Como transformar arame em mata

Com 30 trabalhos que relacionam o artista e a vida ao seu redor, a primeira grande individual de Marepe em São Paulo desvenda um caráter autobiográfico da obra

Bianca Dias

N° Edição: 44

Publicado em: 11/10/2019

Categoria: A Revista, Review

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Vista da exposição Marepe: Estranhamente Comum (2019) na Pinacoteca do Estado de São Paulo (Foto: Luana Fortes)

A curadoria de Marepe: Estranhamente Comum faz uma visita de poética exatidão à obra do artista baiano que reinventou a dimensão do biográfico ao criar, a partir do pessoal, um corpo político de alta densidade. Natural de Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo  Baiano, Marepe (Marcos Reis Peixoto) subverte objetos, mercadorias e materiais de construção que orbitam ao seu redor, fazendo vibrar  a estranheza e o indomesticável neles presentes.

Na Pina Estação, enquanto camas aladas ocupam o espaço aéreo da sala, em Conjunto de Cabaças (2017), esses objetos usados no sertão para armazenar água são transportados para o futuro, ao serem reproduzidos em material metálico e reflexivo. Através da obra Verde Que Te Quero Verde (2019), composta de óculos de proteção usados por soldadores, podemos rever a cidade de São Paulo tingida de cores improváveis. A obra reinstala uma disponibilidade para o sonho, diante da aridez destes tempos.

Para além das questões identitárias mobilizadas pelo elemento regional, Marepe articula vida e obra de forma a expandir e revirar o local e o global. Em seu vocabulário popular misturam-se mesas de camelô, bijuterias, algodão-doce, bacias, filtros de barro e desempoladeiras. Ele retira a matéria de seu lugar de origem dando-lhe um novo destino, alterando sua circulação e apresentação: dos comércios populares e festejos com barracas de comida e brincadeiras típicas para uma invenção extrema, valendo-se de procedimentos simbólicos e estratégias artísticas sofisticadas que incluem uma grande carga de ironia e disposição para repensar o estatuto da imagem, resistir ao enquadramento, reler e reinterpretar espaços e cenas.

Na topada incontornável com a matéria viva e comum, ele movimenta, transforma e condensa coisas oriundas da sua cidade, no Recôncavo Baiano: barracas de venenos e joias ironizam o comércio da arte; baldes compõem uma esfera, numa cosmologia própria que Marepe chama de satélite-baldio; pés de enxada se enfileiram serpenteando o chão e formando uma coluna. Uma dimensão heteróclita e intangível coloca-se entre o seu corpo e o mundo, como quando o artista faz uma extração do impalpável de uma nuvem, contrapondo um pedaço de algodão-doce ao azul do céu. Marepe faz poesia ao construir gaiolas abertas que não servem para prender pássaros ou quando sintetiza a Caatinga em um sapato em magnífica desolação, colocado no centro de um emaranhado de arame.

Transformar a sintaxe: arame em mata, baldes em satélites, bacias em bichos. Fazer poesia, como anuncia Jean-Luc Nancy,
é sustentar o lugar de uma impropriedade e, ao mesmo tempo, fazer tudo falar, inventar o que está sempre por nascer no mundo e em si.

Serviço
Marepe: Estranhamente Comum, até 28/10, Pina Estação,  Largo General Osório, 66, 4º andar, pinacoteca.org.br

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