Cidades-canais

Gabriel Kogan

Publicado em: 22/05/2012

Categoria: Colunas Móveis, Reportagem

As águas podem condenar uma cidade ao insucesso ou ao triunfo e as características hídricas de cada lugar são fundamentais para a relação entre o homem e a paisagem

Marginal

Legenda: Foto: Fernando Donasci/FolhaPress

O trabalho humano transforma a natureza, tornando o espaço habitável. As chamadas cidades-canais, que se desenvolveram a partir da transformação das águas em rios artificiais para transporte, lazer, abastecimento e drenagem, adquiriram diversas formas ao longo da história. Veneza, Amsterdã e São Paulo, que nunca se assumiu como tal, são exemplos radicais da relação próxima entre as águas e os estabelecimentos humanos.

Veneza

As origens incertas de Veneza remontam aos povos que fugiam da expansão dos hunos no século 4o. As ilhas ofereciam um lugar ao mesmo tempo protegido e desafiador para ocupação. O desenvolvimento da cidade forçou uma densa construção de edifícios em 117 ilhas e 177 canais.

O tecido urbano é um emaranhado labiríntico de estreitas vias, pontes e canais de água salgada que funcionam como verdadeiras ruas. Se por um lado, as águas tornam a cidade única, por outro, constituíram um grande problema. Sem água doce, os primeiros moradores utilizavam o lençol freático para conseguir água potável. A solução deu lugar a um sistema sofisticado de cisternas que captavam a água da chuva nos pátios e praças e que, depois de filtrada pelo solo, poderia ser obtida nos poços. Veneza é ainda hoje insalubre, mesmo depois de grandes obras de saneamento.

A qualidade da água nos canais é péssima e as mudanças climáticas ameaçam a cidade com inundações cada vez mais frequentes. Uma cidade que, assim como todas as outras, luta contra ás águas, mas tira delas o sentido de sua existência.

Amsterdã

Chamada de Veneza do Norte, Amsterdã estabeleceu-se em uma área inóspita. O terreno precisava ser drenado e as inundações dos rios forçaram a construção de uma barragem, que deu nome à cidade. Ela é um desenho concêntrico de canais que formam verdadeiras avenidas fluviais e o tecido urbano volta-se para as águas. Os canais eram tanto usados para abastecimento como para drenagem e transporte. Como em grande parte da Holanda, alguns pontos da cidade estão abaixo do nível do mar, necessitando de um sofisticado sistema de diques, canais e bombas para garantir o lugar habitável. A cidade-canal holandesa conferiu uma forma urbana para a construção do território da região, fazendo das águas o principal elemento paisagístico e econômico da cidade.

São Paulo

Chamada pelos índios de Piratininga, ‘peixe seco’, por causa das constantes inundações que levavam os peixes a morrer na várzea, São Paulo é uma metrópole fluvial. Centenas de rios convergem num sistema natural complexo. O crescimento acelerado voltou a cidade de costas para as águas e o resultado pode ser drasticamente sentido a cada chuva de verão. As margens dos rios nunca receberam nenhuma atenção urbanística. Ao contrário, foram sempre confinados entre avenidas e em canais tratados como esgotos, quando não canalizados sob as ruas.

Não foi por falta de projetos que São Paulo nunca assumiu sua vocação como cidade-canal. Na década de 1920, o engenheiro sanitarista Saturnino de Brito propôs um projeto para o Rio Tietê, que previa uma grande área livre para as águas e margens. O projeto dos rios urbanos foi politicamente negligenciado. Muitas das principais questões de São Paulo, no presente e no futuro, passam pelas questões hídricas. Quem sabe um dia São Paulo passe a ser conhecida como a Veneza do Sul.

Gabriel Kogan é arquiteto e urbanista. Mestrando no Unesco-IHE (Holanda), pesquisa sobre gerenciamento hídrico em São Paulo.

*Publicado originalmente na edição impressa #5

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