Consolidar o conhecimento sobre as pedagogias radicais

Uma abordagem sobre artistas mulheres da América Latina com práticas pedagógicas experimentais

Cristiana Tejo

N° Edição: 45

Publicado em: 31/01/2020

Categoria: A Revista, Colunas Móveis, Destaque

Anna Bella Geiger e alunos no MAM Rio, em 1972. Artista está entre os nomes da pesquisa (Foto: Acervo MAM Rio)

A América Latina é uma abstração. Ou melhor, a América Latina como região “homogênea” é uma invenção do ocidente, tendo em vista que se refere a um território muito diverso culturalmente. Há muitos pontos comuns que entrelaçam essa diversidade e a colonialidade talvez seja a mais marcante variável deste continente. Trata-se não apenas de um passado colonial partilhado, mas de uma estrutura extrativista, racista e excludente que permanece através dos tempos sempre com novas roupas. Advém dessa estrutura a subalternização deste território, já que o centro da colonialidade é o Ocidente, o que faz com que os países latino-americanos (em maior ou menor grau) mirem-se na Europa e nos Estados Unidos. Esse, possivelmente, seja o motivo de o Brasil olhar mais para o Norte Global do que para seus vizinhos territoriais e históricos. Conhecer e relacionar-se com a história e a arte de outros países latino-americanos, além de reconhecer a produção artística de grupos subalternizados do próprio Brasil e as ferramentas de subalternização, pode ser uma das formas de quebrar um dos pilares da colonialidade. A ignorância e o desmantelamento de conexões facilitam a perpetuação da estrutura de poder.

Há um ano tenho tido a oportunidade de estudar artistas mulheres da América Latina que exerceram práticas pedagógicas experimentais, graças a um convite da pesquisadora Giulia Lamoni, do Instituto de História da Arte da Universidade Nova de Lisboa. O projeto Artistas e Educação Radical na América Latina: Anos 1960/1970 é financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia de Portugal e conta ainda com a participação da pesquisadora Margarida Brito Alves, filiada à mesma instituição. O estudo parte do reconhecimento da inter-relação de experimentação artística e pedagógica na prática de artistas do período, em que muitas vezes a obra é uma ação coletiva ou decorrente de processos educacionais. A primeira etapa contou com o levantamento de experiências de artistas no Brasil, na Argentina e no Chile, além de pesquisadorxs, pois desejamos construir uma rede.

O quebra-cabeça que estamos montando é muito complexo por vários motivos, sendo os principais: a parca bibliografia monográfica sobre artistas mulheres complica o mapeamento inicial de nomes; a dificuldade em encontrar registros de atividades pedagógicas dessas artistas, pois esta faceta é sempre deixada em segundo plano, em detrimento das obras e exposições; a cronologia das ditaduras nem sempre é coincidente no continente, assim como seu reflexo na vida artística de cada país. No entanto, essas dificuldades são a mola propulsora do projeto e certificam que estamos num caminho importante e pouco explorado.

Sabemos que temos uma cartografia incompleta, mas estes são os nomes iniciais: Anna Bella Geiger, Lygia Pape, Celeida Tostes, Maria do Carmo Secco, Yedamaria, Regina Silveira, Lina Bo Bardi, Mayumi Souza Lima, Teresa Nazar, Amélia Toledo, Mirtha Dermisache, Elda Cerrato, Noemi Escandell, Graciela Carnevale, Margarita Paksa, Marta Minujin, Virginia Errazuriz, Luz Donoso, Cecilia Vicuña, Graça Barrios, Carmen Silva, Delia del Carril (atelier 99), Irene Dominguez e Mónica Bunster.

O momento atual do continente, em que forças autoritárias retornam e tentam reescrever a narrativa das ditaduras militares e artistas e educadores são criminalizados (caso brasileiro), reforça a importância de consolidarmos o conhecimento sobre as pedagogias radicais e as experimentações artísticas. Ligar esses pontos é uma das contribuições possíveis.

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