Crimes Perfeitos

Rogério Reis expõe na Marsiaj Tempo Galeria instalação que processa a violência do Rio de Janeiro e lança livro que joga com bom humor para refletir acerca da relação entre público e privado

Eder Chiodetto

N° Edição: 26

Publicado em: 16/10/2015

Categoria: A Revista, Crítica

Detalhe da instalação Micro-ondas (2004), que remete ao expediente do tráfico carioca de queimar suas vítimas (Foto: Cortesia do artista)

Capture sua vítima. Coloque-a desacordada dentro de pneus de carro ou caminhã numa área deserta e longe do alcance da vista de abelhudos. Ateie fogo. Caso ela ainda esteja viva, morrerá nos primeiros minutos ao inalar a fumaça extremamente tóxica que será liberada na queima. É possível que antes disso ela acorde, se debata, peça clemência, aquilo de sempre. Mas logo os gritos cessarão. Então, mais alguns minutos bastarão para que a altíssima temperatura alcançada na treta praticamente não deixe vestígios do corpo do infeliz. Tecidos e ossos derreterão e sumirão como num passe de mágica. Será muito difícil alguém reconhecer o que terá sobrado entre os pedaços de borracha queimada. Micro-ondas. Crime perfeito.

A crueldade embutida no crime que ficou conhecido como micro-ondas, cujo modus operandi acima descrito pode ser facilmente encontrado em sites na internet, foi um dos motes que levaram o fotógrafo carioca Rogério Reis, 61, a construir a instalação Micro-ondas (2004), com 24 fotografias em backlight, aplicadas em pneus interligados por cabos elétricos. Integrada ao acervo da Maison Européenne de la Photographie, em Paris, a instalação poderá ser vista na Galeria Tempo Marsiaj, no Rio de Janeiro, a partir de 17 de outubro.

Reis trabalhou por muito tempo na imprensa carioca como fotojornalista. Vinte anos após deixar de atuar nas redações de jornais e 14 após lançar o livro Na Lona (Editora Aeroplano) – com foliões fantasiados no Carnaval carioca –, que o projetou para fora do circuito do fotojornalismo, o profissional segue investigando particularidades ligadas à rotina da cidade do Rio de Janeiro. O hábito de farejar e encontrar notícias quentes que rondam temas como a violência e a relação entre público e privado é um dos seus eixos de pesquisa.

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Detalhe da instalação Micro-ondas (2004) (Foto: Cortesia do artista)

Se a centelha que ilumina suas obras surge no “purgatório da beleza e do caos” da paisagem carioca, é fato que, após um processo de decantação gerado pelas suas estratégias poéticas, a violência endógena e temas ligados à identidade ganham potência universal. E esqueçamos aqui o relato objetivo e a fotografia direta empregada na sua antiga prática. Uma revisita a determinados períodos e a artistas ícones da história da fotografia o acompanha em suas transgressões ao código fotográfico.

Doze das 24 imagens que integram a instalação Micro-ondas foram realizadas com a colaboração do amigo e ex-preso político Chico Andrade: ambos colocaram fogo em pneus para simular a ação dos criminosos. As outras fotografias, em preto e branco, foram recuperadas do acervo dos tempos de redação: imagens de coberturas de crimes que o jovem fotógrafo realizava nos plantões de madrugada pela periferia do Rio.

Algumas dessas coberturas da pauta de crimes foram feitas em parceria com o jornalista Tim Lopes, assassinado em 2002, na favela da Vila Cruzeiro, por um grupo de traficantes. Após ser torturado, Lopes foi colocado no micro-ondas.

“A obra não fala somente desse crime em particular, mas de toda uma situação de violência. É uma espécie de acerto de contas com o meu entorno. Dois anos antes do crime contra o Tim Lopes, meu amigo e músico Marcelo Yuka ficou paraplégico ao levar quatro tiros pelas costas de bandidos que roubavam um carro. Eu mesmo tive um episódio em que um ladrão tentou me roubar o carro, me deu um tiro de revólver que por sorte não me atingiu”, diz Reis.

Ninguém é de ninguém

No vernissage, além da exibição de Micro-ondas, haverá também o lançamento do livro Ninguém É de Ninguém (editoras Olhavê e Edições de Janeiro), com 41 imagens da série homônima, realizada nas praias cariocas entre 2011 e 2014, geralmente nos domingos de verão com a areia lotada de banhistas. Integrada aos acervos da MEP, Paris e do Museu de Arte do Rio (MAR), Ninguém É de Ninguém joga com ironia e bom humor – ingredientes que tanto faltam na fotografia nacional – para refletir acerca da relação entre público e privado, direito de uso de imagem e temas correlatos. “Me lembro dos anos 1970, quando íamos para a praia, no extinto píer de Ipanema, em plena ditadura militar.

Os amigos se encontravam, rolava um baseado. Caetano e Gal sempre apareciam. Lembro de ver Alair Gomes fotografando na orla. Quando alguém aparecia com uma câmera, era saudado. O fotógrafo era uma espécie de herói”, lembra Reis.

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Foto da série Ninguém é de ninguém (2011-2014) (Foto: Cortesia do artista)

“Hoje em dia, tirar uma câmera na praia e apontar para alguém pode ser uma complicação danada. Investi contra isso. Comprei uma lente de foco automático superveloz, me vesti como gringo e fui enfrentar essa multidão. Quase sempre consegui sair ileso, mas numa das vezes um cara ficou tão incomodado ao me perceber fotografando-o que em minutos ele já havia promovido a ideia de um linchamento contra mim. Como eu já conhecia várias pessoas e alguns guardas, escapei”, conta o sobrevivente fotógrafo.

Inspirado pelas estratégias dos artistas John Baldessari e Lászlo Moholy-Nagi – como na obra The Olly and Dolly Sisters (1925), do último –, Reis passou a esconder rostos “roubados” furtivamente com bolinhas coloridas. “As tarjas utilizadas pela imprensa para proteger as identidades dos menores e suspeitos de crimes sempre me remeteram ao humor provocante do Baldessari”, conta Reis.

Essa multidão sem identidade foi declarada finda por parecer um coletivo de autômatos. Curioso perceber que, sem as expressões faciais, os gestuais parecem todos repetitivos, robotizados, sem o ânimo que nos diferencia uns dos outros. Porém, contra esse pano de fundo terrível e paralisante – que na verdade engloba um debate ainda muito malfeito que contrapões direito de uso de imagem com a viabilidade da prática do fotodocumentarismo, por exemplo –, a série investe em imagens que alegram os sentidos, devido à nossa memória afetiva das imagens familiares de praia, mas, sobretudo, por conta do uso divertido das bolinhas coloridas que criam uma camada pictórica envolvente e harmônica.

Conseguir unir uma reflexão sobre caminhos obscuros do comportamento contemporâneo com uma estética que seduz para dentro da obra antes de revelar sua visão sombria é um mérito de Ninguém É de Ninguém. Mostra que o trânsito entre a redação de jornal e as paredes do museu foi feito de forma muito bem estruturada por Rogério Reis.

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