Coisas que talvez existam

Guilherme Kujawski

Publicado em: 03/09/2014

Categoria: Especial 31a Bienal de São Paulo, Reportagem

Primeiras impressões da 31ª Bienal de São Paulo

Legenda: Projeto de vídeo do coletivo russo Chto Delat?, inspirado na pintura Os Operários de Bratsk (1961), de Viktor Popkov

Coletividade, conflito, imaginação, transformação. São com essas quatro palavras-chave que os curadores da 31ª Bienal de São Paulo definem a sua tese político-estética, ou seu manifesto-denunciatório-contra-as-mazelas-do-capitalismo. Flanar pelo pavilhão no dia da pré-abertura pode ser uma experiência arrebatadora ou frustrante – dependendo do estado de espírito peripatético do transeunte. Mas não dá para ficar indiferente e/ou sorumbático às “coisas que não existem”, statement da grande exposição (veja o nosso álbum no Flickr).

A nova edição da Bienal não é para amadores. Há um discurso contundente entremeado nas expressões, algumas com laivos conflitantes, outras transformativas, mas todas anunciando uma coletividade soterrada, ou evidenciando uma imaginação que assumiu o poder sem nunca exercê-lo integralmente por falta de quórum. De qualquer forma, é quase humanamente impossível realizar uma resenha crítica com apenas uma vista-d’olhos, mas é possível elaborar uma narrativa baseada nas “primeiras impressões”.

O coletivo russo Chto Delat? (o nome é traduzido para Que Fazer?, título de livro de Lênin) é um dos mais politizados do evento, tendo se recusado recentemente a participar da Manifesta 10 no Museu Hermitage, em São Petersburgo, por uma razão muito simples, ignorada pelo curador Kasper König: arte e política são dois termos xifópagos, irredutíveis, e quando um curador dá um peso maior para o primeiro em função do segundo, o conjunto se dissolve irremediavelmente. Tal posição está em cada linha do último boletim de arte engajada distribuído ao lado da instalação do grupo, um jornal que bem lembra os samizdat mimeografados por dissidentes do antigo regime soviético.

Por falar na junção entre arte e política, não há como não fazer um parêntese sobre o noticiado fato do patrocínio de última hora do Estado de Israel à Bienal e a respectiva reação de perplexidade de alguns artistas, inclusive israelenses (nesse sentido, todos devem tirar o chapéu para a poderosa Yael Bartana, que assinou a lista de boicote). Da próxima vez que algum artista israelense fingir que é apolítico, é bom lembrar que a Creative Community for Peace (CCFP), entidade que investe pesadamente na separação entre arte e política pelo mundo afora, é financiada pela StandWithUs, organização de extrema direita intimamente ligada ao Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel.

Legenda: Fuego en Castilla (1960), de José Val del Omar

Mas enfim… há também outras poéticas ecoando pelo espaço imperioso do prédio da Bienal, como Fuego en Castilla (1960), de José Val del Omar, documentário sobre as esculturas de Alonso de Berruguete e Juan de Juni, abrigadas no Museu Nacional Valladolid. O simbolismo da Semana Santa castelhana é pontuado por uma luz escura, sinistra, talvez bergmaniana, sendo o movimento de câmera nitidamente influenciado pelos surrealistas. Está sendo exibido ao lado de outro trabalho experimental de Val de Omar, Aguaespejo granadino, os dois integrantes de uma trilogia (onde estaria o terceiro curta?**).

Em Open Phone Booth (2007 – 2011), o artista turco Nilbar Güreş comenta a escassa infraestrutura de telecomunicações da cidade natal de seu pai, uma aldeia curda localizada no leste da Anatólia. Tem a validade de um manual de sistemas autônomos não ligados às redes de telecomunicações e do setor elétrico, ou um daqueles planos de contingência e de recuperação relacionados à cultura do sobrevivencialismo, a crença de que seres humanos devem passar antecipadamente por situações de auto-suficiência com o objetivo de se preparar para rupturas sociais e econômicas provocadas por desastres. 

O artista Edward Krasiński, que faleceu em 2004, era natural da Cracóvia, cidade ao sul da Polônia estabelecida às margens do Rio Vístula. Seu trabalho, Grand Spear (1962) demonstra sua obsessão por linhas, principalmente as que são geometricamente escalonadas em pontos, e, de preferência, materializadas em azagaias e lanças. A encenação do espaço expositivo privilegia as sombras, o que imprime um caráter antropomórfico aos elementos, enquanto outros contornos ganham uma grandiloquência cinética. É um dos melhores trabalhos da Bienal.

Romyp

Legenda: Foto da série A última aventura (2011), de Romy Pocztaruk

A ausência de humanos nas fotos da artista gaúcha Romy Pocztaruk provoca uma leve síndrome de pânico, mas, ao mesmo tempo, é absolutamente palpitante. A série A última aventura registra imagens de lugares à beira da Rodovia Transamazônica, projeto ícone do desenvolvimentismo militar, e também de sua falácia. Os ambientes e objetos são solicitantes, persuasivos, terrivelmente incongruentes, como se a composição de todo o conjunto apontasse para um mise en abyme, na mais pura acepção gideana.

Acompanhe em nosso especial outras impressões da nova edição da Bienal de São Paulo.

** UPDATE: Segundo a resenha da plataforma digital da 31ª edição da Bienal de São Paulo patrocinada pela Bloomberg Philanthropies (assinada por PGR), “Acariño galaico [Carícia galega] deveria completar seu Tríptico elemental de España [Tríptico elementar da Espanha], mas não conseguiu concluí-lo”. Isso é meia-verdade. O documentário foi concluído post-mortem por Javier Codesal e deveria estar presente na Bienal, fato que muito intrigou este que vos escreve.

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