Da natureza-morta ao samba carioca

Verbetes da Enciclopédia e projetos do Itaú Cultural preservam a memória social a partir dos alimentos e sua história

Da redação

N° Edição: 46

Publicado em: 19/05/2020

Categoria: A Revista, Acervos Itaú Cultural, Destaque

Maxixão da Roça do Velho Chico, mapeado no livro Cozinha Sergipana (2017-2018), de Paloma Naziazeno (Foto: Divulgação)

O alimento aparece na história da arte e da cultura como forma de agregar pessoas e ultrapassar barreiras geográficas e econômicas. A relevância do assunto é expressa em projetos do instituto e em verbetes da Enciclopédia.

VERBETES

Natureza-morta (1905), de Pedro Alexandrino (Foto: Romulo Fialdini)

Natureza-morta
Objetos inanimados são representados na pintura desde a Idade Média, em geral como fundo de pinturas religiosas de cunho realista. Mas é somente em meados do século 16 que a natureza-morta emerge como gênero artístico independente em obras de pintores como Pieter Aertsen (ca.1508-1575) e Jacopo Bassano (ca.1510-1592). (…) Caravaggio (1571-1610) foi um dos primeiros a desafiar a hierarquia imposta pelos teóricos da época, que viam a natureza-morta como tema menor. (…) É com Paul Cézanne (1839-1906) que o gênero ganha novas dimensões, imortalizado pelas composições com maçãs executadas a partir de 1870. Na história da arte brasileira, as composições com frutas e vegetação de Albert Eckhout (ca.1610- ca.1666) encontram-se entre as primeiras naturezasmortas realizadas. (…) Com os artistas reunidos no Núcleo Bernardelli e Grupo Santa Helena, nas décadas de 1930 e 1940, o gênero ganha nova importância na arte brasileira.

Floresta (1929), de Tarsila do Amaral (Foto: Romulo Fialdini)

Antropofagia
Em 1928, a pintora Tarsila do Amaral oferece a Oswald de Andrade, como presente de aniversário, uma de suas recentes pinturas, sem saber que ela viria a ser a propulsora de uma das mais originais formulações teóricas sobre a natureza específica da arte moderna brasileira. (…) Oswald de Andrade foi indagado por seu amigo e escritor Raul Bopp (1898-1984), que o acompanhava na observação: “Vamos fazer um movimento em torno desse quadro?” Abaporu, 1928, que em tupi-guarani significa “antropófago”, foi o nome escolhido para aquela figura selvagem e solitária. Funda-se em seguida o Clube de Antropofagia, juntamente com a Revista de Antropofagia, em que é publicado o Manifesto Antropófago, escrito por Oswald de Andrade como o cerne teórico do movimento nascente. (…) “Como antropófagos somos capazes de deglutir as formas importadas para produzir algo genuinamente nacional, sem cair na antiga relação modelo/cópia, que dominou uma parcela da arte do período colonial e a arte brasileira acadêmica dos séculos 19 e 20. (…)” [Oswald de Andrade].

PROEJTOS

Zicartola
Em 2016, o Itaú Cultural realizou uma ocupação dedicada ao cantor e compositor carioca Cartola (1908-1980) e dentro da exposição reproduziu uma parte do restaurante Zicartola, fundado em 1963 por Dona Zica, esposa de Cartola, no sobrado de número 53 da Rua da Carioca, no Centro do Rio. A ideia para o Zicartola veio das rodas de samba que o cantor organizava na Associação das Escolas de Samba, na Rua dos Andradas, onde trabalhava como porteiro, e onde Dona Zica vendia marmitas para o público local. O restaurante acabou se tornando ponto de resistência à ditadura e reduto de intelectuais, reunindo universitários, poetas, sambistas e a esquerda da época, levando o samba para diferentes camadas da sociedade. Entre os frequentadores do espaço estavam o compositor Monarco, o cantor Zé Keti e o produtor musical Rildo Hora, entre vários outros. O Zicartola durou apenas dois anos, mas foi importante para diversos acontecimentos da cena cultural do Rio, como a inserção de Cartola na gravadora Discos Marcus Pereira e a congregação dos artistas do show Opinião. Diz-se também que o primeiro cachê do jovem Paulinho da Viola foi pago por Cartola, em apresentação no restaurante.

Hip-hop cozinha
Em 2010, o poeta, MC e ator Ayrton Félix Olinto de Souza, conhecido como Zinho Trindade, criou o programa web Hip-Hop Cozinha, com o objetivo de compartilhar ideias sobre carreira, política e sociedade com os artistas da periferia, enquanto preparavam um prato. A culinária foi escolhida como elemento capaz de aproximar as pessoas e como contraponto ao machismo de boa parte do hip-hop e do rap. Foram convidados artistas de várias origens e estilos, desenhando um mapa da música no Brasil. O projeto teve apoio do Rumos Itaú Cultural 2013-2014 para a realização de sua segunda temporada, que contou com a participação de artistas como Gog, Rico Dalasan, Nelson Triunfo e Rapadura.

Panela sergipana
Paloma Naziazeno mapeou alimentos em desuso no estado de Sergipe e compilou a pesquisa no livro Panela Sergipana: Sabores da Terra das Araras e Cajus, que teve apoio do Rumos Itaú Cultural 2017-2018. Além da preservação da memória local, o livro apresenta modos de preparo e cultivo de alimentos. São 16 variedades, entre plantas, peixes e pratos, relacionados por suas questões agronômicas, econômicas, sociais e afetivas. A pesquisa de Naziazeno cobre o Baixo São Francisco até o norte de Sergipe. A questão de gênero é implícita no trabalho, pois, historicamente, são apenas as mulheres que cozinham na região. Umbu-cajá, maxixão, manjongome, caboje, maniçoba, cari, uricuri, cambuci, maracujá-de-trovoada e dicuri estão entre as iguarias mencionadas no livro, que conta com colaborações da fotógrafa Melissa Warwick e da chef Seichele Barbosa. Um “banquete de gratidão” é previsto como forma de retorno para as comunidades com as quais Paloma Naziazeno trabalhou.

 

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