Coronaviagem

A pesquisadora Mariana Leme responde em agradecimento ao texto Coronavida, de Giselle Beiguelman

Mariana Leme
Paris momentos antes do anúncio de quarentena contra o corona vírus (Foto: Mariana Leme)

No início deste mês, tive a oportunidade de vir a Paris para fazer pesquisa de arquivo. Que lindo, não? — poder pesquisar numa época de desmantelamento das universidades públicas?

A cidade está em quarentena obrigatória desde segunda-feira, 16/3, e para sair de casa é necessário uma espécie de “salvo conduto” preenchido a próprio punho. São quatro os motivos permitidos: 1. deslocamento entre casa e trabalho, desde que seja indispensável e impossível de se realizar remotamente; 2. deslocamento para comprar itens de primeira necessidade (como comida e medicamentos); 3. deslocamento para obrigações familiares imperativas, como cuidar de pessoas vulneráveis ou ficar com as crianças e 4. rápidos deslocamentos, próximos ao domicílio, ligados à atividade física pessoal (esportes coletivos estão proibidos) ou ao bem-estar dos animais de estimação. Caso contrário, a multa é de 135 euros. Os reincidentes, ao que parece, serão presos.

À distância, acompanho a triste situação do Brasil, cuja herança colonial e escravocrata deixa tudo ainda pior. Além das cidades-fantasma e da incerteza generalizada sobre nosso futuro dentro de um sistema baseado na exploração e na acumulação, no Brasil esta crise se soma a tantas outras e certamente trará efeitos devastadores. A quarentena será vivida de maneira radicalmente diferente entre europeus e latino-americanos, entre brasileiros e brasileiros.

Em seu excelente artigo para a revista seLecT, Giselle Beiguelman questiona o otimismo de alguns, quando veem nesta crise uma desaceleração bem-vinda para o mundo contemporâneo frenético, cujo modo de vida opera 24/7. Diz ela, ironicamente, como já reproduzi no início deste texto: Que lindo, não?  

Segundo o site G1, uma empregada doméstica morreu depois de ser infectada pela patroa, que voltou à cidade de Miguel Pereira, no Rio, após uma viagem à Itália. Segue Beiguelman: … e as pessoas que não podem fazer o seu trabalho remotamente, como camelôs, faxineiras, trabalhadores da construção civil, montadores de exposição, frilas mil e o neo “lumpesinato digital” que abastece os Ifoods e Rappis da vida? E como assim se for inevitável sair, deslocar-se, “evitem usar ônibus e metrôs”? Oi? Em que planeta as pessoas que prescrevem essas regras vivem? Naquele que ainda é redondo e habito, isso é para poucos.

E o que fazer, num país como o Brasil, em que o número de pessoas vulneráveis aumenta a cada ano, com um recorte muito evidente de gênero e cor? Como seguimos naturalizando as milhares de pessoas que simplesmente não têm uma casa para onde ir, em caso de quarentena? Serão presas, como na França, para acabar contraindo tuberculose nas cadeias superlotadas?

 Continuarão nos quartinhos de empregada, obrigadas a conviver com patrões infectados? E os casos de violência contra mulher que aumentam durante os períodos de confinamento? 

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Para além das elites  abertamente racistas e violentas, há no Brasil uma classe média “esclarecida” que questiona seus privilégios, utiliza o transporte público e limpa sua própria sujeira (imagino que muitos dentre os leitores desta revista). Mesmo assim, a violência segue naturalizada: para citar apenas um exemplo contraditório, essas pessoas em geral moram em prédios com porteiro. O quão surreal é viver num lugar em que há alguém, disponível dia e noite, apenas para abrir a porta para você? 

A grande historiadora brasileira Emília Viotti da Costa afirmou no livro Coroas de glória, lágrimas de sangue que “crises são momentos de verdade”. Nesse sentido, a crise do coronavirus pode ser interessante para que se pergunte: até quando os brasileiros “esclarecidos” continuarão discutindo (e condenando) políticas de exceção, colonialismo, racismo etc., ao mesmo tempo em que vivem em seus apartamentos com porteiros? Como conseguimos — e conseguimos com assustadora facilidade — discutir temas sociais depois de passar sem qualquer constrangimento por pessoas em situação de rua? Como continuamos escrevendo livros e artigos (como esse), organizando exposições, criando trabalhos de arte etc., sabendo que milhões de pessoas não têm sequer água encanada para lavar as próprias mãos? Que lindo, não?

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Em termos epistemológicos, há muito os europeus vêm “contaminando” suas ex-colônias, estabelecendo as bases de um conhecimento científico, aceitável, neutro. Cito a artista Grada Kilomba no livro Memórias da plantação. Episódios de racismo cotidiano: A ideia de sujeira está relacionada à ordem. Suja está qualquer coisa que não esteja no lugar certo. Implicitamente, as coisas não são sujas por si mesmas, mas tornam-se sujas quando posicionadas em um sistema de ordenação que não tem lugar para elas. 

Assepsia e contaminação têm portanto relação direta com a hierarquia dos saberes. Na cultura ocidental, todo o tipo de conhecimento não-branco e/ou não-europeu é visto como “contaminado”, fora de uma fictícia neutralidade da pesquisa. (É claro que não estou dizendo que a Terra é plana, apenas concordando com Kilomba quando ela afirma que “o discurso acadêmico branco não é objetivo ou universal, mas dominante. É um lugar de poder”.)

É angustiante saber que, ao voltar para o Brasil, corro o risco de contaminar pessoas, se estiver levando comigo o vírus contraído na Europa. Por outro lado, esta viagem se deveu justamente aos referenciais intelectuais “limpos”, no sentido mobilizado pela a artista em suas Memórias da plantação. A tradição eurocêntrica — e particularmente francesa — informou minha trajetória, boa parte de minha visão de mundo e muito provavelmente meu objeto de pesquisa. Talvez tenha sido infectada na França e poderei escrever durante a quarentena. Que escárnio, não?

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