Curadores contestam classificação etária no MASP

Museu inaugura Histórias da Sexualidade proibida para menores de 18 anos; classe artística organiza manifestação

Márion Strecker
Moema (1866), óleo sobre tela de Victor Meirelles (Foto: Alexandre Cruz Leão)

Nesta sexta-feira, 20/10, o MASP inaugura a exposição Histórias da Sexualidade, projeto em que o museu vinha há dois anos trabalhando, inclusive com seminários públicos. Os curadores são Adriano Pedrosa, diretor artístico do museu, Camila Bechelany, curadora assistente do MASP, a antropóloga Lilia Schwarcz e o mexicano Pablo Leon de la Barra, que atualmente é curador do MAC Niterói.

Em reação à onda de ataques conservadores que exposições de arte e artistas têm sofrido no Brasil nas últimas semanas, um grupo de artistas, intelectuais, galeristas e advogados, intitulado Todos Pela Arte, prepara uma manifestação para hoje, que deverá acontecer a partir das 19h no vão livre do MASP, na avenida Paulista.

A mensagem principal será contra a censura, contra as calúnias de que artistas têm sido vítimas e em defesa da liberdade de expressão. Mas parte dos integrantes do movimento é contra também a classificação etária que pela primeira vez na história o MASP resolveu adotar. Nessa exposição, menores de 18 anos não poderão entrar, nem acompanhados dos pais.

O que teria justificado a classificação, definida pelos advogados do museu, é o fato de haver entre as obras cenas de violência, sexo explícito e nomenclatura não apropriada.

“Antes, colocávamos um aviso: Esta exposição tem imagens que podem ser impróprias para menores”, disse o curador Adriano Pedrosa para seLecT. “Agora, com todo esse debate, a gente olhou para a lei e foi legalista, ou seja, aplicamos o que de fato está escrito lá naquele guia”. O guia a que ele se refere é o de classificação etária do Ministério da Justiça, usado em cinema e espetáculos e aplicável também a “outras apresentações públicas”.

A antropóloga Lilia Schwarcz, questionada pelo público sobre essa proibição, ao final de palestra no Instituto Moreira Sales, na última quarta-feira, contou que a alternativa que teriam à probição seria de cortar a exposição.

“Nossa atitude seria abrir mão de quase um terço da exposição ou transformar a idade numa questão política. Eu estou querendo aproveitar para transformar a idade numa questão política. Nós vivemos num momento muito moralista, muito normativo, em que nós preferimos transferir a culpa para os indivíduos e para as instituições.

O MASP jamais proibiu exposições. Há de se estranhar que esteja proibindo agora. Em vez de apontar a culpa para as instituições, é hora de a gente como sociedade reagir. Acho que a pressão para que a censura não seja proibida para menores de 18 é benéfica para o MASP.”

Outro ponto mencionado pela antropóloga foi o trabalho educativo que vinha sendo planejado pelo museu. “Quando algumas pessoas dizem que o MASP tem que entender que esta exposição é muito importante para alunos do ensino médio, gente, nós temos um grupo de mediação que foi preparado para receber esses estudantes. Nós estamos abrindo mão disso por quê? Porque a opção era o seguinte: ou fazíamos ou a gente perdia a exposição e a pesquisa.”

Lilia aproveitou a oportunidade para criticar a sociedade brasileira. ”A nossa sociedade vive tão histérica que na falta de problema a gente cria outros. Por favor, vão ver a exposição. Quando a gente vê uma exposição a gente tem condições de gostar, de não gostar, de gostar de uma parte, mas a gente viu. Se a gente culpabilizar uma instituição, a gente não vai culpabilizar o que está acontecendo com a nossa sociedade. As pessoas não estão na rua, nós acabamos de não julgar o Aécio, olha o que o Temer fez com a questão da escravidão agora, uma vergonha. Nós que achávamos que os direitos sociais e civis estavam garantidos, não estavam. É com muita tristeza que nós curadores do MASP tivemos de avaliar uma exposição com advogados. Em que mundo a gente vive quando os curadores têm de passar a limpo sua exposição não por critérios artísticos, mas por critérios moralistas e normativos? “

Moacir dos Anjos, curador e pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, é outra voz que se levanta em defesa do MASP e contra essa proibição. “Acho que o MASP deve ter total apoio por uma exposição sobre as histórias da sexualidade, feita com cuidado, pesquisa e excelência. Uma mostra que todos deveriam ver. Porém, a autoclassificação da mostra como imprópria para menores de 18 anos restringe seu acesso de tal maneira que exclui justamente o público que mais a aproveitaria: o público adolescente/estudantil que está em processo de formação de olhar e formação de valores. O MASP alega que foi aconselhado por um grupo de advogados, como forma de se precaver contar possíveis autuações e reclamações. Como é a maior restrição etária possível pelas leis brasileiras, é claro que ela bloqueia ações legais, embora ainda assim não impeça que os mais conservadores ou abertamente fundamentalistas reclamem que o museu esteja tematizando a sexualidade. Acho excessivo. Em um país onde o sexo consensual pode ser legalmente praticado aos 14 anos, onde se pode casar (com consentimento dos pais) aos 16 anos e onde se pode (por enquanto, ao menos) escolher o presidente pelo voto com a mesma idade, proibir o acesso à exposição para menores de 18 anos me parece, em alguma medida, uma capitulação àquelas forças mais regressivas que estão operando com violência no país.”

O curador de Recife não é contra haver autoclassificação. “A autoclassificação existe e deve ser usada. Mas na medida apropriada, com bom senso. Existe na decisão, como disse, uma inescapável dose de subjetividade. E o acossamento dos movimentos retrógrados parece ter assustado o MASP. Fosse há 6 meses, certamente seria outra a autoclassificaçao”, comenta Moacir dos Anjos.

Aos adolescentes que estão curiosos e quiserem se informar sobre o tema, resta esperar que seus pais comprem o catálogo e levem para casa, para ver reproduções das obras que estão no museu. A exposição do MASP ficará em cartaz até 14/2/2018.

  • Guanaroca - Esculturas Rupestres (1981), impressão digital sobre papel de Ana Mendieta (Foto: LLC e Galerie Lelong)
  • Eu amo te vencer (1969-70), acrílico sobre tela de Dorothy Iannone (Foto: Cortesia Peres Projects)
  • São Sebastião na coluna (circa 1500-10), óleo sobre tela de Pietro Perugino e ateliê (Foto: João Musa)
  • Sem título (gay), da série Caras Surdos (2003), jato de tinta sobre papel de Dean Sameshima (Foto: Cortesia Peres Projects)
  • Rápido, rápido, alguém está vindo (1830), xilogravura sobre papel de Eisen (Foto: Ronin Gallery)
  • Dia de Ano Novo (1835), xilogravura sobre papel de Eisen (Foto: Ronin Gallery)
  • Angélica acorrentada (1859), óleo sobre tela de Jean-Augueste-Dominique Ingres (Foto: João Musa)
  • Himeneus travestido assistindo a uma dança em honra a Príapo (1634-38), óleo sobre tela de Nicolas Poussin (Foto: Alexandre Cruz Leão)
  • Mulher enxugando a perna esquerda (1903), carvão e pastel sobre papel de Edgar Degas (Foto: João Musa)
  • Obama Lady #5 (2012), serigrafia sobre papel de Assume vivid astro focus – AVAF (Foto: Divulgação)

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