Comunidade on-line para um mundo pandêmico

SOUTH SOUTH cria estratégia de cooperação para vendas e busca visão “holística” da arte contemporânea focada no Sul Global

Paula Alzugaray — Colaboraram Leandro Muniz e Nina Rahe

Publicado em: 04/03/2021

Categoria: Destaque, Mercado de Arte

South South Veza (Foto: Reprodução)

Liza Essers (Foto: Anthea Pokroy)

Troque “feira” por “plataforma”. Substitua “talks” por “think tank”; “estratégia” por “visão holística” da arte contemporânea. Novos ventos sopram no mercado de arte global. On-line desde fevereiro, a SOUTH SOUTH é uma iniciativa capitaneada pela galerista Liza Essers, da Goodman Gallery, da África do Sul, com a colaboração de seleto grupo de galeristas devotados aos mercados do Sul Global, entre eles Marcio Botner, diretor da galeria A Gentil Carioca, e José Kuri, da Kurimanzutto, do México.

Marcio Botner (Foto: Divulgação)

A plataforma digital, que opera com vendas diretas e leilões, poderia ser resumida a uma feira repaginada para tempos de pandemia, se não estivesse política e estrategicamente orientada ao Sul Global – o que também é uma forte tendência do mercado internacional. “A questão do Sul Global antecede a pandemia. Há muito tempo se fala sobre isso e essa era uma questão que eu conversava muito com a Liza Essers, algo que a inquietava muito também”, diz Marcio Botner à seLecT

De fato, Sul Global é um conceito geopolítico de acepções diversas, historicamente usado no contexto de estudos pós-coloniais envolvendo África, América Latina, Caribe, Oriente Médio, Europa do Leste, Sul e Sudeste Asiático e Oceania. Em termos curatoriais, foi assumido pela Associação Cultural Videobrasil há pelo menos dez anos, quando o festival criou uma mostra competitiva denominada Panoramas do Sul. A dobradinha SOUTH SOUTH também não é novidade. South-South Cooperation é um projeto da ONU voltado para a colaboração e a solidariedade entre países do Sul nos âmbitos político, econômico, social, cultural, ambiental e técnico, visando sua inclusão na 2030 Agenda for Sustainable Development.

Embora o discurso envolvido nessa nova ação entre amigos da arte carregue uma dose de frescor e ineditismo – atitude mais que necessária, em resposta às condições sem precedentes em que o mundo se encontra sob a pandemia da Covid-19 –, o grupo de sete colaboradores da SOUTH SOUTH acaba por configurar algo próximo a um comitê de feira internacional de arte, na medida em que cabe a eles a seleção de quem participa dos “eventos de vendas” da plataforma. 

Inaugurado em 3/2 com leilão on-line, o primeiro evento, intitulado SOUTH SOUTH VEZA, reuniu cerca de 50 galerias convidadas, de mais de 40 cidades, de 30 países, de 5 continentes do mundo, o que, segundo o statement do catálogo disponível para download, “apresenta uma visão mais holística da arte contemporânea”.

Untitled (Whispering in the Leaves) (2016), de William Kentridge, no leilão SOUTH SOUTH VEZA (Foto: Divulgação)

Palavra estranha ao universo da arte, “holístico” aqui parece se referir à diversidade cultural. Pode também corresponder à inclusão, à ampliação de agentes envolvidos no projeto, ou ao propósito de abraçar um grupo de espaços sem fins lucrativos em um evento comercial, destinando a eles até 20% do valor arrecadado com as vendas de obras. “Um dos nossos objetivos com a plataforma foi dar uma porcentagem para instituições de arte, que sempre precisam de apoio, ainda mais nesse tempo de pandemia”, diz Botner. 

As três felizes contempladas foram a Casa do Povo, de São Paulo, a Raw Material Company, de Dakar, e a Green Papaya, de Manila. “Essa associação torna visível o fato que pertencemos a um mesmo setor, mesmo que com objetivos diferentes, tensões, convergências e divergências”, diz Benjamin Seroussi, diretor da Casa do Povo, à seLecT. “O mundo da arte é um campo amplo com muitos agentes (artistas, montadores, galeristas, colecionadores, espaços sem fins lucrativos de pequeno ou grande portes, público, professores etc.). Como todo campo, ele é ao mesmo tempo um campo em disputa e um campo de força. Neste sentido, a associação é muito feliz pois permite explicitar e discutir isso de forma mais aberta”.

Outros públicos, outras relações
A pandemia precipita mudanças que já eram latentes e inevitáveis na sociedade. Essas transformações começam invariavelmente no ambiente digital, mas se ampliam e se potencializam em projetos conceitualmente ou ideologicamente comprometidos com a renovação. Esse é o caso de uma plataforma que tem um viés geopolítico e uma bússola orientada para regiões do mundo antes inacessíveis.  

“Eu ainda acho que o contato físico – ao menos para nós que crescemos numa sociedade em que o contato físico é importante – não é substituído por nenhuma ação virtual”, diz a galerista Jaqueline Martins. “Não dá para comparar essas experiências, mas o virtual, se tem alguma vantagem, é a de falar com um cliente da África do Sul e com galerias que estão longe do meu repertório geograficamente. No SOUTH SOUTH, você estreita as oportunidades de falar com pessoas que não estão no seu mailing e que, na feira física, você tem dificuldade de acessar”, completa a galerista que, em 2020 se destacou por propor uma exposição virtual não realista, com software de videogame, a mostra Que Vão Que Vem

Uma questão de base, quando se fala em mercado digital – realidade à qual todo o mundo da arte se vê forçado a encarar –, é como se relacionar com os “nativos digitais”, que compõem a antes-futura/ agora-presente geração de colecionadores de arte. Aqueles que, simplesmente, não têm mais a mesma necessidade de ter um contato físico com o que consomem.  

“A gente tem feito pesquisas sobre mercado digital, eu tenho estudado e procurado entender como é estar em marketing places, mas sem ser um vendedor passivo, o que é um desafio enorme”, diz Jaqueline Martins. “Há duas semanas, ouvi um podcast da galeria Maccarone, em Los Angeles, e a [galerista] Michelle Maccarone comentou que ela está em marketing places mas também está no eBay porque não quer esperar esse cliente entrar no Artsy e quer falar não apenas com quem busca arte, mas com quem está procurando um pôster. Isso, na opinião dela, é uma tentativa de fato de expandir o público sem nenhum preconceito, sem impor nenhuma dificuldade, e eu concordo”, diz.

Transparência é a regra nº 1 do ambiente digital. Para poder começar a jogar (bem) o jogo dos market places, a SOUTH SOUTH exibe os preços de todas as obras expostas em seus viewing rooms. Pesquisar valores nessas plataformas – prática dificultada nas grandes feiras presenciais, como Art Basel, ARCO, Frieze, SP-Arte etc. etc. – torna-se tão ágil quanto conhecer a biografia do artista, ou a técnica da obra. Para entrar, não tem lista VIP, o visitante não precisa de convite, nem desembolsar o valor que gastaria para assistir a uma peça de teatro, por exemplo. Basta se registrar no site ou no app SOUTH SOUTH, entrar e clicar.

“A questão de os preços estarem à mostra foi importante, mesmo para os galeristas, já que precisamos saber sobre isso para precificar e entender os nossos pares”, diz Maria Montero, diretora da Sé Galeria. “E também imagino que tenha sido bom para pessoas que têm potencial de compra e antes se sentiam intimidadas”.

Inventar formatos
“Feiras de arte? O que é isso?!”, ironizou a jornalista Georgina Adam, articulista do Financial Times, na mesa redonda “Can You Game the Art Market?”, promovido pelo The Art Newspaper em 26/2. Discutiam-se ali as novas tecnologias e moedas do mercado digital; a convergência, ou não, entre o mercado tradicional e o “NFT Market”; as diferentes maneiras de se vender arte hoje. 

Enquanto isso, a SOUTH SOUTH vendia sua ideia agregadora e ambiciosa comunidade on-line, oferecendo-se ao visitante como “uma ferramenta conceitual para confrontar distorções cartográficas históricas”. Uma nova maneira de vender arte, sem dúvida.

Mas qual a diferença para uma feira? 

“Primeiro, é específico para galerias e projetos do Sul Global”, continua Maria Montero. “Definitivamente, somos mais afetados do que o Norte, não em questão de saúde, mas em termos econômicos. As discussões giram em torno disso. No fim, é muito mais uma plataforma de discussão, pesquisa e conscientização sobre questões, do que uma plataforma de vendas, para falar a verdade”. 

  • Still de Anito 1 (2011-15), de Martha Atienza (Foto: Divulgação)
  • Still de Anito 1 (2011-15), de Martha Atienza (Foto: Divulgação)
  • Still de Anito 1 (2011-15), de Martha Atienza (Foto: Divulgação)

Com um time de quatro curadores convidados – entre eles, Rodrigo Moura, curador do Museu del Barrio de NY, que assina um programa de filmes –, SOUTH SOUTH entende-se como “uma comunidade on-line”, “uma antologia”, “um arquivo”, uma “fonte” para artistas, galerias, curadores, colecionadores e estudantes. Com curadoria de Elvira Dyangani Ose, o programa de conversas foi repaginado como “think tank”, termo que nomeia instituições de pesquisa ou laboratórios de ideias em políticas públicas, economia, tecnologia, cultura etc. Mas lembremos que tornar-se uma plataforma de conteúdo e pesquisa é uma ambição comum a dez entre dez feiras de arte do planeta. Seja para “educar” e criar novos públicos. Seja para tornar o mercado menos flat, menos chato, menos voraz. 

  • A curadora Elvira Vyangani (Foto: Maureen M. Evans)
  • O curador Rodrigo Moura (Foto: Divulgação)

Quando  SOUTH SOUTH VEZA se encerrar, a plataforma seguirá on-line, com o propósito de explorar um mundo descentralizado da arte. No próximo evento de vendas, segundo Botner, espera-se ter mais galerias participando. Enquanto isso, se o público puder continuar a discernir diferentes sotaques e idiomas na produção cultural e artística internacional, já é bastante.

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