Colecionismo das artes africanas e sistema das artes no Brasil

Interações recentes entre o colecionismo das artes africanas e as instituições museológicas demonstram um interesse de mão dupla

Luciara Ribeiro
Vista da exposição África, Mãe de Todos Nós: Conexão Entre Mundos, no Museu Oscar Niemeyer (Foto: Luana Fortes)

No dia 4/7, o Museu Oscar Niemeyer inaugurou a exposição África, Mãe de Todos Nós: Conexão Entre Mundos, uma parceria com a Coleção Ivani e Jorge Yunes, com curadoria do pesquisador Renato Araújo. A mostra apresenta cerca de 20 obras representativas das chamadas “artes tradicionais africanas”. Geralmente, define-se por “artes tradicionais africanas” a produção criada a partir das estéticas visuais vigentes nesse continente durante o século 19 e início do 20, período de efetivação da colonização europeia. Assim como as artes europeias, as produções africanas são diversas em aspectos culturais, funcionais, estéticos e temporais, por isso há a necessidade do uso do plural ao referir-se a elas.

A Coleção Ivani e Jorge Yunes é uma das que evidenciam esse recorte. Encontrar uma coleção com esse perfil dentro da elite paulistana não é novidade. A coleção reunida pelo casal encontra-se atualmente em um casarão da família, localizado na região dos Jardins. A alguns metros de lá está a Fundação Cultural Ema Gordon Klabin, espaço que também possui outra coleção das artes tradicionais africanas. O conjunto de 16 peças reunido por Ema Klabin, em diálogo com o marchand e galerista húngaro Ladislas Segy, também se assemelha pelo material utilizado, a madeira, e pela região de origem, o Oeste africano. Segy foi um importante agente do mercado de arte desse tipo de peças aqui no Brasil. Através do casamento com Helena Segy, uma paulistana decoradora de origem elitista e ex-esposa de Henrique Mindlin, arquiteto e um dos intelectuais ligados à formação do ensino acadêmico na cidade, ele pôde intensificar o contato com os novos colecionadores da cidade.

A coleção do Masp também possui peças comercializadas por Segy através do BankBoston, que posteriormente realizou a doação das mesmas para o museu. Segy atuou em um período em que o sistema das artes na cidade estava em processo de consolidação, tanto pelas fundações de algumas instituições ligadas às artes (MAM-SP, Masp, Bienal) como pela academia, no caso da Universidade de São Paulo. E foi a pesquisa que levou outros agentes do colecionismo a reunir obras africanas. Marianno Carneiro da Cunha, um dos fundadores do MAE-USP, também comprou obras com Ladislas Segy e criou uma das principais coleções de artes africanas do País. Rogério Cezar de Cerqueira Leite, professor aposentado do Instituto de Física da Universidade de Campinas, também reuniu um conjunto variado de objetos das artes tradicionais africanas e o vinculou com o espaço acadêmico. Em 2012, a Pinacoteca do Estado de São Paulo apresentou a exposição Gênese e Celebração: Coleção de Peças Africanas do Acervo de Rogério Cerqueira Leite, demonstrando a ligação com o professor-colecionador e o interesse da instituição em ampliar os temas presentes em suas exposições e coleções.

Essas ações recentes entre o colecionismo das artes africanas e as instituições museológicas, sobretudo públicas, como o caso de Rogério Cerqueira Leite e a Coleção Ivani e Jorge Yunes, demonstram um interesse de mão dupla, tanto de colecionadores que querem expor seus objetos como de instituições que têm percebido a necessidade e a urgência de ampliar os temas, as origens e as autorias presentes em seus acervos. O Masp tem sido um forte atuante nesse ponto. Desde que a atual diretoria assumiu o museu, diversas ações foram adotadas com o intuito de revisar e ampliar os debates presentes no acervo e em suas exposições. A busca por preencher tais lacunas torna-se cada vez mais urgente e provavelmente possibilitará no futuro uma escrita menos eurocêntrica das artes. 

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