Da tirania da linguagem da arte

Os problemas colocados pela exposição inaugural do espaço de projetos da Coleção Moraes-Barbosa

Paula Alzugaray

Publicado em: 15/04/2022

Categoria: Da Hora, Destaque, Reviews

Vídeo de Tony Cokes

Quantos pontos de partida tem uma exposição? Em Estado de Possessão: Notas para uma Estética da Tortura, mostra inaugural do espaço de projetos da Coleção Moraes-Barbosa, um início incontornável é definido pelo som do vídeo Evil. 16 (Torture.Musik) (2009-2011), de Tony Cokes, que atrai o visitante para a última sala do espaço. A instalação, que anima fragmentos de um artigo jornalístico sobre o uso da música como instrumento de tortura e manipulação psicológica na prisão de Guantánamo (que foi exposto na 34ª Bienal de São Paulo, em 2021), dispara palavras que irão se repetir ao longo do percurso da exposição: cela, estresse, trauma, guerra. 

Outro início possível da mostra com curadoria de Cris Ambrosio e Deyson Gilbert é um fragmento de As Guerrilheiras, da feminista Monique Wittig, que figura em uma folha de ofício onde está impresso também um mapa do espaço. Esse trecho – que fala sobre a origem da linguagem como ato de autoridade dos dominadores – indica uma direção a tomar, uma instrução a seguir: “Procure nas lacunas, em tudo o que não é a continuidade dos discursos deles, no zero, no O, no círculo perfeito que você inventa para aprisioná-los e derrotá-los”. 

No centro do teto da segunda sala, então, onde está o Zero Centavo (1974-1978), de Cildo Meireles, está o terceiro início. Tábula rasa. Volte três casas. A instrução é: esqueça tudo o que buscava encontrar quando entrou no espaço expositivo e comece tudo de novo. Um encontro com os curadores no meio da exposição atesta que Marcel Duchamp – ou melhor, os conflitos semânticos que Duchamp estabeleceu entre as coisas – é o real detonador do raciocínio que os conduziu nesta edição espacial de cerca de 30 itens da coleção de Pedro Barbosa. 

 Introvert/ Penetrate/ Extrovert (1973), de Iole de Freitas

Esqueça a neutralidade dos espaços expositivos. Estado de Possessão é sobre “como lidar com o arquivo, como lidar com o documento, como lidar com objetos que detonam efeitos estéticos”. Encontre sentidos inerentes ao atrito entre a entrevista de Marcel Broodthaers com um gato (1970), o poema de Neide Dias de Sá publicado na revista Ponto número 1 e o rascunho de um retrato de Stalin, por Nikolai Andreiev, pousados em uma base horizontal, ao rés do chão. 

A expografia reflete esses conflitos. Atente para a lógica da montagem, é o que parece dizer a faca – ferramenta de corte, edição – que reincide na sequência de imagens Introvert/ Penetrate/ Extrovert (1973), de Iole de Freitas. Ela está na parede, bem acima do nível dos olhos, alterando o ponto em que a convenção manda instalar a fotografia. Atente ainda para as dominações de gênero implícitas na tirania da linguagem da arte. Por exemplo, na representação da mulher, no Retrato (sem data) desenhado por Stanley Brown. 

São inúmeras as entradas de uma exposição. Encarar Estado de Possessão como um statement inaugural de um espaço de arte é outra delas. Nesse sentido, o caminho, indicam os curadores, é encarar a arte como um problema. 

Estado de Possessão: Notas para uma Estética da Tortura
ÚLTIMO DIA: sábado 16/4
Coleção Moraes-Barbosa, Travessa Dona Paula 120, Consolação, São Paulo

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