cuba e o mundo – o que já chegou a lhe acarretar duas detenções pela polícia de Fidel (além de ter sido investigada pela polícia secreta, caso explorado na entrevista que a artista deu ao documentário Shoot Yourself, 2012).

Sua última detenção foi em maio de 2015, imediatamente após terminar a maratona de 100 horas de leitura pública do livro Origens do Totalitarismo (1951), de Hannah Arendt, em ação pública realizada em sua casa, em Havana.

O evento coincidia com a abertura da Bienal de Havana e o lançamento de seu novo  projeto, o Instituto Internacional de Artivismo Hannah Arendt. Meses antes, em dezembro de 2014, ela havia sido detida – e seu passaporte confiscado – após tentativa de reencenar, na Plaza de la Revolución, a performance Tatlin’s Whisper #6, Havana Version. Realizada orginalmente em 2009, na Bienal de Havana daquele ano, a performance oferecia um microfone para quem quisesse se manifestar livremente durante um minuto.

“Espero que um dia a liberdade de expressão não seja uma performance”, foi a frase proferida pela blogueira Claudia Cadelo, em um dos momentos mais contundentes daquele ato e que, sem sinal de dúvida, ainda ecoa em todo o processo de atuação política de Tania Bruguera.

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