Comunidades à margem

Silas Martí

Publicado em: 02/09/2014

Categoria: Especial 31a Bienal de São Paulo, Reportagem

A 31ª Bienal de São Paulo vai mostrar o estado precário do mundo, com forte pegada política e destaque para a produção marginal da América Latina e do Oriente Médio

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Legenda: Árvore de Sangue. Fogo Que Consome Porcos, pintura de Thiago Martins de Melo, um dos artistas da 31ª Bienal de São Paulo (foto: Cortesia Galeria Mendes Wood)

Eles são como canários numa mina de carvão. Quando o ar abaixo da terra se torna tóxico demais para respirar, o pássaro, mais sensível do que o homem, é o primeiro a morrer, alertando para o perigo. De certa forma, os artistas da 31ª Bienal de São Paulo, que começa em setembro, trabalham na condição de arautos de tempos difíceis. São os primeiros a denunciar um quadro de falência social na ressaca das revoltas e manifestações que varreram o mundo nos últimos anos.

“Queremos tomar a temperatura do momento, como faz esse pássaro na mina. É um termômetro para diagnosticar o que acontece depois dos protestos, e acredito que a atmosfera está mesmo carregada”, diz o britânico Charles Esche, curador desta edição da mostra paulistana. “Nossa ambição é que as obras funcionem como canários numa mina de carvão.”

Um dos primeiros nomes escalados para a exposição, o indiano Prabhakar Pachpute, aliás, já aludiu a essa imagem do canário na mina no nome de um de seus trabalhos, desenhos feitos com carvão nas paredes de uma galeria em Mumbai. Usando a mesma técnica, ele criou agora o cartaz desta edição da Bienal e esteve em Minas Gerais produzindo um novo trabalho, inspirado na extração de minério.

Ele e os demais artistas da mostra, um recorte centrado em mais de 70 nomes, com mais peso para a produção marginal da América Latina e do Oriente Médio, devem compor um panorama estético com forte pegada política. Esche e seu time de curadores, os espanhóis Pablo Lafuente e Nuria Enguita Mayo e os israelenses Galit Eilat e Oren Sagiv, já adiantaram que a mostra será uma espécie de reação à voz das ruas, sejam elas de Istambul, sejam de São Paulo. “É um quadro do momento que vivemos agora”, diz Esche. “Não é uma mostra histórica nem sobre a relação de uma geração com outra. Buscamos artistas engajados com o momento atual.”

Existe uma vontade de evitar trabalhos panfletários em favor de obras que falem do estado precário do mundo, em especial da crise de representatividade nas democracias modernas, mas que sejam capazes de entregar esse discurso calcado na sedução formal. Sedução, aliás, é um termo empregado por Eilat na hora de descrever trabalhos como o da colombiana Johanna Calle, que usa uma máquina de escrever para datilografar leis sobre demarcação de terras na Colômbia, criando a forma de uma árvore sobre várias folhas de papel.

América marginal

Mesmo trabalhos mais agressivos, como os da artista Clara Ianni, que já disparou armas de diversos calibres contra chapas de aço retangulares, numa subversão agressiva de cânones minimalistas, parecem estar ancorados numa superfície reluzente. Ianni, impulsionada pela onda recente de protestos no País, prepara agora mais um trabalho sobre questões de violência e as relações entre a polícia e o Exército para a mostra.

Na arena política, as pinturas de Thiago Martins de Melo, um mash-up nervoso de ícones do País, do brasão da República ao rosto do senador José Sarney, passando pela efígie nas cédulas de real e até bustos de Iemanjá, fazem uma leitura gestual, ultracolorida e violenta de um sincretismo religioso manobrado sem dó por coronéis nos rincões do País. Lembrando também a obra de Arthur Scovino, outro jovem artista brasileiro já confirmado na mostra, Esche fala que os trabalhos na Bienal tentarão resgatar noções de “fé, magia e misticismo” em detrimento de interpretações mais rasas da política e contendas vagas entre esquerda e direita. Talvez daí o título da mostra, “Como Falar de Coisas Que Não Existem”.

O Brasil que surge na exposição não é o dos centros do mercado da arte. São Paulo e Rio tornam-se periféricos numa seleção que privilegia autores de Salvador, Belém, Recife, Fortaleza, Porto Alegre e outras capitais à margem do circuito de feiras e galerias. Esche e seu time não negam que ignoraram o lobby das galerias. “Não somos antigaleria, mas também não fomos lá atrás dos artistas”, diz Esche. “Buscamos nomes menos famosos, agora, capazes de passar uma mensagem, mas nada impede que se tornem conhecidos depois.”

Na esteira de uma Bienal que privilegiou artistas esquecidos, como fez o venezuelano Luis Pérez-Oramas em sua edição da mostra há dois anos, a exposição conduzida por Esche esnobou nomes consagrados na tentativa de desbravar novas fronteiras da produção, tanto do Brasil quanto da América Latina e do resto do mundo. Sua expectativa é de que essa seja uma “mostra de descobertas”, criando uma caixa de ressonância para “vozes que não seriam ouvidas”.

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Legenda: Fragmentos de Arquivo Excêntrico, obra de Ines Doujak & John Barker que denuncia abusos da indústria mundial da moda (foto: Cortesia FWF Der Wissenchaftsfonds)

Isso explica o foco em obras que falam de comunidades à margem do mainstream. O coletivo paulistano Contrafilé, por exemplo, trabalha com os artistas palestinos Sandi Hilal e Alessandro Petti para construir uma espécie de quilombo em pleno pavilhão. Será uma estrutura arquitetônica que reflete ao mesmo tempo a lógica de distribuição do espaço, com foco em áreas públicas, dos quilombos, e a arquitetura de pequenos espaços particulares dos assentamentos palestinos. Na mesma pegada, a artista austríaca Ines Doujak e o norte-americano John Barker, que passaram dois meses em residência em São Paulo, criam uma obra sobre os abusos da indústria mundial da moda.

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Legenda: Monumento à Catraca Livre do Coletivo Contrafilé, que antecipou em dez anos as Manifestações de Junho de 2013 (foto: Cortesia do grupo Contrafilé)

Um núcleo histórico da mostra também fala de situações mais ou menos marginais. Grupos como o Mapa Teatro, da Colômbia, que traça uma “anatomia da violência” naquele país, nas palavras de seu fundador, Rolf Abderhalden, e os artistas peruanos Giuseppe Campuzano e Sergio Zevallos refletem sobre a história da América Latina do ponto de vista de travestis e transexuais. Ou seja, propõem uma releitura enviesada da história na tentativa de neutralizar os estragos de uma narrativa branca e heterossexual para séculos de registro histórico.

Nesse ponto, a Bienal também lança um olhar enviesado ao modernismo brasileiro. Primeiro, porque deixa de fora expoentes do construtivismo nacional, os nomes mais fortes do País no mercado internacional, como se Lygia Clark, Hélio Oiticica e Lygia Pape já tivessem sido processados pelas novas gerações e arquivados na história. Também por ser essa a primeira mostra no pavilhão do Parque do Ibirapuera depois da morte de Oscar Niemeyer, seu arquiteto.

“O enterro do modernismo é um processo que nos permite entender, de fato, o que foi esse movimento”, opina Esche. “Este é um raciocínio que só é possível depois da morte de Niemeyer. Já não é mais sexy para os artistas, hoje, mostrar que ainda seguem figuras já catalogadas pela história moderna.”

*Preview publicado originalmente na edição #19

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