Crescer com sustentabilidade

Paula Alzugaray

Publicado em: 08/04/2013

Categoria: Reportagem, visuais

Sem transformar recorde de galerias internacionais em mercado para novos compradores estrangeiros, SP-Arte se consagra como espaço de agenciamento do fomento aos novos modelos de fazer e distribuir arte

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Legenda: A SP-Arte terminou neste domingo (7), na Bienal do Ibirapuera, em São Paulo. (Foto: divulgação)

“Árabes não querem mais comprar arte latino-americana via Europa. Está começando a se formar uma conexão direta entre mercados emergentes”, afirmou Juan Eyheremendy, pesquisador de estudos árabes e do Oriente Médio, na mesa que discutiu os mercados de arte do Brasil, da Ásia e da Europa, quinta feira (4), na Escola São Paulo. O evento organizado pela ABACT-ApexBrasil fez parte da programação da nona edição da feira interacional de arte contemporânea SP-Arte, que aconteceu de 4 a 7 de abril no Pavilhão da Bienal.

Mesmo que o prognóstico otimista de Eyheremendy ainda não configure uma realidade palpável nas feiras brasileiras, temos sinais claros de que existe aqui um mercado em vias de consolidação. A top britânica Kate Moss passeando com a família pelos corredores da SP-Arte 2013 é só uma tênue evidência disso. O interesse internacional sobre a cena artística brasileira veio antes, com o anúncio das galerias participantes nesta edição: da lista das 30 galerias de arte mais influentes do mundo, segundo a Art Review, 14 estiveram na SP-Arte. Esse dado situa a feira paulistana no terceiro lugar do ranking das feiras mais qualificadas do mundo, depois de ArtBasel e Frieze.

Tudo cresce no maravilhoso mundo das artes visuais no Brasil. Na SP-Arte, cresce a participação estrangeira – são 41 galerias contra 27 em 2012 e 14 em 2011; a área ocupada no Pavilhão da Bienal aumentou em 4 mil metros; e os preços das obras. Especula-se que esse ano obras chegaram a R$ 14 milhões. Esses números refletem a curva ascendente do setor. “O motor de propulsão desse crescimento são os novos colecionadores, que crescem ano a ano”, afirmou a pesquisadora Ana Letícia Fialho no debate sobre os mercados emergentes. A satisfação que os galeristas brasileiros e estrangeiros manifestam em relação aos resultados da feira confirmam que há cada vez mais gente colecionando arte no Brasil. “Para nós, tem sido uma grande satisfação participar das feiras brasileiras. Sentimos que tanto os colecionadores como o público em geral são extremamente receptivos e interessados na arte internacional. O Brasil vive um bom momento para nós”, diz Serena Cattaneo, diretora da filial parisiense da Gagosian Gallery, pela primeira vez em São Paulo.

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Legenda: Josef Aber, Variation on Homage to the Square, da PACE

Mas o que definitivamente não cresceu foi a presença de compradores estrangeiros nos corredores do Ibirapuera. O ingresso das gigantes Gagosian, Pace, David Zwirner e Hauser & Wirth – além de White Cube, que pisou no Brasil em 2012 e já fixou raízes com uma filial em São Paulo – não garante a presença de seus clientes estrangeiros por aqui. O galerista alemão Burkhard Riemschneider, da Neugerriemschneider, de Berlim, disse ter ficado muito excitado com a boa acolhida dos colecionadores locais, mas afirmou não ter visto americanos ou europeus. A organização da SP-Arte e a equipe Abact/Apex se encarregaram de trazer colecionadores convidados. Mas o Brasil ainda está longe de ser parada obrigatória no cada vez mais exuberante calendário de feiras internacionais de arte.

“Não vi novos visitantes estrangeiros. Também não vi os uruguaios, venezuelanos, peruanos que estavam em anos anteriores. Estiveram aqui colecionadores que já acompanham a arte brasileira há muito tempo, como o inglês John Austin”, disse Eduardo Brandão, da Galeria Vermelho. “Por que os compradores estrangeiros viriam para cá se, na realidade, nós polimos a nossa prata para levar para as feiras internacionais?”, continua ele, que participa de cerca de 12 feiras por ano. Apesar da atrativa isenção de pagamento impostos durante as semanas da SP-Arte e da ArtRio, que acontece em setembro, há diversos outros obstáculos, como tarifação alfandegária, que desincentivam o estrangeiro a comprar arte no Brasil.

Portanto, mesmo poliglota – 14 países participaram este ano –, as feiras brasileiras continuam vendendo em Reais. Um dos estandes mais cheios no sábado (6) foi o da pequena galeria costa riquenha Klaus Steinmetz Contemporary. Apesar de ser estrangeiro, Klaus Steinmetz representa o recifense Mozart Guerra. “O mercado da Costa Rica é muito pequeno, então sou forçado a participar constantemente de feiras internacionais para que minha galeria vá para a frente. O ideal é ir para feiras de mercados que estão passando um bom momento, e é o caso de São Paulo. Percebi que o melhor jeito de conquistar os paulistas era o de representar um artista forte brasileiro. E deu certo, estou vendendo um artista brasileiro para brasileiros”, disse ele.

Gregor Podinar, curador e galerista de Berlim, concorda. “Nós viemos aqui exclusivamente para vender e, até agora, a maioria dos compradores são brasileiros ou da América Latina. São Paulo é a maior cidade da América do Sul e aos poucos está se tornando a maior cidade artisticamente falando não só do Brasil, mas da América do Sul toda”, disse ele na sexta (5).

“É um mercado cheio de dinheiro e ambição de vender arte. E essa é uma boa combinação para nós galeristas. São raros os países assim”, disse Irene Abujatur, da Galeria AFA, Santiago, Chile. “É minha primeira experiência na feira paulistana mas, há uns 7 anos, o mercado e as políticas brasileiras tem atraído os estrangeiros principalmente a motivar os brasileiros a comprar”.

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Legenda: Carmela Gross, Entre Palavras, da Galeria Vermelho

Mas todo esse capital brasileiro, disponível e ávido por aquisições, também levanta muita preocupação. Segundo dados da pesquisa setorial ABACT/Apex 2011, os museus e instituições de arte são responsáveis por apenas 5% dos negócios das galerias brasileiras, contra 70% de colecionadores privados brasileiros. “Estão construindo grandes impérios individuais, mas e a história coletiva, como fica? Assistimos a um crescimento do setor, mas que patrimônio efetivamente ficará?”, indaga Agustín Pérez Rubio, curador independente espanhol, que há uma década acompanha a arte brasileira.

Pérez Rubio esteve no Brasil para trabalhar sobre a pesquisa de uma curadoria que realizará na galeria Luisa Strina, no segundo semestre. Aproveitou para fazer a viagem na semana da SP-Arte porque essa se transformou em situação propícia para encontros, aglutinando todos os agentes do sistema da arte brasileira. O mesmo ímpeto moveu MartinaWeinhart, curadora do Schirn Kunsthalle Frankfurt, da Alemanha. Também estiveram em São Paulo nessa concorrida semana, Tanya Barson, curadora da Tate Modern de Londres, que já frequenta a SP-Arte desde 2010, a colombiana María Inés Rodriguez, curadora chefe do MUSAC (Museo de Arte Contemporáneo de Castilla y León), na Espanha, e o curador celebridade Hans Ulrich Obrist, que inaugurou a mostra O Interior está no Exterior, no SESC Pompéia e na Casa de Vidro (veja entrevista exclusiva em http://www.select.art.br/article/da_hora/fala-hans-ulrich-obrist).

No ciclo de entrevistas que o curador Adriano Pedrosa realizou com artistas, colecionadores e curadores, María Inés Rodriguez falou sobre a recepção do mercado latino americano na Europa e argumentou que é preciso que deixemos de ser tratados como um nicho. “Não somos um mundo a parte. Alguns críticos fizeram isso, como se a obra latino americana fosse um gueto a parte do mundo. Fazemos parte sim do mundo e os trabalhos (de artistas da América Latina) dialogam com o mesmo mundo globalizado que vivem os artistas londrinos, por exemplo”, afirmou. “É importante que nós, como curadores latino americanos, reunamos também bons artistas nos nossos museus. Acho fantástico que a TATE Modern tenha um programa sólido da nossa arte, mas que o MAM paulista também o tenha, para que a nossa população também tenha acesso a essa arte”, continuou ela, tocando na ferida do sistema de arte brasileiro: a deficiência de programas de aquisição.

Doações e aquisições

Sem orçamento e uma política sólida de aquisições, algumas instituições públicas e privadas brasileiras tem, na SP-Arte, um momento de excelência. Desde 2009, a feira promove, junto a iniciativa privada, doações de obras a museus de todo o Brasil. Todo ano, o MAC USP, o MAM SP e a Pinacoteca vem recebendo doações do Banco Espírito Santo, da colecionadora Cleusa Garfinkel e do Shopping Iguatemi. Na manhã de quarta feira 3, dia de preview para convidados, os diretores e curadores dessas instituições foram os primeiros a pisar na feira, a fim de selecionar as obras que seriam doadas para suas respectivas instituições.

Felipe Chiamovich, curador do MAM SP, escolheu a obra Transgeométrica III (2013), de Assumed Vivid Astro Focus (Casa Triângulo), doada pela colecionadora Cleusa Garfinkel através do Núcleo de Colecionadores do museu.

Ivo Mesquita, director da Pinacoteca do Estado de São Paulo escolheu duas fotografias de Fabiano Rodrigues (Galeria Logo), que foram doadas pelo Shopping Iguatemi. As fotos integram a série em que o artista skatista se auto-retrata fazendo manobras dentro da Fundação Bienal de São Paulo. Também doadas para a Pinacoteca, as obras Abrigo (1996), Renda Cabogó (2012) e Cuco, o Livro da Memória II (2012), de Brigida Baltar (Nara Roesler).

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Legenda: Mozart Guerra, Alvo, da Klaus Steinmetz

Tadeu Chiarelli, director do MAC USP deu vasão ao interesse que a instituição atualmente alimenta pela arquitetura de Oscar Niemeyer, ao escolher a fotografia Itamaraty, de Candida Hoffer (Galeria Leme), doada pela Fundação Edson Queiroz, do Ceará, e uma pintura de Hildebrando de Castro (galeria Oscar Cruz) representando também o edifício do Itamaraty, adquirida pelo Iguatemi. “A mudança da instituição para o prédio do Niemeyer certamente acendeu nosso interesse por trabalhos que se relacionam com sua arquitetura”, disse Chiarelli, que no sábado 6 inaugurou uma nova sala do novo MAC com a mostra O Agora, o Antes – Uma Síntese do Acervo do MAC. O video Una vez Más, de Regina Silveira (Luciana Brito Galeria) também foi doada pelo shopping paulistano ao MAC. E, finalmente, a pintura Cachoeira (2013), de Tatiana Blass (galeria Millan), foi adquirida pelo Iguatemi e doada ao MASP.

Em um evento tão mercadológico, em que o protagonismo não é necessariamente do artista, fazem-se de extrema importância as premiações aos artistas – que afinal são a origem de toda essa cadeia que gera as negociações milionárias. O 2º Illy SustainArt Brazil (R$ 20 mil) foi vencido pela artista Waléria Americo (galeria Laura Marsiaj); a fotografia da série Fotocromáticos (2012), de Marcelo Moscheta (Galeria Leme) levou o prêmio aquisição da revista ArtNexus; e Rodrigo Braga e Marcia Xavier são os ganhadores das Bolsas de Residência Artística ICCO-AP-Arte 2013. Esta bolsa inaugura o bem-vindo Programa de Residências do Instituto de Cultura Contemporânea, que visa oferecer bolsas para que artistas e curadores tenham um tempo de vivência no exterior para reflexão, estudos, criação e/ou networking, favorecendo a expansão de seu trabalho.

Com esse tipo de iniciativa, a feira de arte, que roubou a cena das bienais e hoje se consagra como o espaço de trocas por excelência, dá sustentabilidade para o trabalho do artista e cumpre um importante papel de formentadora de redes.

O próximo desafio para a SP-Arte, no entanto, é intensificar a visitação e a participação institucional. “Essa é a primeira vez que participamos da feira. Há um grande interesse pelo trabalho do Genilson Soares que vem sendo redescoberto pelo público. Mas sinto falta de representação institucional, gostaria que curadores e pesquisadores de instituições nos procurassem mais, sinto essa diferença em relação as feiras internacionais que participamos como a Arco e a artBO de Bogotá”, afirma a galerista Jacqueline Martins.
“As galerias estrangeiras estão interessadas em formar um nicho onde possam vender seus artistas para compradores brasileiros. Mas seus colecionadores ou clientes, que poderiam tomar contato com a arte brasileira, não vêm ao Brasil para ver como é a arte brasileira. É preciso trazer um público internacional interessado em conhecer a arte brasileira para o Brasil. Acho que isso o que deve começar acontecer daqui pra frente”, diz Daniel Roesler, diretor da galeria Nara Roesler.

Existe um consenso sobre o fato de que o aumento da participação de galerias estrangeiras em feiras brasileiras é benéfica porque repercute o nosso mercado internacionalmente. No entanto, para que o artista brasileiro e suas galerias possam, efetivamente, se beneficiar da internacionalização do Ibirapuera, é preciso um aumento consistente na venda de bilhetes de primeira classe durante os meses de abril e setembro com destino a São Paulo e o Rio de Janeiro.

*Colaboraram Nina Gazire e Marcos Diego Nogueira

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