Contra a estagnação

Luciana Pareja Norbiato

Publicado em: 08/08/2014

Categoria: Crítica, Review

Com interpretações meticulosas de Mikhail Baryshnikov e Willem Dafoe, espetáculo é o sétimo apresentado pelo encenador norte-americano Bob Wilson no Brasil 

Old Woman_robert Wilson_mikhail Baryshnikov E Willem Dafoe_sesc Pinheiros_03

Legenda: Willem Dafoe e Mikhail Baryshnikov (deitado) em atuações precisas e inspiradas

Todos os elementos que esperamos encontrar no teatro de Bob Wilson estão presentes em A Velha (The Old Woman), exibida recentemente em São Paulo e que chega no dia 8 de agosto ao Rio de Janeiro
. A construção cênica meticulosa, alcançada pelo binômio luz mais cenografia e caracterização à la cartoon, flerta despudorada com as artes visuais, característica das encenações do norte-americano, como já se disse antes neste site.

Mas na reverberação do texto desconexo, cujas cenas são repetidas à exaustão ora em jogral, ora em solo pelos dois atores em cena, o humor é dado novo e brinca de esconder/mostrar leituras possíveis do que se passa no palco. No caso, os dois atores em cena são nada menos que o bailarino russo Mikhail Baryshnikov e o ator norte-americano Willem Dafoe.

Pode parecer tietagem das mais baratas, só que não. Se alguém tem um corpo que se expressa quase por osmose, sem parecer fazer qualquer esforço, é Baryshnikov. Cada dedo levantado, cada pé ante pé tem um tônus expressivo que os reles mortais não sonham atingir.

Como Dafoe (que já havia trabalhado com Wilson no ano passado, em A Morte de Marina Abramovich) não é um reles mortal no panteão do teatro, em que fez e faz quase tantas incursões quanto no cinema que o consagrou, a combinação tem bela química e sincronia, num espetáculo em que tudo é milimetricamente coreografado e depende disso.

Os personagens são duas facetas da mesma pessoa, um escritor em crise criativa que tem encontros (reais ou imaginários) bizarros com uma velha, viva ou morta. Não que isso esteja assim literal no texto. Aliás, na junção das ações abertas no que se convencionou chamar pela crítica de um vaudeville surrealista não há de fato uma história coesa.

O que sobressai no esquema de repetição das cenas em diferentes registros, ecoada pelo texto inicial, é a incapacidade de os personagens irem além de um estado do qual, para saírem, bastaria qualquer atitude diferente. Um texto – repetido várias vezes, ora – sobre um fazedor de milagres que, mesmo sabendo poder realizar qualquer ato de sua vontade, não o faz durante toda sua vida é uma das várias passagens que reiteram a impressão de estagnação voluntária, como num Esperando Godot em que até o sentido de espera desapareceu.

Na justaposição de diferentes humores explorados pelos atores, o que parece acontecer é a constante manutenção de um estado de coisas que só vai dar na morte. E se dela não há rotas de fuga, é nesse encontro que se afigura a dimensão da inutilidade da existência quando tudo o que ousamos é nos repetirmos sem tentar realizar milagres possíveis, sem desafiar a modorra cotidiana que se instala no bojo das convenções, sejam elas temporais, sociais, morais, pessoais.

O que torna o espetáculo tão singular é o fato de ele não ceder ao dramalhão, caminhando pela via do humor quase pastelesco. Daí, sua dimensão arquetípica da condição de estagnação parecer um rabicho que se tenta esconder por sob o tapete, mas que não se pode conter de todo. Ele está sempre abanando frenético em algum cantinho. O tom de riso escancarado soa como uma provocação, como um desafio àqueles que desconfiam das regras impostas pelo jogo cênico comparadas ao jogo social.

E se essa comparação só se completa horas depois de terminada a peça, quando o espectador deixa decantar o espetáculo de prestidigitação divertida a que foi submetido, isso é mais um mérito do diretor. Nada ali é fácil ou gratuito e, dessa forma, ele cria um mecanismo reflexivo que busca combater a própria mazela retratada, a estagnação. Robert Wilson não é tolo e segue afiado, muito afiado. Não dá de barato uma compreensão que necessita obrigatoriamente do esforço do público para se realizar. E aí está sua atualidade e relevância.

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