Contracolecionismo e contracuradoria

Uma nova forma de curadoria e colecionismo não institucionalizados ganha força na era digital

Nathalia Lavigne

N° Edição: 27

Publicado em: 14/12/2015

Categoria: Colunas Móveis

Nathalia Lavigne

Jurgen Vermaire é um professor de história da arte holandês e colecionador de imagens de obras de arte. Seu perfil no Instagram (@jvermaire), com 15 mil seguidores, exibe uma galeria de fotos feitas por ele em alguns dos principais museus do mundo. Publicadas diariamente, as reproduções vêm acompanhadas de um texto descritivo e uma identificação-padrão: nome do artista, título do trabalho, ano, técnica, dimensões, nome do museu e a cidade.

O inglês Edward Sandling, também historiador da arte, começou há dez anos a formar uma coleção de objetos históricos encontrados aleatoriamente nas margens do Rio Tâmisa, em Londres. A prática, conhecida como mudlark, tem uma longa tradição na Inglaterra – e dá nome ao perfil criado por ele no Instagram para divulgar esses objetos (@london_mudlark).

Os dois exemplos revelam um tipo de colecionismo característico da cultura digital e podem ser entendidos como práticas de contracolecionismo. O termo aparece em Futuros Possíveis: Arte, Museus e Arquivos Digitais (Peirópolis), em um artigo de Cicero Inacio da Silva que discute o desaparecimento de arquivos na era digital e como registros pessoais podem futuramente se confundir como os registros oficiais. No caso de Vermaire e Sandling, e de outros perfis semelhantes encontrados no Instagram, interessa pensar no contracolecionador como alguém que contraria as metodologias tradicionais de uma coleção institucional, criando novos sistemas de organização. Em entrevista feita por e-mail, Sandling conta que sua intenção ao garimpar objetos no Tâmisa é achar peças históricas “livres” do discurso curatorial de instituições. “Objetos em museus já passaram por tantos processos de curadoria que é difícil vê-los como peças que um dia fizeram parte da vida de alguém, tiveram donos”, diz ele. Por outro lado, ao criar um perfil no Instagram para exibi-las publicamente, ele assume também o papel de curador desses objetos, talvez uma espécie de “contracuradoria”.

Foto de objeto histórico achado no Rio Tâmisa, exposta no perfil de Edward Sandling no Instagram

Foto de objeto histórico achado no Rio Tâmisa, exposta no perfil de Edward Sandling no Instagram

A interface do Instagram nas galerias individuais favorece uma abertura na forma como vemos as obras de arte. Com peças de estilos e períodos às vezes tão distintos e exibidas lado a lado e de forma aleatória, tal configuração remete a uma época em que as categorizações estritas do espaço do museu ainda não existiam, como nos antigos gabinetes de curiosidade do século 17. Não é em qualquer museu que é possível contemplar a imagem de um busto romano próximo a uma escultura de Anish Kapoor ou uma tela de Camille Pissaro, como vemos na página de Jurgen Vermaire.

Embora esse tipo de colecionismo não institucionalizado encontre precedentes em outros momentos da história da arte, o fenômeno ganhou força na era digital. Celulares smartphones e redes sociais aceleraram essa prática, especialmente no caso de fotos de peças de arte feitas no espaço do museu. Nos últimos anos, as principais instituições do mundo passaram a estimular todos os tipos de interação usando a fotografia. Tagueadas com o nome dos museus, tais imagens transformam-se em poderosas ferramentas de marketing.

É cedo para dizer se essas práticas de contracolecionismo ou a contracuradoria algum dia virão rivalizar com as institucionais. Mas, certamente, elas se tornarão mais frequentes, trazendo novos desafios na forma como os museus devem lidar com o tema.

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