Coronavida 06

Coronavírus é narrado ao vivo pelos memes que transformam a Internet em deliciosa memeflix

Giselle Beiguelman

Publicado em: 30/04/2020

Categoria: Da Hora, Destaque

Quem vai contar a história dessa nossa coronavida são os memes. 

Difícil lembrar todas as surpresas que vivemos ao longo desses primeiros 40 dias de isolamento. Da adaptação ao isolamento social às declarações do presidente Bolsonaro, os memes fizeram a crônica do estado de exceção em que estamos. Nesse bem-humorado jornalismo à queima-roupa, o cotidiano, os novos costumes e a intensidade dos revezes políticos do país são registrados.

Não é exagero dizer que os memes se tornaram o formato de imagem característico da internet. Imagens irônicas e feitas para serem compartilhadas expressam uma cultura de apropriação e de consumo rápido, que adere a temas do momento. Os mais disseminados são os que trazem imagens acompanhadas de textos curtos em letras garrafais, tecnicamente chamados de Image-macro. Agregadores de linguagem, eles constituem o que o filósofo francês Jacques Rancière chamou de “frase-imagem”. Um formato em que o texto não funciona como complemento explicativo da imagem nem a imagem ilustra o texto, mas os dois elementos encadeiam-se para produzir um terceiro sentido.

O termo “meme” foi cunhado muito antes da internet pelo biólogo inglês Richard Dawkins, em 1976, em O gene egoísta. Mas alguns dos atributos que associou aos memes, especialmente quanto à forma de propagação e ao poder de contestação, explicam a popularização do conceito. Mais citada que lida, na teoria de Dawkins, o meme é uma unidade replicadora que se alastra por imitação, sempre sujeito à mutação e à mistura, e que funciona como resistência crítica. Isso porque nos dá o poder “de nos revoltar contra nossos criadores” e de “nos rebelar contra a tirania dos replicadores [os genes] egoístas”.

Foi nos anos 2000 que o termo ganhou força e a compreensão que temos na atualidade, explodindo nas redes sociais via o fluxo de compartilhamento, no Twitter, Facebook e Instagram. Nesse contexto, os memes expandiram-se, incluindo não só o mundo pop, mas também o da publicidade e o da política, instituindo outra forma de comunicação visual, desvinculada do universo evolucionista de Dawkins.

O artista Gustavo von Ha é um expert no assunto. Suas stories no Instagram se tornaram uma das janelas mais recorrentes da minha quarentena e de milhares. Ele estreia nesta semana série de vídeos sobre o tema na seLecTV, e comentou: “Memes não têm autoria. Se virou meme, é porque se espalhou. E nesse processo, perdeu o rastro. O que faz o meme é a circulação, sua capacidade de falar com todo mundo. É assim que a imagem vira meme e se apaga a autoria.”

Há um quê da lógica das “imagens pobres” discutidas por Hito Steyerl nesse processo. Steyerl contrapõe as imagens de baixa resolução, feitas para serem apropriadas, aos sistemas de representação dominantes do “capitalismo da nitidez”. 

O fato é que, para além das brincadeiras cotidianas com celebridades, torcidas de futebol, novelas e afins, os memes converteram-se em um noticiário paralelo, baseado em imagens. Se antigamente valia o slogan: “Aconteceu, virou Manchete”, associado à primeira revista homônima do grupo Bloch, hoje o correto seria dizer: “Aconteceu, virou meme”.

No contexto do coronavírus, em que ficamos atados às telas, dentro de casa, os memes transformaram a Internet em uma verdadeira “memeflix”. Siga o fluxo:

Memecrônica do “coronga”

Home office, doce home office
Os desafios das mães, o trabalho em casa e umas pitadas do machismo nosso de cada dia

O novo normal
A coronavida é a reinvenção permanente de tudo que aprendemos e, definitivamente, a quarentena não é para os fracos.

A meme-história da arte
O fulminante impacto do isolamento social sobre os museus desencadeou uma febre de retorno aos clássicos. A memelândia confirma.

Bolsomemes
Difícil de discordar da pesquisadora e pró-reitora da UFRJ Ivana Bentes quando afirma que Jair Bolsonaro é o meme-presidente. Seu negacionismo da pandemia colabora para a comprovação dessa hipótese. A Internet não perdoa.

A exoneração de Sergio Moro
Capítulo especial dos “bolsomemes”, a exoneração do ex-ministro Sergio Moro foi seguida de um inesquecível discurso presidencial que ninguém entendeu. Os memes traduziram e desenharam, não deixando margens para dúvidas.

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