Conflito e cultura na origem das coleções

Há seis séculos, quando terra, poder, olho e mente se alargaram, deflagrou-se o colecionismo

Maria Cecília França Lourenço

N° Edição: 27

Publicado em: 14/12/2015

Categoria: Colunas Móveis

Maria Cecilia França Lourenço

O tempo vivido ronda o humano e afronta dois polos, que, em vão, se quer equilibrar: devir e passado. Na infância se sonha com futuro áureo; já na madurês, a equação se reverte. Aqui, então, algo potente para se debater: por que crianças e adultos colecionam? Elegem-se objetos por paridade do que se julga ser, parecer, almejar ou negar. O coletado simula o domínio de um todo incerto, cindido e revolto. O colecionar registra a via do tempo, projetado ou vivido, e desponta por múltiplas razões, desde estéticas, psicológicas, sociais até ideológicas. Insatisfação e incompletude se imprimem nas formas e podem incitar a se aprimorar o que desagrada. A coleção ajusta-se ao momento, lugar, memória e anseio por criar um todo coeso e luminoso.

Nesta Era de Nostalgia, o passado emerge em distintos suportes – da moda à arte –, e não raro versam sobre desalento. A par do impulso econômico, que ampliou o número de colecionistas nas duas últimas décadas, a ação alude ao manter, exibir, ostentar e eternizar-se nos objetos, algo exalado de outras épocas.

Veja-se que há seis séculos, quando terra, poder, olho e mente se alargaram, deflagrou-se o colecionismo. Pessoas ou instituições tentaram se amalgamar aos atributos de objetos, ao abarcar o exótico, o exponencial, o raro, o precioso e também a cultura. Assim, driblava-se a finitude humana e apontava-se para o descortinar de novas práticas culturais.

Se de início colecionar restringiu-se aos reis e às religiões, a cena mudou graças a três basais fatores: domínio dos mares e de culturas distintas, criação de teorias científicas, filosóficas e artísticas, a desafiar certezas, e dilatação do saber, pelo livro e leitura. Igrejas, palácios, escolas e museus apropriaram-se de peças exiladas da circulação e entesouradas.

Antes mesmo, colecionar já se radicara e por fins distintos. Na Grécia, no tempo de Fídias, século 5º a.C., doavam-se tesouros à Acrópole ateniense para exaltá-la. Nomearam Mouseion o palácio real em Alexandria, dotado de biblioteca, observatório, jardim botânico, coleção zoológica e estudos, como em museus atuais e protagonistas. Coleções se alastraram e motivaram termos para justificar a manutenção de umas e não de outras formas. Observe-que no medievo inventaram-se também palavras para corporificar o invisível. A Igreja Cristã alteou pessoas ao status de santos, a que se atribuíram milagres e destes guardou fetiches, fração de corpos ou artefatos, tidos como relíquias. Em reinos, adicionou-se regalia, peça de nobres, dignos de serem memoráveis.

Palácio de Luxemburgo por Wally Gobetz-Flickr CC

Atente-se que, em 1625, a realeza francesa inovou ao abrir alas no Palácio do Luxemburgo (foto), para exibir telas de Peter P. Rubens, em ocasião seleta. Esse artifício ainda vigora em parte do colecionismo privado e sob os mesmos ritos prosaicos: aquisição de artista afamado, eleição de convivas e datas. Só se adicionou público escolar para inflar o total de visitas, cifras e difusão midiática.

Hoje, o discurso sobre o que é colecionado justifica-se com adjetivos lavrados por críticos pagos, a rotular obras como autênticas, geniais e valiosas. Ao dono auferem-se outros, a engordar veleidades e camuflados por nefasto politicamente correto: empreendedor, arrojado, espírito público, amor aos desvalidos.

Neste século, sucesso financeiro confundiu-se com coleções variáveis, a recobrir até páginas policiais e cuja origem se assenta no arrepio à lei. Outro aspecto inédito se constata na adesão de colecionadores aos conselhos de museus. Gera-se prestígio simbólico a estes, informe prévio sobre tendências acolhidas, contatos comerciais e trato invulgar, ao preço de polpuda doação. Assim, a origem também repousa na exibição de privacidade e poder.

Em que pese a variedade de razões para se colecionar, o ato garante acervos aos museus – a incluir o Louvre ou os melhores entre nós. Em países como os Estados Unidos, incitam-se doações com benesse fiscal, inserem-nas no circuito museal e em espaço generoso. Grifam a origem, o que enseja aferir nexo entre seleção e peças, para não se naturalizá-las. Ao dar as costas ao antigo dono, a coleção se transmuta de produto para fato cultural, que é, enfim, o que vale nas formas.

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