Contradições do moderno

Mostra de Tarsila do Amaral no Masp apresenta visão panorâmica e olhar crítico sobre conflitos da modernização no Brasil

Leandro Muniz
Autorretrato (Le Manteau Rouge) (1923) e A Negra (1923), pinturas de Tarsila do Amaral (Fotos: Jaime Acioli, Romulo Fialdini)

Mostra de Tarsila do Amaral no Masp reúne mais de 90 obras, entre desenhos e pinturas, divididas em seis temas. Tarsila Popular aborda a cultura brasileira, suas relações com a arte moderna, suas tensões raciais e de classe, sua religiosidade, assim como mitos e mitologias populares que informam a produção da artista. Um catálogo com textos de autores como Irene Small e Renata Bittencourt amplia e atualiza a discussão sobre a obra de Tarsila e replica algumas das aproximações curatoriais na diagramação das imagens.

Longe de uma visão apenas celebratória do modernismo no Brasil, a mostra expõe traumas históricos que a obra de Tarsila sintomaticamente formaliza. Um momento-chave da exposição é o paralelo estabelecido entre as obras Autorretrato (Manteau Rouge) (1923) e A Negra (1923). Ambas foram produzidas no mesmo ano e compartilham características formais, como o enquadramento, a posição das mãos, o formato ovalado da cabeça ou as cores saturadas. As diferenças entre essas obras, no entanto, apontam conflitos de classe e violências históricas centrais para a análise do trabalho de Tarsila e do contexto de onde essa obra surge: enquanto no Autorretrato Tarsila aparece vestida em um luxuoso casaco vermelho, com os cabelos penteados para trás, bem ao estilo da época, A Negra apresenta uma mulher nua, com o corpo deformado – por suas diversas violências e coerções –, sem cabelo e descalça, ainda que a robustez do seu corpo sugira um bloco sólido e fechado em si.

Tarsila Popular é parte de uma série de exposições em que o Masp relaciona artistas consagrados e populares em uma revisão da historiografia oficial. Ainda que a insistência no assunto por vezes soe como uma estratégia populista, abrir espaço para essa discussão em esfera pública é uma proposta de autocrítica da instituição e de seus critérios de validação. Para além de uma visão panorâmica neutra, o museu apresenta uma visão crítica e complexa, que possibilita uma reflexão com nuances tanto das conexões internas da obra de Tarsila, suas relações com outras obras, quanto seus reflexos das estruturas sociais de onde surgiram – e que ainda persistem na sociedade brasileira.

Serviço
Tarsila Popular
Até 28/7
Masp
Av.Paulista, 1578 – São Paulo
masp.org.br

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