Coronavida 05

Um mês de isolamento social é suficiente para notar o apagão da memória e o novo normal do precário

Giselle Beiguelman

Publicado em: 15/04/2020

Categoria: Da Hora, Destaque

VJ Mozart. Recife, 11/4 (Foto: @projetemos)

Um mês de isolamento social. Trinta dias de uma interminável eterna quarta-feira. Acordo frequentemente sem saber em que dia da semana estamos. Os feriados da Páscoa chegaram e passaram sem que me desse conta de qualquer ruptura no fluxo das minhas tarefas. Fim de semana? Não sei mais o que é isso. Estou como aquele meme do Muppet que chega feliz ao quarto, depois de passar o dia inteiro na sala…

Falar ao telefone virou luxo. É um tal de gravar vídeo, mandar áudio e fazer meetings online… Ninguém mais sabe conversar sem se olhar? Lembro do historiador da ciência Nicola Nosengo que conta, em A Extinção dos Tecnossauros: a história das tecnologias que não emplacaram, como foi difícil fazer “pegar” a videochamada. Não por motivos técnicos, que já estavam resolvidos nos anos 1960, mas sociais. O sucesso do telefone tem sua razão tanto na capacidade de integrar no tempo o que estava distante no espaço, quanto permitir falar com os outros sem ser visto. Saudade dessa época.

A coronavida é audiovisual, muito embora qualidade de som e imagem tenham se tornado miragens perdidas no túnel da pandemia. O consumo de Internet disparou e algumas operadoras temem que a demanda, muito maior que a infraestrutura disponível, leve à falência da rede. É verdade que desenvolvi habilidades incríveis na quarentena. Sou capaz hoje de compreender frases completas a partir de uns poucos vocábulos tossidos no gargalo das conexões e imaginar movimentos que teriam ocorrido no auge de um congelamento da tela.

Tudo isso é um pouco traumático para uma pessoa que, como eu, dedicou bons anos de pesquisa às estéticas do erro. Assistir o mundo virando um imenso glitch não está sendo fácil. Mas há coisas mais difíceis e importantes vividas neste momento de apagão da memória. E isso diz respeito à normalização do precário. 

A começar pelos mitos do teletrabalho, que supõe o conforto de fazer tudo sem sair de casa, esquecendo o quão penoso é estar em 50 bilhões de meetings, disponível, alerta e minimamente apresentável e com a casa arrumada, a despeito do horário. Sinceramente, ou aderimos de vez ao trabalho de pijama, em qualquer situação, ou vamos assumir que estamos em regime (forçado) de office home, perdendo qualquer limite entre público e privado.

Não tenho dúvidas que isso diz respeito a um recorte social bastante específico e discuti os impactos do coronavírus de outros pontos de vista sociais em semanas anteriores. Contudo, abrange uma parcela significativa de profissionais liberais e de criação e, mais importante, faz parte de um pacote de “novo normal” que merece atenção. Até porque a consolidação desse modelo tende a penalizar ainda mais os que dele não podem participar.

Nota de esclarecimento A Três Comércio de Publicações Ltda. (EDITORA TRÊS) vem informar aos seus consumidores que não realiza cobranças por telefone e que também não oferece cancelamento do contrato de assinatura de revistas mediante o pagamento de qualquer valor. Tampouco autoriza terceiros a fazê-lo. A Editora Três é vítima e não se responsabiliza por tais mensagens e cobranças, informando aos seus clientes que todas as medidas cabíveis foram tomadas, inclusive criminais, para apuração das responsabilidades.