Cultura com as próprias mãos

Edição #39 da seLecT volta-se para a ineficiência de políticas públicas destinadas à cultura no Brasil

Paula Alzugaray
Detalhe de foto da série Missão Francesa (2017), de André Penteado. No trabalho reverberam as crises dos sistemas institucionais da arte, da cultura e da educação (Foto: Cortesia do Artista)

Marielle Franco apresentava-se como “cria da Maré”. Iniciou sua vida política em projetos educacionais e organizações de defesa da cidadania e da democracia do Complexo da Maré, na zona norte do Rio de Janeiro. A trajetória da ativista social é uma prova presente de que o acesso à Cultura é imperativo para a construção de vidas e de futuros melhores. Marielle teve a vida roubada, mas não o seu projeto. Dedicamos a seLecT #39 à continuidade de seu projeto e àqueles que tentam fazer frente à violência social praticada por um Estado que não cuida e não valoriza sua potência cultural.

A ineficiência das políticas públicas dedicadas à história cultural é abordada nesta edição nas séries fotográficas de André Penteado, que compõem o Portfólio e a capa. Penteado investiga a crise do sistema institucional da arte e da educação, manifesta em projetos interrompidos e abandonados. Seu trabalho é um retrato do que a pesquisadora Mirtes Marins de Oliveira explora em seu texto: a descontinuidade (leia-se morte lenta) de cursos de arte e design no Brasil, em razão da visão da oferta educacional como produto e de seu público como consumidor.

Sobre a cruel lógica da catraca, que monetiza instituições culturais e reduz a arte a entretenimento ou a bens de luxo – o que corrobora a extinção de cursos que não respondem ao lucro –, cabe apontar programas de resistência, como o do Canteiro Aberto Vila Itororó, tema da Curadoria desta edição.

Seja na construção de um centro cultural que busca reinventar as relações com seu público – deixando de vê-lo como alvo para torná-lo participante ativo –, seja na continuidade de um curso de artes, seja na formação e preservação de acervos de museus, estamos buscando aqui o que significa ser “público”, ou que pode, verdadeiramente, ser reconhecido como ações de utilidade pública.

Política pública não é ampliar a atuação dos departamentos de marketing de empresas privadas, que já ditavam o que era culturalmente relevante e agora começam a fornecer diretrizes para as atividades educacionais. Não é restringir a circulação de obras de arte aplicando taxações proibitivas. Não é transformar áreas habitacionais em polos de turismo cultural, ou desapropriar instituições culturais com promessas não cumpridas de atender a demandas urgentes de outros setores da sociedade. Este foi o caso do Paço das Artes, que perdeu sua sede na Cidade Universitária, em São Paulo, em março de 2016, para dar lugar a uma fábrica de vacinas contra a dengue – que logicamente nunca saiu do papel. Se essa instituição sobrevive hoje, mantendo sua grande influência e relevância no sistema de arte contemporânea, é graças ao corpo a corpo de sua equipe – reduzida, mas engrandecida pelo papel que tem em mãos.

Vamos falar aqui da ausência de política cultural no Brasil. Mas também, e principalmente, de quem faz cultura com as próprias mãos.

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