Contra a nostalgia da truculência

Os 50 anos do AI-5 e as reminiscências da ditadura militar no Brasil de hoje são assuntos do Instituto Tomie Ohtake e do Paço das Artes

Luana Fortes
O fotojornalista Evandro Teixeira soube do golpe na madrugada de 1º de abril de 1964 e se infiltrou no Forte de Copacabana a convite de um amigo capitão. Lá foi tido como fotógrafo do Exército, fez retratos de militares com Castello Branco e registrou a imagem acima, que será exibida pela primeira vez na exposição AI-5 50 Anos - Ainda Não Terminou De Acabar (Foto: Evandro Teixeira, Divulgação)

Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O País está sendo varrido por fortes ventos. Essas frases poderiam se referir à atualidade, mas na realidade falam sobre 1968. O trecho consta de um pequeno box dedicado ao clima na capa do Jornal do Brasil de 14 de dezembro de 1968, dia seguinte à promulgação do Ato Institucional nº 5, que em 2018 completa 50 anos. O AI-5 marca o recrudescimento do regime militar brasileiro, instaurado em 1964. A capa do JB é a peça que recebe o público na exposição AI-5 50 ANOS – Ainda Não Terminou De Acabar, curada por Paulo Miyada, a partir de 4/9, no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo.

A exposição foi feita nos modelos de OSSO – Exposição-Apelo Ao Amplo Direito De Defesa de Rafael Braga, realizada em julho de 2017, e tem um statement político demarcado. “Precisamos relembrar o custo da ditadura”, diz Miyada à seLecT. O curador aponta a importância de discutir reminiscências do período militar na sociedade atual, especialmente antes de eleições presidenciais que têm como candidato o militar da reserva Jair Bolsonaro. A exposição fica em cartaz até 4/11. “Estamos vendo um tipo de nostalgia por uma truculência autoritária”, pondera. Sua ideia inicial era montar uma grande exposição em rede com outras instituições culturais, mas não obteve resposta positiva. Com receio de falta de cobertura midiática, devido ao viés afirmativo da exposição, o curador convidou seLecT a acompanhar o processo de produção da mostra e participar de uma série de entrevistas com artistas que integram a exposição, como Anna Bella Geiger, Antonio Manuel, Carlos Vergara, Carlos Zilio, Evandro Teixeira e Nelson Leirner.

  • Lute (Marmita), múltiplo feito por Carlos Zilio en 1967 (Foto: Vicente de Mello)
  • A Prisão (1968), de Claudio Tozzi (Foto: Divulgação)
  • Desenho da série Linha Dura Não Dura (1978), de Nelson Leirner (Foto: Silvia Cintra + Box 4)
  • Desenho da série Linha Dura Não Dura (1978), de Nelson Leirner (Foto: Silvia Cintra + Box 4)
  • Brasil Meia Meia, na Revista Ponto (1967), de Wlademir Dias-Pino (Foto: Divulgação)
  • Brasil Meia Meia, na Revista Ponto (1967), de Wlademir Dias-Pino (Foto: Divulgação)
  • Mesa Executiva (1975), serigrafia de Regina Silveira (Foto: Cortesia da Artista, Luciana Brito Galeria)
  • Mesa Executiva (1975), serigrafia de Regina Silveira (Foto: Cortesia da Artista, Luciana Brito Galeria)

Algumas das entrevistas foram filmadas e serão exibidas na mostra. “Na prática, é uma exposição-ensaio porque tem muito texto e documento”, diz Miyada. Mais do que um apanhado histórico, a mostra ilumina quais vestígios da ditadura são perceptíveis hoje como trauma, frustração ou reiteração. Entre as obras expostas estão a remontagem de Berço Esplêndido (1967), de Carlos Vergara, um registro do Totem-Monumento Ao Preso Político (1970), de Cildo Meireles, fac-símiles de páginas de um caderno inédito de Antonio Dias, registros da série Nós, de Regina Vater, e desenhos feitos na prisão por Carlos Zilio.

Os desenhos de Zilio foram pouco exibidos. Em 1967, o artista deixou de produzir trabalhos de arte, pois acreditava que a luta contra a ditadura deveria ser direta. Do movimento estudantil à militância política, acabou ferido e preso em 1970. Foi com os desenhos que realizou encarcerado que retornou à produção artística. Hoje, no entanto, o artista acredita ter subestimado a capacidade política da arte. “As circunstâncias que me envolveram não me deixaram perceber a potência da dimensão simbólica da arte”, diz em entrevista a Paulo Miyada.

Nelson Leirner acredita que muitos dos trabalhos que fez durante a ditadura militar não tiveram consequências. Sobre a série de desenhos Rebelião Dos Animais (1972), que fazia críticas ao regime por meio de metáforas, afirma: “Passou batido. Ninguém ligou. Nós queríamos que os trabalhos repercutissem, mas não repercutiram na época”. O artista demonstra frustração com o poder transformador da arte hoje. “Eu acho o que você está fazendo muito importante”, diz ao curador. “Ao mesmo tempo, acho que você vai se sentir frustrado, porque não vai causar nenhum impacto.” Em meio a risadas e creditando seu ceticismo à idade, Leirner termina sua conversa com Miyada com frases de boa sorte: “Espero que sua exposição seja censurada. Seria a grande alegria”.

  • Still da videoinstalação Los Durmientes (2014), do chileno Enrique Ramirez, faz referência a corpos lançados ao mar durante o governo ditatorial de Augusto Pinochet no Chile (Foto: Divulgação)
  • Retrato Oficial (2017), de Rafael Pagatini, apresenta detalhes de retratos dos presidentes militares (1964-1985) impressos sobre pregos de aço cravados (Foto: Divulgação)
  • Estado Transitivo (2014), de Lais Myrrha, mostra registro da construção do Palácio das Indústrias, que celebraria sete anos da "Revolução Militar no Brasil" em 1971, mas cedeu deixando 117 operários mortos ou desaparecidos (Foto: Divulgação)

Estado de emergência do Paço das Artes
Focada em artistas que produzem desde a abertura política dos anos 1980, a exposição Estado(s) de Emergência também trata de atualizar narrativas de ditaduras civil-militares. Com curadoria de Diego Matos e Priscila Arantes, a iniciativa é do Paço das Artes, mas, como a instituição foi desalojada da sua sede na USP, acontece na Oficina Cultural Oswald de Andrade de 1º de setembro até 15 de dezembro. “O mote da exposição é reescrever uma história e falar sobre o impasse político que estamos vivendo, que só tem possibilidade de ser resolvido com uma revisão da ditadura. E eu acho que a arte é imprescindível para isso”, afirma Diego Matos à seLecT. Complementando o olhar histórico de AI-5 50 ANOS – Ainda Não Terminou De Acabar, a mostra do Paço traz trabalhos contemporâneos que fazem remissões a regimes totalitários e manifestam desejo de transformação. Entre os 15 artistas presentes estão Clara Ianni, Gabriela Golder e Gilvan Barreto, que aparecem na reportagem Estado de Violência, na edição #40 da seLecT.

A exposição trata de um futuro possível. “O Brasil ainda não conseguiu identificar imagens de violência da época. Os trabalhos da exposição estabelecem imagens-chave para a ditadura e escancaram seu projeto estético”, conta Matos. A partir desse exercício de acessar a memória da ditadura, busca-se construir dissenso sobre a história oficial. O assunto também foi tratado pelo curador no curso Entre o Pretérito Imperfeito e o Futuro do Pretérito – Memórias da Ditadura Civil-Militar no Brasil e Resistências da Arte Contemporânea, no primeiro semestre, no Sesc Vila Mariana, SP.

Estado(s) de Emergência vem sendo pensada desde o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, e leva esse título, pois os curadores acreditam que a abertura política no Brasil ainda não foi concluída. “Ainda vivemos à sombra de alguns mecanismos dos Atos Institucionais, especialmente o AI-5”, defende Matos. 

Serviço
AI-5 50 ANOS – Ainda Não Terminou De Acabar
Instituto Tomie Ohtake
Av. Brg. Faria Lima, 201 – São Paulo
De 4/9 a 4/10
institutotomieohtake.org.br

Estado(s) de Emergência
Oficina Cultural Oswald de Andrade
Rua Três Rios, 363 – São Paulo
De 1º/9 a 15/12
oficinasculturais.org.br
pacodasartes.org.br

Artigo anterior:
Próximo artigo:

Nota de esclarecimento A Três Comércio de Publicações Ltda. (EDITORA TRÊS) vem informar aos seus consumidores que não realiza cobranças por telefone e que também não oferece cancelamento do contrato de assinatura de revistas mediante o pagamento de qualquer valor. Tampouco autoriza terceiros a fazê-lo. A Editora Três é vítima e não se responsabiliza por tais mensagens e cobranças, informando aos seus clientes que todas as medidas cabíveis foram tomadas, inclusive criminais, para apuração das responsabilidades.