Coronavida 02

Estéticas do confinamento projetam desejos de mudança e a revolta

Publicado em: 24/03/2020

Categoria: Da Hora, Destaque

Apenas Lute, frases de Mariana Lacerda e Joana Amador projetadas por Paulinho Fluxus e Lucas Bambozzi na Ocupação 9 de julho. São Paulo, 12/3 (Foto: Arquivo pessoal)

Por todo País, em diferentes cidades, os janelaços se espalham e transformam o espaço público em uma performance coletiva e anônima. Nele se cruzam o “rufar das panelas”, os corais improvisados e as projeções nas fachadas. 

As insatisfações sobem, literalmente, pelas paredes e a empena se converte na nova ágora dos tempos da “coronavida”. O confinamento dá vazão a novas formas de ativismo e a estéticas construídas através das janelas. Não se trata de uma versão atualizada de The Rear Window (Janela Indiscreta, 1954), onde o protagonista, imobilizado em uma cadeira de rodas, decifra o seu entorno pela janela mediada pelas lentes da câmera. Se no filme de Hitchcock o movimento era de introjeção (a realidade entrava pela janela, através da câmera), o que acontece agora é o oposto. A lente do projetor extravasa o que está dentro para fora e catapulta o desejo de mudança e a revolta.

  • Coletivo Projetemos, São Paulo, 23/3 (Foto: @projetemos)
  • Coletivo Projetemos, São Paulo, 23/3 (Foto: @projetemos)
  • Coletivo Projetemos, São Paulo, 23/3 (Foto: @projetemos)
  • Coletivo Projetemos, São Paulo, 23/3 (Foto: @projetemos)
  • Coletivo Projetemos, Recife, 23/3 (Foto: @projetemos)
  • Coletivo Projetemos, São Paulo, 21/3 (Foto: @projetemos)
  • Coletivo Projetemos, São Paulo, 21/3 (Foto: @projetemos)
  • Coletivo Projetemos, São Paulo, 21/3 (Foto: @projetemos)
  • Coletivo Projetemos, São Paulo, 23/3 (Foto: @projetemos)
  • Coletivo Projetemos, Belo Horizonte, 23/3 (Foto: @projetemos)
  • Coletivo Projetemos, São Paulo, 21/3 (Foto: @projetemos)
  • Coletivo Projetemos, São Paulo, 21/3 (Foto: @projetemos)
  • Coletivo Projetemos, 21/3 (Foto: @projetemos)
  • Coletivo Projetemos, Rio, 21/3 (Foto: @projetemos)
  • Coletivo Projetemos, Rio, 21/3 (Foto: @projetemos)

Bat-sinal
“É como um bat-sinal”, me diz a fotógrafa Ana Ottoni. Nas histórias do lendário Homem-Morcego, esse facho de luz era o que a polícia de Gotham City dispunha para acionar o Batman e inspirou a projeção que celebrou o primeiro mês do Occupy Wall Street, em Nova York nos idos de 2011. No Brasil de hoje, o sinal luminoso funciona como uma espécie de grito de socorro e mecanismo de protesto, bastando aqui lembrar do genial Projeção na Consolação, que acontece desde o ano passado em São Paulo.

É difícil localizar quando começa esse tipo de ativismo, que combina a projeção em grande escala, no espaço urbano, com ação política. Contudo, ela passa certamente pela Homeless Projection, do artista Krzysztof Wodiczko, realizada nos anos 1980.

Nesse projeto, Wodiczko abordou a situação dos desabrigados, projetando nos monumentos da Union Square as imagens da população que seria erradicada da praça pela sua reurbanização.

Outras intervenções do artista poderiam ser citadas e vale lembrar, nessa arqueologia improvisada, das ações do CoLaboratório, VJ Alexis e uma ocupação da fachada interativa do WZ Hotel, do arquiteto Guto Requena, entre 2013 e 2014, que constituem momentos importantes da história desse tipo de apropriação da cidade como interface.

  • VJ Alexis e Fernão Ciampa. São Paulo, 18/3 (Foto: @vj.alexis)
  • Coletivo Projetemos. Brasília, 21/3 (Foto: @projetemos)
  • Coletivo Projetemos, Goiânia, 21/3 (Foto: @projetemos)
  • Coletivo Projetemos, Recife, 21/3 (Foto: @projetemos)
  • Coletivo Projetemos, Rio, 21/3 (Foto: @projetemos)
  • Coletivo Projetemos, Rio, 21/3 (Foto: @projetemos)
  • Coletivo Projetemos. Belém, 21/3 (Foto: @projetemos)
  • Coletivo Projetemos. Belém, 21/3 (Foto: @projetemos)
  • Coletivo Projetemos. São Paulo, 18/3 (Foto: @projetemos)
  • Coletivo Projetemos. São Paulo, 18/3(Foto: @projetemos)
  • Coletivo Projetemos. São Paulo, 18/3 (Foto: @projetemos)
  • Coletivo Projetemos. Recife, 18/3 (Foto: @projetemos)
  • Coletivo Projetemos. 18/3 (Foto: @projetemos)
  • Coletivo Projetemos. São Paulo, 18/3 (Foto: @projetemos)
  • Coletivo Projetemos. São Paulo, 18/3 (Foto: @projetemos)
  • Apenas Lute, frases de Mariana Lacerda e Joana Amador projetadas por Paulinho Fluxus e Lucas Bambozzi na Ocupação 9 de julho. São Paulo, 12/3 (Foto: Paulinho Fluxus)
  • Apenas Lute, frases de Mariana Lacerda e Joana Amador projetadas por Paulinho Fluxus e Lucas Bambozzi na Ocupação 9 de julho. São Paulo, 12/3 (Foto: Arquivo pessoal)

Um novo ativismo
Ocorre, porém, que o ativismo político de tomada das empenas pelas imagens no contexto atual é radicalmente distinto. Primeiramente porque envolve ações simultâneas em várias cidades, feitas por artistas de diferentes gerações. Elas podem ser acompanhadas no Instagram do coletivo Projetemos, que reúne mais de 100 VJs de todo o país. (Sigam!).

Contudo não é apenas o raio da ação dessas projeções o que se sobressai aí. É especialmente a situação de confinamento geral em que nos encontramos por conta da pandemia do coronavírus. É a coronavida que dá dimensão política às intervenções. Isso está obviamente ligado ao conteúdo e à plasticidade das mensagens, que ocupam das empenas às árvores, com chamadas críticas para os muxoxos inconsequentes do Presidente da República sobre a gravidade do “corona”, para o bem-estar social e para a importância de cuidar do outro.

O mais importante, no entanto, é que são imagens de infiltração, que reinventam os edifícios como arena compartilhada da cidade, mobilizando o espectador emancipado. Distante dos clichês sobre a dominação das mídias, nesse livro, o filósofo Jacques Rancière destaca o espetáculo artístico como agente de transformação. Por fazer pensar, demanda trabalho de síntese, o que está na base de fomentar nossa capacidade de formular ideias.

É como se presos, em casa, ressuscitássemos, via o espetáculo das projeções, a janela de Baudelaire, ponto de vista privilegiado para estar no mundo. Pelo menos, por ora, vale a regra do poeta: “Nesse buraco negro ou luminoso vive a vida, sonha a vida, sofre a vida”.

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