Cristo recrucificado

Monumento urbano que já foi assunto de concurso público com critérios técnicos passou a ser negócio de ocasião

Angélica da Moraes

N° Edição: 2

Publicado em: 25/10/2011

Categoria: A Revista, Crítica

Tags: ,

Há breguice atávica no entendimento das chamadas autoridades municipais, estaduais ou federais sobre o que é arte urbana. Isso na melhor das hipóteses. Há quem veja curiosidades contábeis nesses monstrengos oficiais. Como em 1995, quando o então prefeito paulistano Paulo Maluf resolveu homenagear Ayrton Senna com uma barafunda de bronze semelhante a uma rolha de vinho esbagaçada. O equívoco foi colocado na entrada do túnel de igual nome, que Maluf mandou fazer sob o Parque do Ibirapuera.

Era para ser a imagem do imbatível campeão mundial de Fórmula 1 dentro de seu carro. Confiada a alguém com talento escultórico nulo, a homenagem virou xingamento. Cálculos independentes estabeleceram que, com o valor pago pela coisa assim obrada, dava para comprar três grandes esculturas em aço corten de Amilcar de Castro, um dos maiores escultores brasileiros.

A rolha esbagaçada continua lá, na entrada do túnel que teria custado o dobro do Eurotúnel, sob o Canal da Mancha. Afinal, na lógica da administração pública nacional, a contabilidade obedece a critérios peculiares. Em junho passado, o presidente do Peru, Alán García, inaugurou uma atarracada cópia, em fibra de vidro, do Cristo Redentor carioca, no trecho peruano da rodovia Transpacífica, que liga o Brasil ao litoral oeste do continente. Novamente usou-se mprovisação kitsch em arte pública. Aperto o botão delete para essa estátua, doada pela construtora Odebrecht, multinacional brasileira responsável por extensos trechos dessa rodovia.

O Cristo Redentor original, maior obra art déco do mundo, foi desenhado pelo artista brasileiro Carlos Oswald. O escultor francês Paul Landowski esculpiu o rosto e as mãos da imagem, construída pelo engenheiro Heitor Costa. Tudo isso após concurso público realizado em 1923, com critérios técnicos. Um século depois, as coisas involuíram. Monumentos públicos, agora, são negócios de ocasião.

Publicado originalmente na #select2

Nota de esclarecimento A Três Comércio de Publicações Ltda. (EDITORA TRÊS) vem informar aos seus consumidores que não realiza cobranças por telefone e que também não oferece cancelamento do contrato de assinatura de revistas mediante o pagamento de qualquer valor. Tampouco autoriza terceiros a fazê-lo. A Editora Três é vítima e não se responsabiliza por tais mensagens e cobranças, informando aos seus clientes que todas as medidas cabíveis foram tomadas, inclusive criminais, para apuração das responsabilidades.