Coco Fusco e a alegoria de Kafka

Mirtes Marins de Oliveira

Publicado em: 09/05/2014

Categoria: artes visuais, Crítica

Crítica à violência sistemática cometida por europeus e norte-americanos contra africanos e asiáticos a partir do século 18 é o mote da poética da artista cubano-americana

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Legenda: Na performance Two Undiscovered Amerindians Visit the West (1992), Coco Fusco e Guillermo Gomez-Peña habitam jaula durante três dias

“Um Relatório para uma Academia” é um texto curto de Franz Kafka, escrito entre 1916 e 1917, no qual o narrador discursa para uma plateia de doutores sua passagem da condição de macaco aprisionado para a de humano fora da jaula. Capturado nas costas africanas, encarcerado e exibido, o palestrante relata como foi se aproximando da cultura civilizada: do aperto de mão mais básico até a compreensão da diferença entre liberdade e “encontrar uma saída”.

O projeto de fuga da jaula foi aos poucos substituído pelo aprendizado com os humanos: cuspir, fumar, beber, sessões de tortura para domesticar a natureza animal e, por fim, o domínio da linguagem. “Aprende-se quando se quer uma saída.” Assim, com o tempo, o macaco palestrante inverteu a situação: seu primeiro professor tornou-se ele mesmo um símio, e ele, macaco, alcançou a formação média de um europeu.

A alegoria de Kafka permite a leitura, entre outras, como crítica à violência sistemática cometida por europeus e norte-americanos contra africanos e asiáticos a partir do século 18, quando os capturados nessas comunidades eram exibidos em diferentes metrópoles europeias sob pretexto científico ou de entretenimento, procedimento expositivo inaugurado por Cristóvão Colombo, em 1493, ao trazer um grupo de arawaks caribenhos e exibi-los na corte espanhola. Estão presentes no discurso para os acadêmicos de Kafka as apropriações e conflitos identitários que continuam a pautar a sobrevivência de exilados, imigrantes ou refugiados: aprender (com) seu algoz para sobreviver.

Um Relatório para uma Academia serviu como mote para Coco Fusco desenvolver, juntamente com o artista Guillermo Gomez-Peña, a performance Two Undiscovered Amerindians Visit the West (1992), ação que faz parte de um projeto maior, The Year of the White Bear, composta de apresentações, textos e vídeos, entre outras produções. Two Undiscovered Amerindians Visit… era uma proposta de vivência dos artistas em uma jaula, durante três dias, como ameríndios recém-descobertos na inexistente ilha de Guatinu. Colocados no exato lugar do narrador de Kafka, era possível verificar fortes analogias temporais: “(…) estávamos intrigados com a missão de performatizar a identidade de um Outro para uma audiência branca, sentindo suas implicações para nós como artistas da performance que lidam com identidade cultural no presente. Perguntávamo-nos se as coisas haviam mudado”.

Histórias autênticas ameríndias

Convidados para apresentar um trabalho na Edge’92 Biennial, que ocorreria entre Londres e Madri, a jaula estreou em praça pública. Em Madri, foi apresentada na Columbus Plaza e recebeu mais uma camada interpretativa, servindo como demonstração anticolonialista e anticelebração do suposto “descobrimento” da América. Nos três dias de performance, dedicavam-se às tarefas da tradição de Guatinu, como confeccionar bonecas para vodu, levantar pesos, assistir à televisão ou trabalhar no computador. O visitante que contribuísse com alguma doação poderia assistir a Fusco dançando rap ou Peña, contando, em linguagem ininteligível, histórias autênticas ameríndias, ou mesmo tirar fotos com os enjaulados.

Dois seguranças também participavam da performance e serviam para intermediar a conversa com os visitantes, levar os artistas ao banheiro devidamente encoleirados e alimentá-los com sanduíches e frutas. Segundo Fusco, no Whitney Museum, em Nova York, adicionaram sexo ao espetáculo, oferecendo ao visitante uma espiada em um autêntico órgão genital masculino de Guatinu, pela quantia de 5 dólares. Um painel também oferecia uma cronologia das exibições de não ocidentais e um falso mapa do Golfo do México, mimetizando os procedimentos didáticos das Exposições Universais, vigentes a partir do século 19.

Além da recepção contraditória por parte do público, que nem sempre atentava para a ironia da proposta, Fusco aponta para o contexto perverso no qual a performance se desenvolveu, o da administração de George H. W. Bush, que buscava alinhavar em documentos oficiais uma relação de similaridade simbólica entre o Descobrimento do Novo Mundo e a existência de uma Nova Ordem Mundial, a partir do final da Guerra Fria. Na contramão do multiculturalismo isento que dominava a cena acadêmica norte-americana naquele instante, as apresentações de Fusco e Peña evidenciavam a constatação de Ella Shohat e Robert Stam: multiculturalismo sem a crítica ao eurocentrismo ou ao norte-americanismo é só um shopping de culturas.

A observação da violência que domina os conflitos identitários alcança, em Fusco, a condição feminina instrumentalizada – e ausente – também no circuito artístico, constatação anteriormente identificada nas obras da cubana Ana Mendieta. Assim ocorre em The Incredible Disappearing Woman (2003), realizada em parceria com Ricardo Dominguez, que reverbera a história verdadeira de um artista que alegava ter realizado gravações em áudio, com finalidade artística, de uma relação sexual mantida com um cadáver de mulher alugado na fronteira com o México. Na performance, três mulheres recebem instruções de quatro personagens, via internet. Para Fusco, seu objetivo era “refletir sobre questões éticas e estéticas de como realizar a realidade da violência política inteligível em uma cultura saturada de informações, dominada pela simulação. Na pressa para celebrar o potencial de expansão da comunicação proporcionada pelas novas tecnologias, assumimos que o aumento da circulação de informações produz, necessariamente, melhores possibilidades de interação intercultural substantiva”.

Humilhação encenada

Coco Fusco veio ao Brasil em 2005 e apresentou Bare Life Study #1, intervenção urbana realizada em frente ao Consulado dos Estados Unidos em São Paulo, na qual comandou um grupo de 50 pessoas em uniformes de cor laranja, vestimenta dos detentos nos presídios americanos. Sob suas ordens, munida de um megafone, os participantes passam a limpar o chão com escovas de dentes, procedimento de humilhação recorrente em prisões americanas. A performance foi a primeira de uma série, elaborada desde então pela artista, que discute criticamente o papel exercido por mulheres militares. Fusco está agora de volta para uma residência artística de quatro meses, nos quais vai interagir com alunos e professores da Fundação Álvares Penteado (Faap), dentro das atividades do Programa Faap/Fulbright Distinguished Chair in Visual Arts.

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Legenda: Observations of Predation in Humans: A Lecture by Dr. Zira Animal Psychologist (2013), o trabalho mais recente de Coco Fusco, eco evidente de texto de Franz Kafka

Nessa presença, repercute seu último trabalho, realizado no fim de 2013. Nele, a artista realiza um salto rumo às origens de Undiscovered Amerindians Visit the West, sem deixar de lado sua feroz crítica feminista. Em sua performance Observations of Predation in Humans: A Lecture by Dr. Zira, Animal Psychologist, Fusco reencarna a personagem do filme Planeta dos Macacos, Dra. Zira, psicóloga e veterinária. Discursa sobre sua especialidade: o comportamento humano, cuja agressividade está também orientada para a pilhagem e acumulação. Ecos de Um Relatório para uma Academia se ouvem aqui. Mas a performance de Coco Fusco vai além, já que pode indicar que o macaco de Kafka é também mulher.

*Crítica publicada originalmente na edição #17

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