Coisas que reconhecemos e não reconhecemos, mas cujas vozes assombram

16ª Bienal de Istambul investiga universos de ficção e transformações ambientais, mas não aprofunda reflexão sobre o mundo político

Bernardo de Souza

Publicado em: 08/01/2020

Categoria: A Revista, Crítica, Destaque

Untitled (31 Mart 2019), de Glenn Ligon (Foto: Cortesia do artista)

Toda forma de contato entre a humanidade e o mundo dá-se mediante seus cinco sentidos ou por meio das muitas linguagens articuladas no curso do pleno exercício de sua inteligência, à medida que vai depreendendo sentido das coisas que reconhece – e as quais, somente ao longo deste processo de reconhecimento, passam de fato a “existir”.

Como reconhecer e explorar de forma crítica um universo de coisas que somente parece “existir” quando mediado pelas linguagens da ciência e da (auto)ficção? Esta constitui uma das questões que subjazem à investigação promovida por Nicolas Bourriaud em O Sétimo Continente, mas também, possivelmente, a grande crítica a ser feita a esta 16a edição da Bienal de Istambul.

O ponto de partida para a construção da mostra (que inclui mais de 220 obras, de 56 artistas, reunidas em somente três localizações) seria a existência de um novo continente, resultado da acumulação sobre os oceanos de uma tal quantidade de detritos plásticos capaz de conformar, em seu conjunto, um espaço cinco vezes maior que o território da Turquia. Efeito da ação do homem sobre o planeta – fenômeno que deu origem ao termo Antropoceno, usado para descrever o atual período geológico da Terra –, esse acúmulo de lixo funciona como plataforma a um só tempo real e alegórica para tratar de questões fundamentalmente relacionadas às transformações ambientais que põem em risco toda espécie de vida sobre o planeta. 

Sem dúvida, trata-se de uma reflexão de fundo científico, embora essencialmente política, pois bem conhecemos as origens econômicas do desastre que se avizinha: a sanha ensandecida do Capital, que não conhece fronteiras, nem limites, nem democracia, nem aquecimento global. Mas até que ponto, e com quais ferramentas, a presente Bienal enfrenta a realidade política que fomenta esse cenário catastrófico que a todos afeta em uma ou outra medida?

Still do vídeo Spaghetti Blockchain (2019), de Mika Rottenberg (Foto: Cortesia da artista/ Hauser & Wirth)

 

No mais relevante espaço expositivo da Bienal, MSFAU, onde o statement curatorial se torna evidente, somos levados a entrar e sair de pequenas salas que exibem, via de regra, apenas uma obra ou um conjunto de obras desenvolvidas por um único artista. Cada uma dessas salas – compartimentos isolados, autônomos – nos apresenta um mundo particular, dotado de lógica e dinâmica próprias, o qual deriva de pesquisas artísticas e científicas que trazem a público informações e cenários investidos de alta carga de artificialidade. Espécies de laboratórios privados, esses recintos constituem mundos cujo acesso se dá mediante o uso de linguagem científica (ou cientificizada) ou através de repertórios artísticos que tendem a remeter ao campo da ficção (científica) e a universos de pesquisa altamente subjetivos, ou a questões genéricas e universais sobre o nosso tempo e os rumos da humanidade no século 21.

Em meio a tanta artificialidade, uma das obras que se destacam é o vídeo da argentina Mika Rottenberg, no qual uma série de experimentos com antimatéria é realizada de maneira caleidoscópica; são tecnologias que parecem desnaturalizar o mundo em que vivemos, dotadas de uma serialidade tão assombrosa e inumana quanto burocrática.

Já no Pera Museu, um espaço que, a rigor, apresenta mundos distópicos ou heterotópicos, duas obras me parecem relevantes: a tela do gaúcho Glauco Rodrigues (Visão da Terra, Lenda do Coati Puro Que Porventura É?, 1977) de um rei-fanfarrão, carnavalesco, pintada nas cores do Brasil, e um filme silencioso de Paul Sietsema (Anticultural Positions, 2009), no qual se lê a seguinte passagem: “…coisas que reconhecemos como pertencentes a um entorno familiar, e outras que não reconhecemos, cujas vozes espantam e assombram” – excerto de um ensaio de Jean Dubuffet, cuja autoria, entretanto, Sietsema atribiu a si mesmo.

Visão da Terra, Lenda do Coati Puro Que Porventura É? (1977), de Glauco Rodrigues (Foto: Cortesia Vincent Wierik)

 

Estaríamos nós incapacitados de lidar com nossa própria realidade, nos refugiando em universos aparentemente fechados, ambientes controlados como os da ciência e da ficção? Ou, quem sabe, justamente por essa razão não seríamos mais capazes de compreender a nossa realidade?

Epicentro de manifestações
Nos dias em que me encontrava em Istambul, o país vivia um conturbado momento de sua guerra travada na Síria, ao desafiar os comandos dos EUA e seguir sua ofensiva militar –, justo quando me dirigia ao aeroporto, acessos foram fechados devido a uma ameaça de bomba que acabou por se revelar inócua. Impossível deixar de pensar sobre os últimos anos experimentados pela Turquia sob o comando do presidente Erdogan, sobre a repressão da sociedade civil e sobre as consequentes prisões de jornalistas críticos a seu governo linha-dura. Entretanto, nesta Bienal, poucas são as reflexões sobre o mundo político (e local) experimentado como a mais pura realidade, sem repertórios codificados, cientificizados ou ficcionais.

Untitled (America) (2019) de Glenn Ligon (Foto: Cortesia do artista)

 

Na ilha de Buyukada, último destino antes de partir, deparei-me com o artista que apresentou o conjunto de obras, possivelmente, mais significativo nesta Bienal: Glenn Ligon. Em uma casa abandonada, encontramos dois vídeos feitos na Praça Taksim – epicentro das revoltas e manifestações populares –; um filme de 1970, From Another Place, realizado por Sedat Pakay, sobre o escritor e ativista James Baldwin, negro e gay, que viveu em Istambul por alguns anos (e pela primeira vez legendado em turco); um luminoso onde se lê a palavra America e, finalmente, dois néons: um deles aceso, marcando a data do processo eleitoral que levou ao poder o atual prefeito social-democrata de Istambul, Ekrem Imamoglu (19 de março de 2019); o outro, ainda apagado, apontando a data em que a República da Turquia comemorará seus 100 anos de existência (29 de outubro de 2023)

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