Corpo Afetivo

Em retrospectiva coletiva, cinco artistas da primeira geração da Bolsa Pampulha expressam poéticas entrelaçadas

Paula Alzugaray
Teoria das Bordas (2007- 2015), instalação de Lais Myrrha em cartaz no Pivô (Foto: Ismael dos Anjos)

Cinthia Marcelle, Lais Myrrha, Marilá Dardot, Matheus Rocha Pitta e Sara Ramo encontraram- se em Belo Horizonte, no começo de suas trajetórias artísticas, em 2003. Estavam entre os dez contemplados na primeira edição da Bolsa Pampulha, programa de incentivo a artistas em início de carreira do Museu de Arte da Pampulha, então capitaneado pelo também jovem curador Rodrigo Moura. No ano em que realizaram residências artísticas acompanhadas por críticos, curadores e outros artistas, eles compartilharam o mesmo endereço, a Rua Apodi, 69. A casa comum, esse espaço doméstico onde se deram trocas artísticas, íntimas e interpessoais, é o título de uma exposição em que os cinco artistas se reencontram para mais uma rodada de interlocuções.

Apodi 69 tem cerca de 30 trabalhos que datam de 1998 a 2015. O mais antigo, Pares (1998), de Sara Ramo, está posicionado na entrada da exposição no Pivô, em São Paulo, como uma falsa pista. Esta não será uma narrativa cronológica, mas uma homenagem aos diálogos, debates e, finalmente, às duplicidades, ressonâncias e contaminações mútuas.

Interessante descobrir como Conversador (2005), fotografia de um cavalo sem cabeça, de Cinthia Marcelle, rebate no vídeo Pastoral (2005), de Matheus Rocha Pitta; e como as fotografias da série Lance de Dados (2001), deste, ressoam na videoinstalação de Marilá Dardot, em que duas pessoas compõem um poema a partir de um jogo de dados. Entre Nós (2006), realizado por Dardot para a 27ª Bienal de São Paulo, não está em Apodi 69. Não importa. Os trabalhos aqui expostos evocam lembranças de outros trabalhos, formando um painel retrospectivo de mais de 15 anos de caminhos-solo e compartilhados.

Obras realizadas em trios ou em duplas – como a encantadora Irmãs (2003), em que Marcelle e Dardot invertem as flores amarelas e roxas de dois Ipês – não estão entre as 32 obras expostas. Esses trabalhos estão no segmento documental da exposição, que reúne fotos, cartas e registros de tudo que fizeram juntos. Mesmo que as obras expostas sejam individuais, a convivência é evocada nas escolhas, feitas pelos próprios artistas, sem um curador convidado. Sem medo da repetição, os trabalhos de Apodi 69 se contaminam, se misturam como as areias da Teoria das Bordas (2007-2015), de Lais Myrrha. Como Entre Nós, de Dardot, a exposição é metáfora de um relacionamento em contínua construção.

Apodi 69 até 7/11, Pivô, Edifício Copan, Loja 54, Av. Ipiranga, 200, São Paulo

*Publicado originalmente na #select26

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