Compreender o todo pelas partes

Em sua primeira incursão virtual, Jac Leirner lida com o descontrole de forma metódica

Nina Rahe

Publicado em: 02/06/2020

Categoria: A Revista, Crítica, Destaque

Trecho da obra Botão (2020), de Jac Leirner no aarea.co (Foto: Divulgação)

O acúmulo é uma constante na trajetória de Jac Leirner. Em sua primeira obra virtual, disponível na plataforma aarea.co, não foi diferente: o colecionismo que caracteriza o modus operandi da artista também esteve por trás do trabalho que reuniu mais de mil imagens. Diferentemente das outras obras de Leirner, no entanto, em que o empilhamento de objetos – entre maços de cigarros e sacolas plásticas – é matéria para a formatação escultural ou instalativa, e onde o espectador reconhece a parte (o objeto) a partir da visão do todo (a instalação), na obra virtual Botão o percurso é inverso.

Ao entrar na página do projeto, não é possível visualizar de imediato nenhum tipo de acúmulo de materiais. Para iniciar a obra, inclusive, é necessário clicar em um botão que dará início a uma sequência com duplas de imagens que vão sendo substituídas por outras em intervalos de segundos. É preciso, assim, acompanhar a sucessão de dípticos para percebê-los como fragmentos de uma coleção maior.

Durante sete anos, a artista fotografou os mais variados tipos de legendas dos filmes e séries a que assistiu. Desse material – que ultrapassa 5 mil imagens – Leirner escolheu para a obra Botão os subtítulos que continham números. Todas as fotografias foram recortadas em formato quadrado, fazendo com que partes das cenas e dos textos deixassem de ser visíveis e reconhecíveis. O que vemos, então, é uma série de associações (geradas por um algoritmo) entre pares de imagens e legendas. Em uma primeira leitura, Botão, com suas possibilidades infinitas, nos dá a sensação de abertura total para o inesperado, mas Leirner explica que o trabalho foi meticulosamente construído e delimitado, a começar pela restrição do assunto: números. A combinação aleatória só foi uma opção porque, segundo a artista, “não existem duplas de imagens que não sejam possíveis de funcionar”. “O resultado dos meus trabalhos é sempre tão controlado que tento lidar com o descontrole de forma metódica. Abro para o acaso, mas a partir de uma lógica estabelecida”, diz. Apreender o volume e a dimensão das imagens – e desfrutar das múltiplas combinações, que vão do sem sentido à comicidade e à poesia – requer atenção. O que Leirner requisita, aqui, é a sabedoria do colecionador que, para completar uma coleção, não se intimida com a espera. Se antes ela reunia os objetos para apresentar o conjunto, agora cabe ao espectador refazer o percurso da obra, a fim de compreender o todo pelas partes.

Serviço
Botão
Jac Leirner, aarea, até 6/2020 aarea.co

 

 

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